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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°69 - FEVEREIRO DE 2003

Eucalipto

Desfazendo mitos e preconceitos

A agricultura, qualquer que seja a sua modalidade, sempre exigir modificaes nos ecossistemas naturais. Tal medida se torna indispensvel para que se possa colher, de uma mesma superfcie de terreno, maior quantidade de produtos, principalmente alimentos e fibras., to essenciais sobrevivncia e conforto do prprio homem. A agricultura foi inventada precisamente para cumprir a finalidade de se extrair mais da natureza do que dela se pode extrair por puro extrativismo.

Em virtude da assustadora expanso demogrfica, h muito tempo o homem no consegue sobreviver integrado apenas numa cadeia alimentar natural. Ao longo dos anos, vem modificando essas cadeias naturais, tornando-a cada vez mais simples, das quais ele o nico beneficiado. A necessidade por madeira um caso tpico: a demanda por produtos florestais cresce rapidamente e a madeira no encontrou, ainda, sucedneos pra certos usos. No existe, na maioria dos setores empresariais, uma preocupao em garantir o fornecimento ininterrupto da matria-prima florestal para os prximos anos. As ltimas reservas naturais esto merc dos madeireiros inescrupulosos que, com o objetivo do lucro imediato, derrubam as melhores rvores e no se preocupam com o posterior reflorestamento. Com isso, no garantem a sustentatibilidade da atividade e colocam em risco a prpria sobrevivncia do setor.

Com um mercado sempre crescente e cada vez mais exigente em qualidade, seria fora de propsito proibir a derrubada de matas naturais se no houvesse a alternativa de utilizar a madeira oriunda de reflorestamento. Em comparao com outras modalidades de uso da terra, o reflorestamento ou plantio comercial de espcies arbreas a atividade agrcola que mais se recomenda para a conservao do solo, proteo dos mananciais e a recuperao de reas degradadas. Precisamente, por este motivo, que se considera a silvicultura e os cultivos perenes como os mais indicados sistemas de uso da terra para regimes de clima tropical, onde so mais graves os riscos de degradao do solo atravs da eroso e lixiviao

Acredita-se que se no for cumprido um rigoroso programa de florestamento e reflorestamento, o Brasil encontrar trs alternativas bastante desagradveis e um tanto absurdas, face s excepcionais condies que o Brasil possui para produzir madeira, em larga escala:

Reduzir o processo de desenvolvimento, diminuindo o consumo de madeira;

Lanar mo das reservas naturais e, principalmente, da Floresta Amaznica;

Importar a madeira necessria de outras pases mais previdentes, sacrificando, ainda mais, a balana de pagamentos e aumentando a dvida externa.

O Brasil um pas de dimenso continental e de condies de clima e solo altamente favorveis para a implantao de florestas. O desenvolvimento das espcies exticas utilizadas, principalmente o pinus e o eucalipto, demonstra resultados espetaculares, com ciclos silviculturais entre 6 e 7 anos, bem diferentes dos pases de grande tradio florestal, como a Sucia, Canad e Austrlia, cujos ciclos nunca so inferiores aos 60 e 80 anos.

Alm das condies naturais bem favorveis, o Brasil possui excedentes de mo-de-obra no meio rural, bem como considervel domnio tecnolgico nas atividades ligadas formao de florestas e produo de madeira.

O eucalipto no foi escolhido por mero acaso, como o gnero potencialmente mais apropriado, mas foi uma escolha em funo das inmeras vantagens, destacando-se algumas:

Rpido crescimento volumtrico e potencialidade para produzir rvores com boa forma;

Caractersticas silviculturais desejveis, como bom incremento, boa forma, facilidade a programas de manejo e melhoramento, tratos culturais, desbastes, desramas etc.

Grande plasticidade do gnero, devido grande diversidade de espcies, adaptando s mais diversas condies;

Elevada produo de sementes e facilidades de propagao vegetativa;

Adequao aos mais diferentes usos industriais, com ampla aceitao no mercado.



