MENU
Carbono
Classificao do Pinus
Colheita
Desdobro
Espcies
Geoprocessamento
Habitao
Manejo
Meio ambiente
Melhoramento
Mercado
Mercado-Europa
Mercado-Oferta
Nutrio
Painis
Pinus Tropical
Plantio
PMVA
Pragas
Preservao
Preservao
Qualidade
Resduos
Resinagem
Secagem
Silvicultura
Sispinus
Usinagem
Anunciantes
 
 
 

REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°68 - DEZEMBRO DE 2002

Desdobro

Desdobro

A Regio Sul do Brasil destaca-se pela marcante atuao do setor madeireiro, onde a indstria de serrados apresenta-se como uma das mais atuantes. Isto se deve principalmente a caractersticas geogrficas, onde os trs estados da regio apresentavam uma abundante cobertura florestal.

A indstria de madeira serrada comeou a ser implantada h aproximadamente um sculo atrs, passando por contnua expanso e sendo atualmente um dos mais importantes setores da indstria. Como fonte de matria prima, esta atividade utilizou durante dcadas madeira oriunda das grandes extenses de florestas nativas, principalmente das florestas de araucria, as quais chegaram a um esgotamento quase total. Estas serrarias instaladas para este tipo de matria prima foram utilizavam inicialmente serras de quadro e posteriormente serras de fita com volantes de grandes dimetros e, em funo da variabilidade de dimetros e espcies eram providas de pouca ou nenhuma automao.

A partir da dcada de 60, com a escassez de matria prima nativa e atravs da lei de incentivo fiscal para reflorestamentos, as indstrias de papel e celulose, bem como algumas outras indstrias do setor madeireiro deram incio a um amplo programa de implantao de grandes macios florestais com essncias exticas. Na Regio Sul, as principais espcies utilizadas foram Pinus elliottii e Pinus taeda. Inicialmente, as reas reflorestadas com pinus foram destinadas ao suprimento de fibras para a indstria de celulose. Porm, com o aumento da demanda na indstria de serrados, este setor foi em busca de matrias primas alternativas, a fim de suprir as suas crescentes necessidades. Substituindo a matria prima de grandes dimenses, obtida principalmente nas florestas nativas por madeira de pequenas dimenses, disponvel nas plantaes de P. elliiottii e P. taeda. Atualmente, este recurso florestal j responde por aproximadamente um quarto da produo de serrados no pas.

Para utilizar espcies de Pinus na produo de madeira serrada, as indstrias sofreram um intenso processo de adaptao, onde foram foradas a reavaliar principalmente seus produtos e processos de converso. No processamento de toras de pequenos dimetros e pouca variabilidade, de uma matria prima de rpido crescimento, tem-se um rendimento menor e um produto final de menor valor agregado. Desta maneira, para que um empreendimento com estas caractersticas obtenha sucesso, necessrio que o processo de converso das toras seja o mais rpido possvel, reduzindo assim os custos de produo.

Para se atingir a necessria produo, as serrarias bem como as indstrias fabricantes de mquinas mudaram seus conceitos quanto ao processamento mecnico de toras. Serrarias que produziam de 3 a 5 m3/operrio/turno, tidas como boas serrarias, atravs de uma readaptao e intenso processo de automao, elevando a produtividade para nveis acima de 20 m3/operrio/turno.

Porm, em funo da falta de uma poltica adequada para o setor por parte dos governos federal e estaduais, bem como dos elevados investimentos que so necessrios, poucas so as serrarias que podem atingir bons nveis de produo. Desta maneira, o que muito se v na Regio Sul, so pequenas serrarias, com equipamentos lentos e quase nenhuma automao, processando a madeira de Pinus com tcnicas inadequadas.

Ptio de Toras

No perodo em que as serrarias utilizavam madeira nativa como principal fonte de matria prima, pouco se podia fazer em um ptio de toras. Em funo da variabilidade nas dimenses das toras e at mesmo de espcies, o ptio de toras era destinado simplesmente ao recebimento e transferncia das mesmas para a serraria.

No processamento de pinus, o ptio de toras tornou-se fator determinante na eficincia da serraria, sendo responsvel muitas vezes, pelo bom desempenho das operaes de desdobro. Como a matria prima recebida apresenta uma grande quantidade de toras com uma amplitude diamtrica pequena, possvel e justificvel, a instalao de dispositivos e equipamentos para classificao das toras. Atravs da separao das toras em classes diamtricas, pode-se programar as operaes, em funo do que necessrio produzir de acordo com as classes diamtricas mais adequadas para cada produto.

Desta forma, o ptio de toras deixou de ser um simples setor de recebimento e envio de toras serraria, para ser o local onde so realizadas diversas operaes com um elevado grau de preciso. No lugar de toras curtas, o ptio recebe sees de fuste com maior comprimento. Estas sees passam por equipamentos, os quais com uso de scanners e raio laser principalmente, realizam um rastreamento de todo o fuste e posteriormente, com o auxlio de softwares especficos otimizam o traamento do mesmo, a fim de obter o mximo rendimento em madeira serrada. No Brasil so poucas as serrarias que dispem de sistema de rastreamento do fuste, mas a prtica de se traar toras com maiores comprimentos no ptio j frequente. Entre os principais benefcios que este procedimento traz, pode-se citar a facilitao e rapidez nas operaes de carregamento e transporte e uma maior proteo das toras contra fungos manchadores.

