Voltar
Notícias
03
mai
2010
(SETOR FLORESTAL)
Joias da floresta
O guaraná é talvez o mais popular produto amazônico. Mas só adquiriu esse status depois que o açaí ganhou escala como energético para a vida saudável nas grandes capitais e o cupuaçu passou a integrar a receita de chocolates finos e de cremes para a pele. E que a priprioca passou a fornecer essência para perfumes enquanto a copaíba expandiu-se como bálsamo para cosméticos e remédios. Novidade recente é o azeite extra-virgem que não provém das oliveiras, como reza a tradição europeia, mas das castanheiras da floresta. Lançado em lojas e supermercados de São Paulo, o produto é carro-chefe da Ouro Verde Amazônia, empresa que aposta na biodiversidade como inovação para negócios no setor de alimentos. "Só manteremos a floresta em pé se agregarmos valor tangível à cadeia produtiva desses ativos naturais", avalia o diretor executivo Luis Fernando Laranja, estimando faturar neste ano R$ 7 milhões com derivados especiais de castanha-do-Brasil.
"A meta é dobrar o resultado nos próximos cinco anos com novos produtos a partir do açaí, cacau, cupuaçu e baunilha da floresta", anuncia o executivo. Criada há oito anos dentro de uma incubadora de empresas, a Ouro Verde atraiu investidores de capital de risco e, no final de 2008, firmou sociedade com o Grupo Orsa diante do potencial para negócios sustentáveis. Com certificação orgânica, a empresa mantém unidades industriais em Alta Floresta (MT) e Almeirim (PA). Compra por ano 1,5 mil toneladas de castanha junto a 150 famílias extrativistas.
"Fechamos a aquisição de toda a produção dos caiapós, no Mato Grosso, com total de 120 toneladas de castanha", informa Laranja. Para garantir o fornecimento e a qualidade, a empresa paga 50% mais que o mercado local. "Estamos abertos a negociar outro adicional por conta da imagem das comunidades associada aos produtos", admite o executivo, lembrando que o varejo é canal estratégico: "Para somarmos valor à biodiversidade, alguém precisar estar disposto a pagar".
O debate sobre o abismo entre o que a natureza pode oferecer dentro de padrões sustentáveis e o que efetivamente é explorado ganhou força em 2010, declarado Ano Internacional da Biodiversidade pela Organização das Nações Unidas. A Amazônia detém um terço do estoque genético do planeta - riqueza difícil de ser mensurada, pois há espécies que sequer foram descobertas. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplica (Ipea) estima o potencial do patrimônio genético brasileiro em US$ 2 trilhões, muito superior ao aproveitado.
O PIB da Amazônia é de R$ 240 bilhões, com déficit na balança comercial. Dentro desse valor, a economia florestal propriamente dita soma pouco mais de R$ 10 bilhões ao ano, a maior parte proveniente de florestas plantadas para diversos fins industriais. Nas áreas nativas, de acordo com dados do IBGE, a produção de madeira é a mais significativa. Representou R$ 3,6 bilhões em 2008, enquanto os produtos não-madeireiros, como castanha, resinas, frutos, sementes, fibras e essências, movimentaram R$ 640 milhões.
O açaí é o destaque, com 21% da produção extrativista. No Pará, quase metade da polpa é exportada. "Os preços dispararam: em três anos, a lata de 14 quilos de açaí passou de R$ 38 para R$ 63", informa o pesquisador Paulo Amaral, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia. A copaíba e a andiroba dobraram de valor com a maior procura pelo mercado de fitoterápicos. "Mas o aumento é ainda insuficiente para sustentar a produção e evitar atividades que derrubam a floresta", ressalva Amaral. Comprada hoje a R$ 1 o quilo, a castanha gera renda anual de R$ 30 milhões para toda a população amazônica. Esse valor é trinta vezes inferior ao faturamento com soja de um único município - Sorriso (MT), maior produtor nacional.
A política de preços mínimos do governo federal, ao pagar ao extrativista a diferença em relação ao valor recebido dos intermediários, contribuiu para mudanças. "Os produtos renderiam mais, contudo, com a ampliação da escala pelas empresas e maior grau de refinamento e qualidade", diz Amaral. Há entraves, como a deficiência de gestão das comunidades, a capacidade de fornecimento e a falta de padronização e de estrutura para investir na extração.
O investimento em indústrias locais é ponto-chave. "O gargalo está na infraestrutura logística para escoar a produção, na falta de zoneamento ecológico-econômico e na insegurança fundiária, que interferem na competitividade", afirma Túlio Dias, da Agropalma, em Belém, produtora de insumo para margarinas, sorvetes, achocolatados, panificação e sabão a partir do óleo de palmeiras.