Para o caso especfico do Brasil, o eucalipto possui um carter estratgico, uma vez que a sua madeira responsvel pelo abastecimento da maior parte do setor industrial de base florestal. Basta citar alguns nmeros para se avaliar quo importante a sua participao na economia nacional. Da madeira de eucalipto, atualmente, se produzem, por ano, no setor de celulose, 5,4 milhes de toneladas de celulose, representando mais de 70,0% da produo nacional; nmero tambm impressionante o setor de carvo vegetal, com uma produo anual de 18,8 milhes de metros cbicos, representando mais de 70,0% da produo nacional; outro setor importante o de chapa de fibra, com uma produo anual de 558 mil metros cbicos, representando 100.0% da produo nacional; o setor de chapas de fibra aglomerada produz 500 mil metros cbicos, representando quase 30,0% da produo nacional.

O reflorestamento desempenha um papel importante como fator de desenvolvimento scio-econmico a nvel regional e nacional. Mais do que isto, o reflorestamento deveria ser encarado como a prpria salvaguarda das reservas naturais do Pas. Olhado sob esse prisma, o eucalipto passa a ser uma espcie altamente ecologia, porque poupa as reservas nativas de serem utilizadas em nome do progresso de um povo. E o eucalipto, embora espcie extica, oriunda da Austrlia, a espcie de maior presena nas atividades de reflorestamento, em funo das vantagens mencionadas anteriormente.

evidente que o reflorestamento, feito sob o interesse industrial, de produzir florestas homogneas e de grande produtividade, no substitui a floresta natural em toda a sua biodiversidade. Em razo disso, alguns arautos da Ecologia, leigos ou fanticos, consciente ou inconscientemente, procuram maximizar os problemas e dramatizar as conseqncias. A maioria das crticas s atividades de reflorestamento so meramente poticas, sem qualquer consistncia tcnica e emitida por curiosos ou leigos da Ecologia, uma cincia muito importante, mas que muitos se julgam doutores sem o serem. Tais elementos se valem das falhas ocorridas na implantao e manejo dos primeiros povoamentos, quando por falta de escrpulo e de conhecimentos tcnicos, cometeram-se verdadeiros crimes contra a natureza.

Na maioria das vezes, o grande culpado pelas alteraes do ambiente no o eucalipto em si e nem a floresta, mas o prprio empresrio, devido ao pouco preparo tcnico.

A questo dos efeitos ambientais das plantaes de eucalipto parece, hoje, to indefinida quanto prpria origem dessas especulaes. As polmicas sobre a cultura sempre foram acirradas e h os que atribuem a ela a destruio das matas nativas, o empobrecimento do solo, o esgotamento da gua a reduo da biodiversidade animal e vegetal; alm disso, reduz as oportunidades de trabalho na regio onde plantada, aumentando o xodo rural. Do outro lado, h os que consideram o eucalipto como a nica alternativa capaz de evitar a destruio dos remanescentes de mata nativa.

Polmicas parte, preciso que as questes emocionais dem lugar a evidncias cientficas. Inmeros questionamentos se fazem ao comportamento do eucalipto, em vrios pases. A sua natureza extica causa arrepios naqueles nacionalistas eufricos. Chegam, mesmo, a questionar sobre a existncia de alguma espcie nativa que possa substituir a espcie aliengena ; outros, ainda, procuram relacionar o eucalipto e a Austrlia, pas de origem e muito seco, e forando uma correlao entre a rvore e o meio.

O eucalipto chegou Europa em 1774 pela crena generalizada em seu poder milagroso contra a malria e outras doenas. No se conhecia, poca, a etiologia da malria e o eucalipto cumpriu o seu papel milagroso, diminuindo os casos da doena, com a eliminao do encharcamento dos pntanos. Em 1871, ao contrrio, a introduo do eucalipto no estado do Rio de Janeiro, no Brasil, coincidiu com um surto de febra amarela; no preciso dizer que, em 1882, na cidade de Vassouras, todas as rvores de eucalipto foram arrancadas pelo povo como responsveis pelo aparecimento da doena na cidade.

Um questionamento por demais importante relacionado ao consumo de gua, com a alegao de que a espcie considerada ressecadora de solo e precursora de desertos. Outro questionamento quanto sua possvel influncia sobre o solo, tanto do ponto de vista de proteo quanto das propriedades fsicas, qumicas, efeitos alelopticos sobre a microflora e de seu esgotamento, em funo da alta demanda de nutrientes pela cultura do eucalipto. Outro questionamento sobre o eucalipto quanto formao de monoculturas extensas, caracterizadas por apresentar baixa diversidade ecolgica, resultando em instabilidade ou vulnerabilidade a mudanas climticas ou ataque de doenas e pragas.

