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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°68 - DEZEMBRO DE 2002

Carbono

Carbono

Alguns gases da atmosfera, especialmente o dixido de carbono (CO2), formam uma capa protetora que impede que o calor absorvido pela Terra advindo da radiao solar escape para o espao exterior. Tal processo conserva o calor terrestre, de forma a no permitir grandes variaes dirias de temperatura, funcionando como um protetor solar durante o dia e um cobertor durante a noite. Tal efeito gerado pela natureza no s benfico, mas indispensvel para a manuteno da vida na Terra. Contudo, atividades humanas mais recentes, como a poluio do ar provocada pelas indstrias, pela queima de combustveis fsseis como o petrleo e pelas queimadas, vm aumentando em muito a concentrao de CO2 na atmosfera (Figura), promovendo um consistente e perceptvel incremento nas temperaturas globais, gerando o chamado efeito estufa.

Reconhecendo que as mudanas climticas relativas ao efeito estufa vm ocorrendo em escala global, 150 pases assinaram a Conveno sobre Mudanas Climticas das Naes Unidas durante a Conferncia Rio-92, com o objetivo de comprometer as naes industrializadas a reduzirem suas emisses de CO2, at o ano 2012, ao equivalente aos nveis de 1990.

No ano de 1997, na cidade de Quioto Japo, foi realizada a Terceira Conferncia das Partes da Conveno do Clima, onde foi aprovado o conhecido Protocolo de Quioto. Aquele documento determina o estabelecimento de compromissos por parte dos pases desenvolvidos em atingir uma meta de reduo das emisses de 5,2% em relao ao ano de 1990, durante o perodo de 2008-2012. Entretanto, o que se tem observado um aumento da ordem de 10% nas emisses na ltima dcada, sendo maior ainda nos Estados Unidos, onde essa taxa sobe a 18%.

O Protocolo foi ratificado pela maioria dos pases, restando ainda os Estados Unidos, o Canad e a Rssia, como importantes atores nesse contexto, a homologar o acordo. Os dois ltimos j se comprometeram a assinar o Protocolo ainda neste ano, mas os Estados Unidos se negam a faz-lo sob a alegao de que ele traria prejuzo economia norte-americana. Mesmo sem o aval dos americanos o Protocolo de Quioto poder ser implementado quase de imediato, se as outras naes assim decidirem, mas inegvel que a ausncia da nica superpotncia do planeta nos dias de hoje seria frustrante.

No Protocolo de Quioto foram tambm estabelecidos mecanismos de flexibilidade para atingir as metas de reduo de emisso de poluentes, entre eles o chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). Os objetivos do MDL atingem tanto pases desenvolvidos como os em desenvolvimento. Para os pases como o Brasil, o MDL visa principalmente a promoo do desenvolvimento sustentvel e o uso racional dos recursos naturais. J para os pases desenvolvidos, o foco sobre a reduo da poluio atmosfrica e uso de fontes alternativas de energia.

Tendo em conta que o CO2 um gs de circulao global, e, portanto, sua absoro independe da origem de sua fonte de emisso, a princpio, as emisses produzidas por determinado pas, regio ou empresa podem ser compensadas por outrem, independentemente da sua localizao no globo. Essa compensao pode se dar de diversas formas, entre as quais mudanas de matriz energtica e o estmulo fixao de carbono pela vegetao, especialmente plantaes florestais ou reflorestamentos.

No caso de reflorestamentos, para que a compensao se efetive, dever haver uma formalizao do processo, por meio de um projeto tcnico-cientfico e financeiro, onde devero ser prescritas as quantidades de carbono fixado, bem como os montantes financeiros atribudos. Uma vez formalizado o projeto, poder ocorrer a negociao entre as partes, isto , a que se interessa em adquirir os chamados crditos de carbono e aquela detentora da floresta. O valor inerente ao servio ambiental decorrente ser regulado pelo mercado, sob a gide da livre concorrncia, em bolsa ou outro ambiente semelhante. Os montantes hoje gravitam entre 4 a 10 dlares por tonelada de carbono fixada, mas o mercado ainda no est estabelecido a ponto de haver uma definio clara sobre isso.

Apesar do aparente fracasso do encontro Rio+10, realizado no ms passado em Johannesburgo, na frica do Sul, as perspectivas para o mercado de carbono continuam alvissareiras. Foi noticiado pela mdia que o projeto da empresa Plantar de Minas Gerais, com plantios de eucalipto, foi reconhecido e acatado pelo Banco Mundial, o que abre oportunidades para que outros empreendimentos florestais brasileiros se beneficiem desse negcio. Em verdade, existem diversas posies, desde as mais otimistas at as mais pessimistas, mas certamente o setor florestal brasileiro deve ficar atento para no desperdiar o potencial de negcios gerado pelo comrcio de crditos de carbono, o qual pode rapidamente se efetivar.

