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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°68 - DEZEMBRO DE 2002

Habitao

Habitao

O Brasil possui uma tradio construtiva utilizando alvenaria de tijolos. Esta tcnica foi trazida pelos portugueses na poca da colonizao, utilizando mo de obra escrava na produo do material e montagem das unidades habitacionais. O uso da madeira para a construo de casas se deu fundamentalmente no interior de So Paulo e na regio Sul do pas. A matria prima utilizada para a construo destas unidades era geralmente a Araucria, ou Pinheiro do Paran, uma rvore nativa encontrada no Sul do pas.

O desconhecimento de alguns princpios construtivos como a proteo da casa em relao s guas da chuva, com o uso de condutores, de pingadeiras em fachadas e planos de telhados e alguns outros cuidados relativos ao conforto ambiental, principalmente trmico, fez crescer o preconceito com relao ao uso deste material. Associou-se idia de que casa de madeira casa de pobres, de m qualidade e temporria. Havia muitas casas em madeira com fachadas em alvenaria, portanto subir na vida significava mudar-se para uma casa de material. Em 1903 a prefeitura de Curitiba probe a construo de casas de madeira no anel central, o argumento era a que a madeira possua um maior risco de incndios, porm pode-se notar um carter eminentemente discriminatrio.

Existem muitos sistemas construtivos sendo testados e utilizados na substituio da alvenaria de tijolos. Os mais comuns so casas de painis de concreto, alvenaria estrutural de blocos de concreto, e outros sistemas pr-fabricados baseados em produtos utilizando em sua composio principalmente o cimento e o ao.

possvel afirmar que existem inmeras vantagens com relao ao uso da madeira de pinus na construo de unidades habitacionais: em funo do peso da edificao, as fundaes ou alicerces so bem mais simples; o tempo de construo pode ser reduzido a 1/3 em relao alvenaria; em funo de um planejamento e projeto da obra todos os componentes podem chegar pr-fabricados, reduzindo os tradicionais desperdcios; as instalaes eltricas e hidrulicas podem ser muito mais simples e de fcil acesso no caso de uma eventual manuteno; com relao ao conforto trmico, a madeira um material isolante, por isso deve haver um cuidado no clculo e orientao das aberturas bem como especificao do material da cobertura. O principio da estufa pode ser a associao da madeira como vedao com telhas de fibro-cimento, ou seja, o calor entra pela cobertura e permanece no interior da edificao ou o frio entra pela cobertura e pelas frestas das janelas e permanece no interior da edificao. Por este motivo necessrio compreender com se d o ganho ou a perda trmica em construes em madeira.

Com relao acstica pode-se afirmar que quanto mais pesado o material melhor o isolamento acstico da edificao. Construes de tbuas de madeira tem um baixo isolamento, sendo possvel solucionar este problema utilizando-se paredes duplas ou paredes duplas com conectores metlicos, sendo que esta ltima possui um melhor isolamento acstico do que paredes de tijolos e de concreto. Existem ainda dois argumentos que poderiam depor contra o uso do pinus: a durabilidade e a resistncia ao fogo. A durabilidade uma questo de projeto e de especificao do uso adequado da espcie, e execuo da obra. Por este motivo importante a contratao de profissionais especializados em projetos e construes em madeira. Quanto ao risco de incndios, a evoluo de um incndio em edificaes depende dos materiais envolvidos. O que pega fogo inicialmente o carpet, as cortinas,os livros e papeis ou plsticos. A evoluo do incndio tambm depende da bitola das peas utilizadas na construo, bem como do revestimento da sua superfcie. Porm uma estrutura de madeira carbonizada oferece muito mais estabilidade estrutural que o ao, por exemplo.

A principal vantagem do uso do pinus na construo civil o baixo consumo energtico na sua produo e utilizao.Segundo o engenheiro Eduardo Krger para uma construo ser considerada ecologicamente correta, sob o ponto de vista da conservao de energia e utilizao correta dos recursos naturais, necessrio atender alguns requisitos: quais os insumos energticos na constituio fsica da edificao, principalmente envolvidos na fabricao transporte e montagem; como se d o uso da edificao com relao ao consumo de energia durante seu uso (climatizao, iluminao e aquecimento de gua); necessria a anlise do consumo energtico na demolio ou a possibilidade de reutilizao deste material. Neste sentido podemos considerar construes utilizando espcies de madeira provenientes de reflorestamentos ecologicamente corretas O pinus possui um baixo consumo de energia, a energia solar responde pela sua formao, e o consumo energtico em seu processamento mnimo, se comparada a outros materiais , sendo reciclvel e biodegradvel, com a existncia de reas de reflorestamentos no sul do pas e na regio de So Paulo e Minas. A floresta ainda contribui no seqestro de carbono e na melhoria das nossas condies atmosfricas. Considerando as 6,5 milhes de unidades necessrias para a soluo de um grave problema social, estas questes relativas conservao e utilizao correta da energia so de fundamental importncia.