No se pode perder de vista que o gnero Eucalyptus possui mais de 700 espcies, com gentipos adaptados s mais variadas condies de solo e clima. A existncia dessa variao intra-especfica em relao aos fatores ambientais j foi confirmada para uma srie imensa de espcies, sendo extremamente difcil e temerrio fazer generalizaes.

Parte das crticas contra o eucalipto conseqncia de expectativas frustradas, como resultado de programas malsucedidos de reflorestamento. Especificamente, no Brasil, as falhas ocorridas na implantao e manejo dos primeiros povoamentos contriburam para a formao de florestas desuniformes e com baixa produtividade.. O insucesso dos reflorestamentos iniciais se deveu aos seguintes fatores:

a) inexistncia de trabalhos especficos que norteassem o estabelecimento de novas florestas;

b) planejamento inadequado do uso da terra, com a utilizao inadequada de reas, da quantidade e qualidade de fertilizantes, manejo incorreto do solo, com a falta de uso de tcnicas conservacionistas etc.

c) escolha inadequada de espcies/procedncias, em razo do desconhecimento das espcies, inexistncia de sementes melhoradas e de programas de melhoramento etc.

d) falhas na poltica, legislao e, principalmente, na fiscalizao, permitindo-se a evaso de recursos, a substituio total da floresta natural pela plantada e o abandono de muitas propriedades aps o segundo ano de plantio.

A despeito de muitos problemas com os reflorestamentos iniciais, a elevada demanda de matria-prima florestal exige a implantao de monoculturas.



POR QUE UMA CULTURA EXTICA?

O conceito de espcie extica no deve ter limites polticos, mas apenas e estritamente ecolgicos e histricos. Toda espcie requer uma srie de exigncias quanto aos fatores do meio. Dentro do amplo espao ecolgico, existem espaos menores que apresentam algum fator de restrio ao completo desenvolvimento da espcie, assim como existem espaos menores que apresentam um conjunto de fatores ambientais que permitem o mximo aproveitamento pela espcie. As comunidades naturais no so estticas e a introduo de espcies exticas bem aceita dentro do conceito moderno da ecologia evolucionria.

Os cientistas afirmam que nem o estgio de clmax das florestas naturais condio nica para a existncia de estabilidade e nem a atividade de reflorestamento com eucalipto representa uma atuao antrpica despropositada. Quando se comparam espcies agrcolas e florestais, h uma duplicidade de valores. As grandes culturas agrcolas do mundo so exticas, sem quaisquer contestaes, como o caso de milho, trigo, arroz, batata, mandioca, caf, cana-de-acar etc. Alm do exotismo dessas culturas, no se contesta o seu impacto quanto elevada demanda de nutrientes minerais e de irrigao, ao uso intensivo do solo, perda de solo por eroso, ao uso de pesticidas, adoo de monoculturas extensivas etc.



O EUCALIPTO RESSECA O SOLO ?

Qual seria o efeito da cultura de eucalipto sobre o funcionamento hidrolgico? Qual seria o impacto da cultura sobre a disponibilidade de gua no solo? preciso se analisar que o fenmeno de ressecamento do solo poderia ser o resultado de uma diminuio cclica das chuvas; poderia ser conseqncia da intensidade de uso do solo, do aumento da populao e de reas urbanizadas e industrializadas, do aumento do uso do fogo, do aumento das reas de pastagem, fatores estes que, somados, conduzem a uma compactao e revestimento, com uma conseqente gradual diminuio de infiltrao de gua no solo.

Em condies tropicais, com a estao chuvosa bem concentrada em alguns meses do ano, o funcionamento hidrolgico , normalmente, mais vulnervel aos impactos resultantes das atividades do uso da terra. Com a diminuio da infiltrao, a gua de chuva tende a escoar superficialmente pelo terreno, diminuindo a recarga subterrnea. O aumento da utilizao dos reservatrios de gua subterrnea para irrigao e abastecimento pblico pode contribuir para o abaixamento do lenol fretico, diminuindo o fluxo das nascentes e dos cursos dgua, durante a estao seca. medida que o efeito hidrolgico foi ficando mais evidente, as plantaes florestais foram se tornando alvo de crticas.