As toras obtidas, aps serem descascadas, passam novamente por um sistema de rastreamento de seus perfis, o qual determina uma separao das mesmas em classes diamtricas. Isto permite uma programao das operaes na serraria, onde os equipamentos de desdobro so ajustados para determinadas classes diamtricas e determinados produtos, aumentando em muito a velocidade de alimentao da serraria.

O descascamento das toras um procedimento que proporciona algumas vantagens serraria. As toras descascadas podem ter seus perfis avaliados com maior preciso, melhorando a qualidade da classificao das mesmas em suas respectivas classes. Tora descascada deixa de levar para dentro da serraria uma grande quantidade de impurezas aderidas casca, o que provoca um desgaste excessivo das ferramentas cortantes e um maior gasto na lubrificao dos dispositivos de transporte e movimentao das peas serradas dentro da serraria. Outro fator importante a qualidade do resduo gerado. Uma serraria moderna necessita atingir bom nvel de competio de seus produtos no mercado. Para isto, necessrio o melhor aproveitamento possvel da matria prima. Portanto, importante se obter um resduo de qualidade.

Ao se desdobrar toras com casca, o resduo aps ser convenientemente picado um resduo sujo, pois contm grande quantidade de casca e impurezas, sendo destinado, na maioria das vezes, para gerao de energia. O resduo de toras descascadas matria prima para fabricao de produtos com maior valor agregado, como chapas de partculas ou fibras e obteno de celulose, atingindo melhores valores de comercializao.

Em funo do contnuo aumento do custo da matria prima associado reduo da oferta, outra prtica que vem se tornando cada vez mais comum nos ptios de serrarias de pinus a adoo de tcnicas de proteo das toras, principalmente contra fungos manchadores. Dentre estas prticas destaca-se a instalao de sistemas de asperso, onde atravs do constante contato com a gua, as toras adquirem uma pelcula externa de gua, o que restringe a presena de oxignio, no permitindo um ambiente adequado para o desenvolvimento dos fungos.

Desdobro

Com uma matria prima de pequenas dimenses e rigorosamente selecionada, uma serraria de pinus pode atingir elevado grau de automao, onde as toras so conduzidas mesma, atravs de uma mesa de alimentao at a mquina de desdobro principal para reduo de suas dimenses em peas menores, facilitando as operaes de desdobro secundrio. Como consequncia do nvel de automao, cada vez mais comum serrarias atingirem velocidades de alimentao de 50 metros lineares por minuto ou at mais. Porm, em pases desenvolvidos, muitas serrarias atingem uma velocidade de at 150 m/min. Com uma velocidade de alimentao de 50 m/min, trabalhando-se com toras de 2,5 m, tem-se a entrada de 20 toras por minuto. Isto requer, um ajuste preciso dos equipamentos e uma rigorosa classificao da matria prima, alm de mecanismos eficientes de movimentao e transferncia das toras e peas serradas.

Dimenses da Tora

Ao entrar na serraria, a tora passa primeiramente pelas operaes de desdobro principal, as quais visam a sua transformao em peas de menores dimenses. Nas operaes seguintes, as peas obtidas so reduzidas s dimenses finais planejadas.

Em tcnicas convencionais, o equipamento utilizado para a reduo da tora sempre foi a serra de fita, em funo de sua versatilidade quanto possibilidade de serrar pequenos e grandes dimetros num mesmo equipamento sem desperdcio de energia. Alm disso, a serra de fita tem a vantagem de proporcionar pequenas espessuras de corte, gerando menor quantidade de serragem. Como em tcnicas convencionais, muitas vezes a tora desdobrada em tbuas ou pranches, onde so realizados cortes internos, uma menor gerao de serragem implica no aumento do rendimento em madeira serrada. Para se entender melhor o que sejam cortes externos ou internos, pode-se observar a Figura 1. Os cortes 1, 2, 3 e 5 so considerados cortes externos, onde possvel se direcionar o fio de corte para a costaneira. Sendo assim, a serragem torna-se parte da costaneira que inevitavelmente j seria resduo. Os cortes 4, 6 e 7 so cortes internos e, um fio de corte mais espesso implica em desperdcio de madeira, pois consiste em transformar parte da madeira macia em serragem.

Com a utilizao de tcnicas modernas, o desdobro principal consiste na maioria das vezes numa operao que realiza exclusivamente cortes externos na tora, onde a maior gerao de serragem uma questo secundria. Sendo assim, possvel a utilizao de outros equipamentos, como as serras circulares e os picadores.