Na Reserva Extrativista Chico Mendes, em Assis Brasil (AC), a borracha é processada para a empresa francesa de calçados Veja Fair Trade, fabricante de "tênis sustentáveis". Com o beneficiamento, o preço do produto nativo aumentou de R$ 3 para R$ 7 o quilo.
"A escala industrial virá com a ousadia de empreendedores, ao compreenderem que a consolidação desse mercado é inevitável, pois o modelo do capitalismo tradicional está no limite", afirma Ulisses Sabará, presidente da Beraca. A empresa exporta para 25 países ingredientes de valor tecnológico, obtidos de extratos e fibras amazônicas. Além do açaí antioxidante para xampus, a linha inclui essências de sementes de andiroba coletadas e beneficiadas por uma cooperativa de mulheres na Ilha de Marajó, em parceria coma Fundação L ' Occitane.
No mesmo caminho, a multinacional inglesa Croda, com fábrica em Campinas (SP), investe para impulsionar exportações a partir de produtos diferenciados, como esfoliantes à base de sementes de maracujá e manteiga de cupuaçu com alta capacidade de hidratação da pele. "Registramos crescimento anual de dois dígitos", informa Ana Tesini, coordenadora de negócios.
Expande-se no mercado internacional a busca por commodities ambientais e o reconhecimento para práticas responsáveis, como o comércio justo. Criada em 2007 na Suíça, a Union for Ethical Biotrade (UEBT) funciona como um clube exclusivo de empresas transnacionais que comprovadamente adotam práticas éticas e ecológicas para acesso aos recursos da biodiversidade ao longo da cadeia produtiva.
As cifras em jogo são altas. Produtos da biotecnologia, como cosméticos, fármacos e cultivares, constituem um mercado global em torno de US$ 500 bilhões a US$ 800 bilhões por ano - cifras semelhantes às da petroquímica. Metade das empresas utiliza conhecimento tradicional.
Mas ainda é baixo o nível de confiança no setor, de acordo com a pesquisa "Biodiversity Barometer 2010", recém-divulgada pela UEBT a partir de entrevistas com cem maiores empresas de cosméticos e beleza do mundo e 5 mil consumidores da França, Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha e Brasil. Na Europa e EUA, apenas um em cada três clientes acredita na existência de ética na prospecção da biodiversidade. No total, 81% estão dispostos a parar de consumir produtos de companhias que não respeitam princípios justos e equitativos no acesso à matéria-prima natural. Entre os brasileiros, 73% já ouviram falar em biopirataria.
"Por conta desse conhecimento e da expansão do mercado, o Brasil se tornará um importante condutor da ética para o uso da biodiversidade", ressalta Rik Kutsch Lojenga, diretor executivo da UEBT, que em maio realizará a sua assembleia geral em São Paulo. Entre as afiliadas, está a Natura. "Nosso modelo é referência na construção de um marco voluntário internacional para o biocomércio", afirma Marcos Vaz, diretor de sustentabilidade da empresa.
Anuência prévia das comunidades fornecedoras, repartição de benefícios, garantia de compra e modelo de exploração baseado em manejo sustentável, sistemas extrativistas ou agricultura familiar são os principais pontos. "É um processo complexo que envolve múltiplos agentes e gera resultado que retorna para a conservação", explica Vaz.
Em 2010, a Natura planeja dobrar os recursos para comunidades com a produção de novos sabonetes, como os de murumuru - espécie cuja exploração contribuirá para conservar 3 mil árvores em pé. No ano passado, foram destinados R$ 5,5 milhões para fornecedores florestais, dos quais R$ 1 milhão pelo acesso ao patrimônio genético e conhecimento tradicional a ele associado. Parte refere-se ao contrato com ervateiros do tradicional mercado Ver o Peso, em Belém, detentores da tradição sobre o banho de cheiro - uma mistura de ervas que inspirou a linha Natura Ekos.
Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Iratapuru, no Amapá, a cooperativa local aprendeu a gerir finanças. Paga aos coletores de castanha 50% a mais que os atravessadores para garantir o produto e beneficiar o óleo, vendido à empresa Cognis, que o refina e fornece para a Natura. Com certificação internacional do Forest Stewardship Council (FSC), a comunidade planeja faturar neste ano R$ 203 mil. O valor não inclui o percentual recebido a título de compensação pelo acesso ao conhecimento tradicional e uso do nome no rótulo. O dinheiro compõe um fundo comunitário, que já soma R$ 1 milhão, para investimento em projetos locais e bolsas de estudo para os moradores.
