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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°68 - DEZEMBRO DE 2002

Manejo

Manejo

O Brasil possui uma ampla rea reflorestada com espcies do gnero Pinus, a qual est localizada principalmente nos Estados do Paran (cerca de 36% da rea), Santa Catarina (20%), So Paulo (11%) e Rio Grande do Sul (7%). Outros Estados da Federao tambm detm plantaes de Pinus, mas em menor escala. Estima-se que essa rea reflorestada totalize cerca de 1,8 milho de hectares.

A grande maioria dessas plantaes de Pinus existentes no Pas utiliza espcies subtropicais e temperadas advindas do hemisfrio norte, notadamente do sul dos Estados Unidos, as quais se adaptaram muito bem s condies climticas e dos solos do Brasil. Uma parte menos expressiva composta de plantios com espcies tropicais originrias principalmente da Amrica Central, as quais tambm crescem muito satisfatoriamente em grande parte do territrio brasileiro. Entre as espcies mais tradicionalmente plantadas destacam-se Pinus taeda, P. elliotttii, P. caribaea, P. oocarpa, P. patula, entre outras. Novas espcies de Pinus tropicais tambm vm sendo experimentadas por diversas empresas.

O modelo de manejo florestal adotado para essas plantaes foi concebido luz da necessidade de suprir a indstria de papel e celulose que se estabeleceu no Brasil a partir de meados do sculo passado. Os primeiros plantios foram iniciados ainda na dcada de 50, mas foi com o advento da Poltica de Incentivos Fiscais ao Reflorestamento, deslanchada a partir da dcada de 60, que houve uma grande expanso dos macios de Pinus no Pas.

Como o objetivo original dos reflorestamentos era suprir a indstria de papel e celulose, os povoamentos foram estabelecidos com uma densidade inicial de 2.000 a 2.500 rvores por hectare (espaamentos de 2,5 x 2,0 m e 2,0 m x 2,0 m, respectivamente), que resultam em elevada produo de biomassa por unidade de rea. Para atingir o objetivo precpuo de fornecer matria-prima para processo, esse modelo de manejo no previa originalmente a adoo de podas e desbastes, dado que o interesse residia em produzir grande quantidade de biomassa, sem preocupao com a qualidade da mesma.

A idade de rotao de 20 anos foi adotada como referncia. Todavia, mais tarde tenha havido uma tendncia em utilizar a idade de 25 anos, haja vista a possibilidade de se obter toras de maior dimenso teis ao processamento mecnico em serrarias e laminadoras, agregando valor e aproveitando uma fase de bom crescimento nessa fase etria. Embora o regime de manejo sem desbaste, com corte raso apenas, tenha sido concebido originalmente para atender finalidade industrial proposta, percebeu-se que no caso do Brasil o crescimento rpido impunha a necessidade de cortes intermedirios, pois a perda de incremento seria grande. Assim, o regime de desbaste, com um, dois, trs ou at mais cortes intermedirios passou a ser adotado quase que universalmente.

Aproveitando a oportunidade gerada atravs da Poltica de Incentivos Fiscais, muitas empresas do setor madeireiro tambm se empenharam em iniciar seus plantios de Pinus, embora de maneira bem mais acanhada em comparao com o setor de papel e celulose e o de chapas reconstitudas de madeira. poca, muitas empresas especializadas em executar os plantios surgiram, as chamadas reflorestadoras. Em ambos casos, o modelo de manejo florestal estabelecido pelo setor de papel e celulose foi seguido irrestritamente.

Os anos 70 foram marcados pelo declnio da disponibilidade de madeira nativa no centro-sul do Brasil, pela exausto das reservas de araucria ou pinheiro brasileiro (Araucaria angustifolia). Na mesma poca, os plantios estabelecidos comearam a ser desbastados. As empresas mais estruturadas e de melhor performance econmica, especialmente aquelas do setor de papel e celulose, puderam executar os desbastes dentro de uma cronologia compatvel com o ritmo de crescimento e com as limitaes de espao vital nos povoamentos ditados pela concorrncia. O mesmo no aconteceu com as empresas no verticalizadas e com os reflorestamentos das indstrias de processamento mecnico que estavam bastante descapitalizadas pelas seguidas crises que o setor enfrentava.