Quando se analisa o balano de gua numa floresta, deve-se levar em considerao a interceptao, evaporao, transpirao e escoamento superficial da gua. A maioria das crticas ao eucalipto relativa transpirao. Mesmo dentre as diferentes espcies do gnero Eucalyptus, existem diferenas marcantes. O Eucalyptus camaldulensis, espcie muito plantada no cerrado mineiro, onde a deficincia hdrica elevada, apresenta uma transpirao muito baixa, quando comparada com Eucalyptus urophylla e Eucalyptus. pelita. Alguns pseudocientistas chegaram a afirmar que o eucalipto poderia consumir at 360 litros de gua por dia. Num espaamento de 2 x 2 metros, isso eqivaleria a uma evapotranspirao diria de 90 milmetros, o correspondente cifra astronmica de 16.425 milmetros anuais. Por certo, tais valores so irreais e contrariam todas as bases cientficas, levando-se em conta a quantidade normal de energia solar disponvel para a evaporao da gua, onde o limite mximo de evapotranspirao anual de 1.500 milmetros anuais e a ao dos estmatos que realiza efetivo controle biolgico do processo de transpirao da planta.

Outras culturas, at mesmo anuais, como as agrcolas, demandam maior quantidade de gua que o eucalipto, no perodo de mxima atividade vegetativa. Um dos maiores pesquisadores da rea, Walter de Paula Lima, da ESALQ-USP, afirma que diferentes espcies florestais podem apresentar uma similaridade nas taxas de evapotranspirao total e relaciona inmeros trabalhos internacionais que comprovam que o controle estomtico da transpirao das espcies de eucalipto muito semelhante ao de outras espcies florestais. Os valores absolutos de perdas por interceptao nas plantaes de eucalipto so semelhantes e at menores que os observados em condies de floresta natural. Em funo da alta taxa de crescimento, h uma conseqente alta taxa de consumo de gua, mas altos valores de eficincia de gua do solo. Comparando-se a eficincia do uso da gua, em termos de biomassa por quilo de gua consumida, tm-se: Pongamia pinnata, 0,8; Prosopis juliflora,1,7; Albizzia lebbek, 1,7; Eucalyptus tereticornis, 1,9. Comparando-se a eficincia do uso da gua para algumas culturas agrcolas, tem-se que, para cada quilo de gua, uma produo de 0,98 gramas de trigo, 0,5 grama de feijo, 1,8 gramas de acar, 1,08 grama de milho e 0,6 gramas de batata.

Comprovando essa eficincia no uso da gua, os pesquisadores utilizaram moderadores de nutrons para estudar o efeito das florestas homogneas de eucalipto sobre o regime de gua e verificaram que a presena de florestas de eucalipto no apresentou qualquer efeito adverso sobre o regime de gua; a retirada de gua coincidia com a poca de maior disponibilidade e, aos primeiros sinais de seca, o eucalipto consumia menos gua, restringindo a perda por transpirao.

Outros experimentos comprovaram que as florestas nativas e algumas culturas agronmicas transpiram tanto ou mais que o eucalipto.Quando comparado com duas essncias nativas, o angico vermelho (Piptadenia rgida) e urundeuva (Astronium urundeuva), verificou-se igual consumo de gua para todas as espcies.

A alegada capacidade de crescimento em reas encharcadas muito restrita de algumas espcies, como o Eucalyptus robusta, E. camaldulensis e E. tereticornis. A quase totalidade das espcies no suportaria crescer em tais ambientes e, por certo, ali no sobreviveriam.

Caberiam inmeros questionamentos sobre a localizao, os mtodos de implantao e manejo dos povoamentos, a escolha adequada das espcies e os processos de explorao, que determinam a influncia de qualquer cultura sobre o ciclo hidrolgico.



O EUCALIPTO EMPOBRECE O SOLO ?

Em funo da alta taxa de crescimento, h uma conseqente demanda de nutrientes do solo. Cabem aqui algumas perguntas: Quanto de nutrientes a eucalipto retira do solo? Em termos comparveis de produo de madeira, ser que as plantaes de eucalipto esgotariam as reservas de nutrientes do solo mais rpida ou exaustivamente que outra espcie vegetal?