As serras circulares so equipamentos que podem atingir maiores velocidades de corte e, com a utilizao de serras de dois eixos, possvel reduzir as dimenses dos discos de serra e, consequentemente suas espessuras, reduzindo a gerao de serragem. Estes equipamentos transformam a tora em um semibloco ou bloco para posterior desdobro secundrio. A mesma operao pode ser realizada com os chamados picadores perfiladores, os quais ao retirarem as costaneiras, as picam simultaneamente, facilitando a retirada dos resduos. Estes equipamentos so muito utilizados em serrarias que trabalham integradas com outras unidades de processamento como as indstrias de chapas e de celulose.

Desdobro Secundrio

A principal operao de desdobro secundrio a resserragem, em funo de que os cortes realizados, so em sua maioria internos, acarretando em perda de madeira na forma de serragem. Por se tratar de toras de pequenas dimenses utiliza-se muito as serras circulares mltiplas de dois eixos. Estes equipamentos tm como principal vantagem a grande velocidade de alimentao que podem atingir, alm dos mltiplos cortes que so realizados. Porm, as serras circulares so equipamentos que geram uma grande quantidade de serragem, onde as espessuras dos fios de corte atingem facilmente 5 mm ou mais. Na Figura 2, observa-se a operao de resserragem de um semibloco e de um bloco em uma serra circular mltipla de dois eixos.

Caso sejam serradas peas com 27 mm de espessura e o fio de corte seja de 5 mm, tem-se uma perda de aproximadamente 20% da madeira na forma de serragem. Na situao A da figura, no desdobro de um semibloco, tem-se os dois cortes mais externos que retiram as costaneiras e que no implicam em desperdcio de madeira, pois o fio de corte posiciona-se dentro da costaneira. Os demais cortes so internos e implicam em perda de madeira na forma de serragem. J na situao B da Figura 2, todos os cortes so realizados internamente na pea, acarretando perda de madeira na forma de serragem.

Ainda como operao de desdobro secundrio tem-se muitas vezes operaes de canteagem e destopo das peas. Como nestas operaes so realizados cortes com pequenas alturas, e normalmente, cortes externos pea, so recomendadas as serras circulares, pois no existe preocupao com o rendimento,mas sim com a produo. Em algumas situaes, quando se realiza a reduo nas larguras das peas, dividindo-as em duas ou mais peas, os cortes realizados so internos, implicando em maior perda de madeira. Porm, devido menor altura de corte, os discos de serras podem ser menos espessos, causando menor gerao de resduos.

Nas operaes de canteagem, utilizava-se as serras circulares simples, onde era possvel a realizao de um nico corte por vez, com auxlio de uma guia. Hoje, para poder serrar todas as peas oriundas das operaes anteriores, a indstria nacional dispe de mquinas eficientes, capazes de comportar mais de 10 discos de serra com a possibilidade de movimento de alguns discos ou pares de discos (Figura 3). Estas serras so providas desde ajustes manuais at as mais eficientes que dispem de canhes a laser que proporcionam ajuste automtico dos discos, aumentando o rendimento e a produtividade.

No destopo das peas, em funo da pouca variao no comprimento das mesmas e da homogeneidade da matria prima, as indstrias so providas das mesas de destopo, as quais so as nicas capazes de comportar as elevadas velocidades de alimentao. Porm, em funo de prticas de explorao avanadas, com utilizao de equipamentos que traam as toras com preciso ou do traamento de fustes no ptio da serraria tambm em mquinas de boa preciso, muitas serrarias no realizam esta operao, ou realizam somente em peas de reaproveitamento, onde necessrio a reduo dos comprimentos das peas.

Atualmente, a indstria de serrados tem encontrado com freqncia, problemas com o suprimento de matria prima. Desta maneira, o custo de produo da madeira serrada de Pinus, vem aumentando frequentemente. Alm disso, cada vez mais o mercado torna-se competitivo, com variadas opes de produtos.

Para que possa manter seus produtos competitivos, o serrador precisa adotar uma srie de medidas a fim de reduzir os custos de produo. Muitas so elas, como melhoria no rendimento e na produtividade e desenvolvimento de novos produtos. Mas imprescindvel uma ateno especial aos resduos que so gerados na serraria. O volume de resduos que so gerados anualmente nas serrarias muito grande e no pode ser desprezado.

Para uma serraria produzir 100 m3 de madeira serrada, so gerados aproximadamente 220 m3 de resduos, considerando-se um rendimento de 45%. Portanto, quanto melhor for o aproveitamento do resduo, melhor ser o lucro obtido com o mesmo, reduzindo-se os custos de produo. necessrio que o serrador se preocupe em gerar um resduo limpo, sem casca, com cavacos de dimenses convenientemente obtidas, a fim de que o mesmo possa ser utilizado como matria prima para outras indstrias como as de chapas e celulose.



Mrcio Pereira da Rocha

Engenheiro Florestal

Professor Adjunto do Departamento de Engenharia e Tecnologia Florestal

Setor de Cincias Agrrias Universidade Federal do Paran

mprocha@floresta.ufpr.br

Maio/2003