O modelo de manejo previa a adoo de desbastes para no prejudicar o crescimento e manter uma boa taxa de produo de biomassa por unidade de rea; essa era a finalidade maior dos cortes intermedirios. No havia uma definio padronizada de como realizar os desbastes, mas em geral optou-se por combinar cortes seletivos por baixo, eliminando-se as plantas de menor qualidade, com retirada integral de algumas linhas de plantio, isto , corte parcial sistemtico. Esse modelo contrastante com a necessidade de produzir madeira para processamento mecnico o mais rpido possvel onerava o empreendedor na ocasio do primeiro desbaste. Ainda hoje o primeiro desbaste, salvo excees, oferece baixa rentabilidade econmica fora dos eixos de alto consumo de madeira fina.

A definio de regimes de manejo para plantaes de Pinus depende de uma srie de fatores e principalmente do objetivo que se pretende atingir. Basicamente dois tipos de regimes de manejo podem ser distinguidos:

Regime sem desbaste

Esse regime visa principalmente produo de uma grande quantidade de madeira por unidade de rea, para fins de abastecimento de unidades fabris de papel, celulose e chapas de madeira reconstituda (fibras e partculas). Nesse regime, geralmente emprega-se uma alta lotao de rvores por hectare, ou seja, pelo 2.000 indivduos em espaamentos quadrados ou retangulares. A idade da rotao antecipada para antes de 20 anos, aproximadamente 15 anos, maximizando a produo de biomassa, sem haver preocupao com a qualidade (dimenses das toras e presena de ns). Por isso, prticas silviculturais como poda no so compatveis como esse regime. um regime que deve ser empregado preferencialmente em reflorestamentos de empresas que fabricam celulose, papel e chapas de madeira reconstituda e de produtores que fornecem matria-prima para tais indstrias.

A economicidade desse regime depende muito da distncia de transporte, das condicionantes de mercado e de preos. Os custos com colheita por metro cbico produzido so mais baixos que no regime de manejo para produo de mltiplos produtos, pois no ocorrem cortes intermedirios, sendo mais fcil e barata a retirada de madeira dos povoamentos florestais. Atualmente esse regime usado por um nmero reduzido de empresas, porque o mercado de toras de grandes dimenses est aquecido pela escassez de madeira. Contudo, este pode se constituir em uma opo interessante para stios pobres e reas prximas a fbricas que utilizam madeira fina em grande quantidade.

Regime com desbaste

Esse regime visa produo de madeira para mltiplos usos, geralmente priorizando a produo de toras de grandes dimenses para emprego em processamento mecnico (serraria e laminao). Em regies em que h mercado para madeira fina, geralmente o material excedente (ponteiras e rvores finas ou de baixa qualidade, produzidas principalmente no primeiro desbaste) fornecido s unidades fabris ou trocado por madeira grossa. Espaamentos mais amplos geralmente so adotados, como 2,5 m x 2,5 m, 2,7 m x 2,7 m, 2,8 m x 2,8 m, at 3,0 m x 3,0 m. Espaamentos quadrados tm sido preferidos para evitar a excentricidade no crescimento na maior dimenso (linha).

Dada a necessidade de madeira de qualidade, podas so requeridas. Uma, duas ou trs podas so usuais, uma nas idades de 3 a 4 anos em todas as rvores, outra aos 7 ou 8 anos simultaneamente com o primeiro desbaste (somente nas rvores remanescentes) e outra posteriormente, variando de caso a caso. As podas so geralmente realizadas retirando-se os galhos at a 50% da altura da copa verde. Via de regra a primeira poda atinge altura mxima de 2 m, sendo facilmente executada, enquanto nas demais as dificuldades crescem e os custos tambm. Nas podas deve-se utilizar serrote ao invs de faco ou foice, pois a qualidade da poda muito superior nesse caso (Figura 1).