Algumas espcies so afetadas mais severamente do que outras pela deficincia nutricional e bem possvel que essa adaptao a solos de baixa fertilidade pode significar uma capacidade de sobrevivncia. Embora os solos da Austrlia, onde os eucaliptos ocorrem naturalmente, sejam de baixa fertilidade no se deve entender que as espcies sejam menos exigentes em todas as circunstncias; ao contrrio, tais espcies sobrevivem em solos de baixa fertilidade, mas so bastante sensveis fertilizao.

Quando comparado a qualquer outra cultura, o cultivo de eucalipto se mostra muito menos prejudicial ao ambiente devido aos seguintes motivos;

Cobertura vegetal conferindo maior proteo ao solo;

Maior ciclo de rotao, possibilitando o surgimento de outras plantas no interior dos plantios, formando o sub-bosque;

Menor necessidade de preparo do solo, devido ao longo perodo de rotao da cultura;

Menor utilizao de fertilizantes;

Maior tolerncia da cultura ao ataque de pragas e doenas, acarretando menor necessidade de utilizao de defensivos qumicos;

Manejo florestal adequado pode proporcionar a sobrevivncia de algumas espcies animais na rea de produo

A influncia dos mtodos de manejo nos povoamentos florestais sobre a fertilidade do solo deve ser analisado separadamente para cada nutriente, em razo das diferenas nos processos relativos ciclagem no ecossistema. surpreendente a quantidade de nutrientes contidos nas folhas, ramos e casca das rvores de eucalipto.

O eucalipto mais eficiente do que as conferas no processo relativo ciclagem interna de nutrientes. Nos ltimos anos, tem aumentado a preocupao com o manejo adequado dos resduos de explorao. A queima, antes utilizada para limpeza do terreno, promovia grandes perdas de nutrientes por volatilizao e lixiviao, devido liberao de nutrientes em quantidade superior capacidade do solo, durante a ausncia de vegetao responsvel pela fixao da biomassa. A queima, ainda, promove uma reduo drstica da matria orgnica no solo, muito importante nas propriedades fsicas, como mantenedora da fauna do solo.

A idade em que as rvores de eucalipto so cortadas guarda bastante relao com a quantidade de nutrientes que podem ser removidos do solo. Por ocasio da formao do cerne, que ocorre normalmente a partir dos oito anos de idade, os nutrientes so, normalmente, translocados da madeira, onde o cerne dever conter menos nutrientes que o alburno. Dessa forma, o corte de rvores mais jovens dever remover mais nutrientes que as rvores mais velhas. Rotaes muito curtas exigem mais do solo e no possibilitam o retorno de folhas, galhos, casca e restos florais que ajudam a manter a floresta

Experimentos conduzidos pela ESALQ, em Piracicaba, (SP) mostraram que o plantio de caf Bourbon amarelo apresentou excelentes resultados em solos que apresentavam culturas de Eucalyptus saligna, durante trinta e trs anos. Os pesquisadores dessa mesma instituio chegam a afirmar que um reflorestamento bem conduzido nunca pode ser considerado prejudicial ao meio ambiente, uma vez que as rvores protegem o solo, mais do que qualquer outro tipo de cultura e o seu vasto sistema radicular retiram os nutrientes das camadas mais profundas do solo e os depositam na superfcie, atravs da queda das folhas, galhos e demais componentes biolgicos que compem a manta florestal. Alguns pesquisadores chegam a afirmar que as florestas de eucalipto, a partir de cinco anos, chegam a depositar sobre o solo uma quantidade de folhas, no incluindo outros detritos, equivalente ao total de detritos de uma floresta equatorial.

As tcnicas utilizadas no preparo do solo, bem como nas fases de implantao, manuteno e explorao so extremamente importantes na manuteno da fertilidade do solo, contendo processos erosivos, evitando cortes rasos e garantindo a sustentabilidade, atravs de seguidas rotaes.



O EUCALIPTO POSSUI EFEITO ALELOPTICO ?

Uma das crticas ao eucalipto se relaciona ao seu possvel efeito aleloptico, criando no solo condies desfavorveis ao crescimento de outras plantas ou restringindo o crescimento de certas culturas agrcolas pela proximidade da cultura de eucalipto. Algumas perguntas vm-nos mente: ser que existe algum efeito inibitrio real do extrato das folhas, da serapilheira ou das razes do eucalipto? Ser que o efeito inibitrio do campo no seria conseqncia da forte competio por gua, nutrientes, luz e outros fatores do meio?