Como dito anteriormente, o reflorestamento um dos principais mtodos mediante o qual o carbono atmosfrico pode ser fixado. Por conseguinte, h a real possibilidade de se auferir retorno financeiro por esse servio. Ento, o que preciso fazer para entrar no negcio? Bem, a resposta ainda no pode ser dada na sua plenitude, mas seguramente estar preparado e bem informado uma boa estratgia. Estar preparado significa, entre outras coisas, saber o potencial que uma empresa detentora de reflorestamentos tem em termos de fixao de carbono. Tal informao pode ser obtida atravs do emprego de mtodos de inventrio florestal combinados com a quantificao de biomassa e anlises laboratoriais dos teores de carbono na mesma. Alguns centros de pesquisa j realizam esses estudos, entre os quais a Universidade Federal do Paran, atravs do Laboratrio de Inventrio Florestal (www.floresta.ufpr.br/~invflor).

Cada espcie possui uma capacidade de armazenar carbono de maneira diferente. Existem tambm diferenas entre os teores de carbono nas distintas partes da biomassa das rvores (tronco, galhos, folhagem, razes, etc.). No caso do Pinus, j existem trabalhos publicados e outros sendo desenvolvidos na UFPR.

Uma anlise recente mostra que o potencial de fixao de carbono em plantaes de Pinus, considerando toda a sua biomassa, de 14,9 t/ha por ano, sendo 8,8 t/ha por ano somente para a poro do tronco. Em simples analogia, isso resultaria em uma fixao da ordem de 300 t em uma rotao de 20 anos, tendo em vista a biomassa area e subterrnea. Considerando os valores mnimos e mximos aventados para a negociao por tonelada fixada no mercado de carbono, ter-se-ia uma receita com o negcio da ordem de US$ 1,200.00 a US$ 3,000.00 por hectare. Considerando que muitas empresas de porte mdio, que plantam Pinus no sul do Brasil, no raramente possuem reas superiores a 1.000 hectares, a receita se multiplicaria na mesma escala, atingindo cifras da ordem de milhes de dlares. Esse potencial no pode ser negligenciado!

Algumas questes seguramente surgem frente do empreendedor florestal que planta Pinus nesse momento no que concerne ao assunto do mercado de carbono. Algumas delas so as seguintes:

Qual o compromisso que terei com o comprador de crditos de carbono de minha floresta?

Eu poderei manejar minha floresta sem restries, promovendo desbastes e corte raso com liberdade?

Qualquer povoamento poder considerado ou existe alguma restrio?

Como quantificar o carbono fixado em minha floresta?

Como iniciar contatos para negociar meus crditos de carbono?

Embora todas as respostas ainda no possam ser respondidas de pronto, o que se pode dizer mais concretamente nos dias de hoje o seguinte:

Dever haver um compromisso formal entre as partes, no qual o detentor da floresta aceitaria os termos do contrato, se comprometendo a manter a floresta sob seu domnio por uma rotao pr-definida;

A floresta poder ser manejada, sem problemas, e a madeira poder ser comercializada como de costume. O contrato entre as partes fixar limites e pocas para as prticas de manejo dentro de parmetros tcnicos aceitveis;

Existe polmica sobre quais povoamentos podero ser considerados para fins de crditos de carbono. Isso ser decidido em breve, mas duas situaes so possveis: somente os povoamentos plantados a partir de 1990 sero aceitos; o Banco Mundial defende que o ano de referncia passe para 2000. Em princpio a reforma de plantios antigos poderia ser tambm contemplada;

A quantificao de carbono dever ser feita mediante procedimentos tcnicos de inventrio florestal, quantificao de biomassa e anlises laboratoriais, como previamente mencionado. Esse trabalho dever ser contratado junto a entidades de pesquisa e a universidades. Entidades independentes faro auditoria para conferir se a quantificao seguiu o rigor tcnico;

As preliminares dos negcios podero ser iniciadas imediatamente. J existem entidades especializadas e com contatos no exterior para prospectar oportunidades para os detentores de reflorestamentos de Pinus no sul do Brasil.

Em sntese, ainda existem dvidas e polmicas sobre o mercado de carbono para reflorestamentos de Pinus, mas preciso ficar atento para que as oportunidades no passem nossa frente sem que possamos nos beneficiar delas. A atitude correta a tomar estar bem informado sobre o assunto e preparado tecnicamente para uma eventual negociao. Isso implica em saber o valor do seu produto, no caso o carbono fixado. Esse um passo que j pode ser dado. Quem chegar antes fonte poder beber a gua limpa!

Processo de determinao de biomassa em Pinus para fins de quantificao de carbono fixado

Carlos R. Sanquetta

Professor de Inventrio Florestal

Departamento de Cincias Florestais

Universidade Federal do Paran

sanqueta@floresta.ufpr.br

Maio/2003