"A meta é dobrar o resultado nos próximos cinco anos com novos produtos a partir do açaí, cacau, cupuaçu e baunilha da floresta", anuncia o executivo. Criada há oito anos dentro de uma incubadora de empresas, a Ouro Verde atraiu investidores de capital de risco e, no final de 2008, firmou sociedade com o Grupo Orsa diante do potencial para negócios sustentáveis. Com certificação orgânica, a empresa mantém unidades industriais em Alta Floresta (MT) e Almeirim (PA). Compra por ano 1,5 mil toneladas de castanha junto a 150 famílias extrativistas.
"Fechamos a aquisição de toda a produção dos caiapós, no Mato Grosso, com total de 120 toneladas de castanha", informa Laranja. Para garantir o fornecimento e a qualidade, a empresa paga 50% mais que o mercado local. "Estamos abertos a negociar outro adicional por conta da imagem das comunidades associada aos produtos", admite o executivo, lembrando que o varejo é canal estratégico: "Para somarmos valor à biodiversidade, alguém precisar estar disposto a pagar".
O debate sobre o abismo entre o que a natureza pode oferecer dentro de padrões sustentáveis e o que efetivamente é explorado ganhou força em 2010, declarado Ano Internacional da Biodiversidade pela Organização das Nações Unidas. A Amazônia detém um terço do estoque genético do planeta - riqueza difícil de ser mensurada, pois há espécies que sequer foram descobertas. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplica (Ipea) estima o potencial do patrimônio genético brasileiro em US$ 2 trilhões, muito superior ao aproveitado.
O PIB da Amazônia é de R$ 240 bilhões, com déficit na balança comercial. Dentro desse valor, a economia florestal propriamente dita soma pouco mais de R$ 10 bilhões ao ano, a maior parte proveniente de florestas plantadas para diversos fins industriais. Nas áreas nativas, de acordo com dados do IBGE, a produção de madeira é a mais significativa. Representou R$ 3,6 bilhões em 2008, enquanto os produtos não-madeireiros, como castanha, resinas, frutos, sementes, fibras e essências, movimentaram R$ 640 milhões.
O açaí é o destaque, com 21% da produção extrativista. No Pará, quase metade da polpa é exportada. "Os preços dispararam: em três anos, a lata de 14 quilos de açaí passou de R$ 38 para R$ 63", informa o pesquisador Paulo Amaral, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia. A copaíba e a andiroba dobraram de valor com a maior procura pelo mercado de fitoterápicos. "Mas o aumento é ainda insuficiente para sustentar a produção e evitar atividades que derrubam a floresta", ressalva Amaral. Comprada hoje a R$ 1 o quilo, a castanha gera renda anual de R$ 30 milhões para toda a população amazônica. Esse valor é trinta vezes inferior ao faturamento com soja de um único município - Sorriso (MT), maior produtor nacional.
A política de preços mínimos do governo federal, ao pagar ao extrativista a diferença em relação ao valor recebido dos intermediários, contribuiu para mudanças. "Os produtos renderiam mais, contudo, com a ampliação da escala pelas empresas e maior grau de refinamento e qualidade", diz Amaral. Há entraves, como a deficiência de gestão das comunidades, a capacidade de fornecimento e a falta de padronização e de estrutura para investir na extração.
O investimento em indústrias locais é ponto-chave. "O gargalo está na infraestrutura logística para escoar a produção, na falta de zoneamento ecológico-econômico e na insegurança fundiária, que interferem na competitividade", afirma Túlio Dias, da Agropalma, em Belém, produtora de insumo para margarinas, sorvetes, achocolatados, panificação e sabão a partir do óleo de palmeiras.
Na Reserva Extrativista Chico Mendes, em Assis Brasil (AC), a borracha é processada para a empresa francesa de calçados Veja Fair Trade, fabricante de "tênis sustentáveis". Com o beneficiamento, o preço do produto nativo aumentou de R$ 3 para R$ 7 o quilo.
"A escala industrial virá com a ousadia de empreendedores, ao compreenderem que a consolidação desse mercado é inevitável, pois o modelo do capitalismo tradicional está no limite", afirma Ulisses Sabará, presidente da Beraca. A empresa exporta para 25 países ingredientes de valor tecnológico, obtidos de extratos e fibras amazônicas. Além do açaí antioxidante para xampus, a linha inclui essências de sementes de andiroba coletadas e beneficiadas por uma cooperativa de mulheres na Ilha de Marajó, em parceria coma Fundação L ' Occitane.
No mesmo caminho, a multinacional inglesa Croda, com fábrica em Campinas (SP), investe para impulsionar exportações a partir de produtos diferenciados, como esfoliantes à base de sementes de maracujá e manteiga de cupuaçu com alta capacidade de hidratação da pele. "Registramos crescimento anual de dois dígitos", informa Ana Tesini, coordenadora de negócios.