A produtividade e a qualidade da madeira de Pinus produzida depende muito da densidade inicial de plantio, do regime de manejo e das prticas silviculturais realizadas. Um dos aspectos que influenciam sobremaneira o desenvolvimento satisfatrio desta essncia a regularidade das roadas, controle da competio pela vegetao e de pragas, especialmente formigas cortadeiras. Vrios estudos demonstram que o grande insucesso de muitos silvicultores no passado ocorreu devido a no realizao do controle da vegetao competidora, levando a altas taxas de mortalidade e irregularidade no padro de crescimento. Deve-se manter os povoamentos livres de competio por pelo menos trs anos, quando as rvores comeam a emergir e no sofrem mais influncia da competio com a vegetao concorrente (Figura 2).

Outro fator decisivo para alcanar uma maior produtividade em reflorestamentos de Pinus a escolha de um stio de qualidade. Diz-se, e em parte verdade, que o Pinus cresce em qualquer lugar. Trata-se realmente de uma essncia de alta plasticidade ecolgica, ou seja, que se adapta a uma ampla gama de ambientes. Todavia, isso no necessariamente significa que a produtividade ser satisfatria em qualquer local. Estudos realizados na UFPR demonstram que povoamentos de Pinus podem oferecer rentabilidade negativa em stios pobres. Por isso, importante fazer uma boa escolha do local a implantar um reflorestamento dessa essncia.

A Figura 4 mostra dois discos de madeira de mesma dimenso retirados de povoamentos crescendo em stios extremos. O disco da esquerda mostra um crescimento muito bom, com anis largos e regulares. J o disco da direita mostra anis estreitos e irregulares, tpicos de rvores crescendo em condies desfavorveis de stio. Estudos realizados na UFPR mostram claramente que no existem grandes limitaes edficas para o Pinus no tocante questo qumico dos solos. Em geral, o problema maior para o Pinus a varivel fsica do solo, isto , a ocorrncia de afloramentos rochosos, presena de alta umidade e outros aspectos relacionados. A questo declividade geralmente no problemtica, podendo-se plantar mesmo em condies topogrficas menos favorveis, desde que a legislao permita.

Em sntese, para alcanar sucesso no manejo de Pinus deve-se decidir o objetivo a ser alcanado, fundamentado principalmente na questo econmica e de mercado. Deve-se ento eleger um stio adequado ao plantio e um regime de manejo compatvel com o objetivo a alcanar. O silvicultor deve ento decidir a densidade inicial de plantio, as prticas culturais e silviculturais a serem implementadas, a freqncia e o modo de execuo das podas e desbastes, a idade de rotao e o destino final da madeira. Para acompanhar o bom andamento do seu plantio o produtor florestal deve monitorar o seu investimento permanentemente atravs de inventrios florestais a serem realizados pelo menos bi-anualmente em seus povoamentos.

O mercado de madeira de Pinus no Brasil se consolidou. Hoje, o reflorestamento com esta essncia uma realidade bem sucedida. As perspectivas so muito alvissareiras. Por isso, se antes bastava plantar, isso no mais a realidade nos dias de hoje. preciso encontrar buscar a otimizao do empreendimento. O manejo florestal de Pinus evolui sobremaneira no Brasil e atualmente j existem conhecimento e tecnologia para buscar esse ponto timo. Cabe ao produtor florestal buscar informaes para plantar e manejar seus reflorestamentos de Pinus com eficincia, sem desperdcios e com melhor rentabilidade.

Carlos R. Sanquetta

Departamento de Cincias Florestais, UFPR

Maio/2003