Estudos mostram que a introduo de uma espcie pode causar alguma alterao na flora local, como resultado de modificaes nas condies microbiolgicas do solo. Os especialistas da rea so unnimes em afirmar que os alegados efeitos de alelopatia em eucalipto so, em sua maioria, devido competio por gua e nutrientes, que se estabelece durante a fase de crescimento rpido.

O EUCALIPTO REDUZ A DIVERSIDADE ANIMAL ?

A quantidade e a diversidade de espcies animais que podem ser encontradas num dado ecossistema florestal dependem do nmero de nichos disponveis do habitat. Nesse caso, seja de eucalipto ou de outra cultura, qualquer monocultura reconhecidamente menos capaz de suportar uma alta diversidade de fauna. Em geral, as monoculturas podem reduzir seriamente a quantidade de energia e de nutrientes, assim como a disponibilidade temporria de abrigo.

Segundo os especialistas da rea, uma plantao florestal, em si mesma, no uma condio de completa ausncia de fauna. Os pesquisadores afirmam que os quatro requisitos bsicos para a existncia da fauna so; alimento, gua, abrigo e condies para a procriao. As condies de habitat da fauna podem ser melhoradas com prticas de manejo florestal adequadas, atravs de um mosaico de talhes de diferentes idades, desde reas recentemente cortadas at povoamentos de diferentes idades e estrutura.

Um dos problemas principais da interao produo de madeiraconservao de fauna a exigncia de certas espcies animais que requerem rvores adultas ou florestas maduras, como habitat adequado. A conservao da fauna envolve cinco estratgias de ao: a) existncia de um plano de manejo que envolva a ocorrncia simultnea de talhes em diferentes estgios de desenvolvimento, com rvores adultas ao longo das plantaes; b) aumento do perodo de rotao da floresta; c) reteno de reservas de florestas naturais sem perturbao; d) presena de algumas reas abertas, sem plantio, uma vez que certas espcies dependem desse habitat para a sua procriao e e) construo de audes e represas, bem como o plantio de rvores frutferas ao longo da rea.

A manuteno de fragmentos florestais ao longo da monocultura faz com que eles atuem como reas de disperso e colonizao de animais silvestres que, ao adentrarem nas florestas de eucalipto, daro combate aos insetos que se caracterizam como pragas comerciais. Tais fragmentos serviro, ainda, para oferecer maior segurana s florestas de eucalipto, com uma reduzida diversidade biolgica, normalmente sujeitas a desequilbrios ambientais, que resultam no aparecimento de pragas de difcil controle. .

Outro aspecto est na produo de biomassa vegetal no Brasil. Devido situao tropical predominante, onde a radiao e a temperatura influenciam na taxa de fotossntese e, consequentemente, na absoro do dixido de carbono na atmosfera, o plantio de eucalipto permite a fixao de carbono no solo, possibilita ao usurio a obteno de madeira, para fins energticos, que substitui os combustveis fsseis e mantm um ciclo fechado quando transforma a madeira em carvo vegetal para operaes siderrgicas. Ou seja, libera dixido de carbono para a atmosfera durante o processo de carbonizao, mas fixa o elemento na fase florestal.

Por tudo isso, observa-se que o eucalipto, como um gnero de inmeras espcies, no deve ser julgado indiscriminadamente como um vilo da natureza. Cabero ao empresrio florestal o discernimento e o bom senso na escolha correta das espcies, na adoo de tcnicas corretas de implantao, manejo e explorao, bem como um respeito aos componentes naturais que garantem a sustentabilidade da produtividade florestal. A adeso ao desenvolvimento no implica necessariamente na destruio da natureza. de consenso que devem existir florestas artificiais de alta produtividade, que devem ser bem manejadas, para que sejam sustentveis; paralelamente, devem existir as ares de florestas naturais, parcial ou completamente preservadas, menos produtivas e mais estveis. Respeitando as regras mnimas de convivncia com a natureza, o homem ser capaz de obter lucros e garantir a sobrevivncia, sem temores, das futuras geraes.

Prof. Jos de Castro Silva

Professor DEF/CEDAF/UFV

Universidade Federal de Viosa