Outro fator que devemos chamar a ateno a questo do design como valorizao do produto pinus. O que existe hoje no mercado em relao construes em pinus o sistema construtivo de tbuas com mata juntas, utilizando pinus de terceira, com altos teores de umidade e nenhuma preocupao em relao sua preservao. Este tipo de produto associa idia de construes em pinus com moradia temporria, de m qualidade.

O design uma atividade multidisciplinar, envolvendo conhecimentos desde a etapa de concepo de novos produtos e servios, desenvolvimento de aspectos da produo e marketing. O design ainda assume o papel de descobrir novos atributos a serem explorados, simplificao e otimizao do processo produtivo, e barateamento dos custos da construo, bem como a criao de espaos sinestsicos. Ou seja, agradveis a todos os sentidos: visual, acstico, trmico e olfativo, e tem relao com a percepo do espao. Uma casa de madeira pode ser bem mais agradvel e aconchegante que uma construo em concreto.

Segundo a Confederao Nacional da Indstria (CNI), h muitos benefcios econmicos e estratgicos advindos da atividade de design. Considera-se que esta absorva em mdia apenas 15% dos custos, mas comprometa cerca de 85% dos investimentos no desenvolvimento de um novo produto. Podemos citar outros dados estatsticos de grande importncia: cerca de 90% dos projetos implementados geraram lucros e o perodo mdio de recuperao do investimento realizado foi de 15 meses, partir do lanamento do produto; nos casos em que foi possvel fazer comparao com produtos anteriores, as vendas cresceram em mdia 41%; 25% dos projetos abriram novos mercados domsticos. Outros benefcios identificados abrangeram desde a reduo dos custos de fabricao at melhorias na imagem externa da empresa e economia de estoques; nos projetos implementados, os riscos financeiros foram baixos para todos os tipos de design.

Na indstria moveleira, onde j existem alguns programas de design como fator de valorizao do produto florestal, as empresas j comeam a ser competitivas inclusive a nvel internacional, a pesquisa de mercado e o planejamento estratgico parte integrante no processo produtivo, o diferencial do design, que neste caso pode valorizar o produto em at 7 vezes mais no mercado. Segundo relatos do Greenpeace o mogno que sai ilegalmente do Pas , vendido pelos ndios da aldeia de Caiaps por US$ 30,00 o m3; e vendida como madeira serrada no mercado internacional por at US$3.300,00., madeira suficiente para confeccionar 12 conjuntos de mesa de at 12 lugares. Cada conjunto chega ao mercado atacadista a US$4.150,00x12= US$ 49.800,00. Na famosa loja Harrods de Londres , um conjunto em mogno com 12 assentos no sai por menos de US$8.500,00 x 12 = US$102.600,00 ( equivale a 4.275 arvores).Com relao construo de casas de madeira as empresas ainda no investem em um bom design como fator valorizao dos seus produtos, as plantas so muito semelhantes, no h um fator de valorizao da edificao.

A globalizao vem provocando a mudana de comportamento do mercado consumidor, exigindo das empresas um ajuste no sentido de tornarem-se mais competitivas. Qualidade apenas no mais um diferencial competitivo, para conquistar novos mercados imprescindvel acrescentar elementos e caractersticas que identifiquem e diferenciem os produtos e servios em relao concorrncia. As estratgias empresariais incluem tambm a inovao tecnolgica, e principalmente o design como fator de valorizao do produto.Sob este ponto de vista necessrio criao da cultura do uso da madeira, como nos pases desenvolvidos como EUA e Canad, bem como a capacitao de formadores de opinio como arquitetos e engenheiros com relao s vantagens do uso do pinus na construo civil, e principalmente desvincular a idia do material como produto de m qualidade e pouco durvel.





Christine LaRocca Arquiteta, Designer Industrial; Mestre em Cincias Florestais, Tecnologia e Utilizao de Produtos de Madeira e Professora do Departamento Acadmico de Construo Civil do Centro Federal de Educao Tecnolgica do Paran.

chris@netpar.com.br