Expande-se no mercado internacional a busca por commodities ambientais e o reconhecimento para práticas responsáveis, como o comércio justo. Criada em 2007 na Suíça, a Union for Ethical Biotrade (UEBT) funciona como um clube exclusivo de empresas transnacionais que comprovadamente adotam práticas éticas e ecológicas para acesso aos recursos da biodiversidade ao longo da cadeia produtiva.
As cifras em jogo são altas. Produtos da biotecnologia, como cosméticos, fármacos e cultivares, constituem um mercado global em torno de US$ 500 bilhões a US$ 800 bilhões por ano - cifras semelhantes às da petroquímica. Metade das empresas utiliza conhecimento tradicional.
Mas ainda é baixo o nível de confiança no setor, de acordo com a pesquisa "Biodiversity Barometer 2010", recém-divulgada pela UEBT a partir de entrevistas com cem maiores empresas de cosméticos e beleza do mundo e 5 mil consumidores da França, Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha e Brasil. Na Europa e EUA, apenas um em cada três clientes acredita na existência de ética na prospecção da biodiversidade. No total, 81% estão dispostos a parar de consumir produtos de companhias que não respeitam princípios justos e equitativos no acesso à matéria-prima natural. Entre os brasileiros, 73% já ouviram falar em biopirataria.
"Por conta desse conhecimento e da expansão do mercado, o Brasil se tornará um importante condutor da ética para o uso da biodiversidade", ressalta Rik Kutsch Lojenga, diretor executivo da UEBT, que em maio realizará a sua assembleia geral em São Paulo. Entre as afiliadas, está a Natura. "Nosso modelo é referência na construção de um marco voluntário internacional para o biocomércio", afirma Marcos Vaz, diretor de sustentabilidade da empresa.
Anuência prévia das comunidades fornecedoras, repartição de benefícios, garantia de compra e modelo de exploração baseado em manejo sustentável, sistemas extrativistas ou agricultura familiar são os principais pontos. "É um processo complexo que envolve múltiplos agentes e gera resultado que retorna para a conservação", explica Vaz.
Em 2010, a Natura planeja dobrar os recursos para comunidades com a produção de novos sabonetes, como os de murumuru - espécie cuja exploração contribuirá para conservar 3 mil árvores em pé. No ano passado, foram destinados R$ 5,5 milhões para fornecedores florestais, dos quais R$ 1 milhão pelo acesso ao patrimônio genético e conhecimento tradicional a ele associado. Parte refere-se ao contrato com ervateiros do tradicional mercado Ver o Peso, em Belém, detentores da tradição sobre o banho de cheiro - uma mistura de ervas que inspirou a linha Natura Ekos.
Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Iratapuru, no Amapá, a cooperativa local aprendeu a gerir finanças. Paga aos coletores de castanha 50% a mais que os atravessadores para garantir o produto e beneficiar o óleo, vendido à empresa Cognis, que o refina e fornece para a Natura. Com certificação internacional do Forest Stewardship Council (FSC), a comunidade planeja faturar neste ano R$ 203 mil. O valor não inclui o percentual recebido a título de compensação pelo acesso ao conhecimento tradicional e uso do nome no rótulo. O dinheiro compõe um fundo comunitário, que já soma R$ 1 milhão, para investimento em projetos locais e bolsas de estudo para os moradores.
Fonte: Amazonia.org
Notícias em destaque
Biomassa ganha força na indústria brasileira em meio à volatilidade do petróleo
A alta volatilidade do petróleo, impulsionada pelas tensões no Oriente Médio, voltou a reforçar o debate sobre...
(BIOENERGIA)
Pesquisa do Serviço Florestal dos EUA revela potencial para aumento do uso de madeira em áreas urbanas
O Serviço Florestal dos EUA publicou os resultados de um estudo realizado em seis cidades, que investigou a participação dos...
(INTERNACIONAL)
São Paulo tem espaço para quase triplicar área de florestas plantadas, diz Florestar
Produtividade elevada, infraestrutura consolidada e forte presença industrial sustentam o avanço da bioeconomia florestal no...
(REFLORESTAMENTO)
Guia de indicadores florestais na prática
Quem opera na cadeia de florestas plantadas sabe que decisão sem dado costuma sair cara. Em um cenário de pressão por...
(QUEIMADAS)
Relatório oficial da feira Carrefour International du Bois 2026 (Nantes)
A Carrefour International du Bois faz jus ao seu nome”, afirmou Géraldine Cesbron, Diretora-Geral Adjunta da Fibois Pays de la Loire...
(EVENTOS)
Eucalipto para geração de biomassa vale a pena?
Quando uma indústria avalia custo térmico, previsibilidade de suprimento e pressão por redução de...
(BIOENERGIA)














