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Notícias
22
nov
2005
(GERAL)
A motosserra por um punhado de sementes.
Mateiros experientes na seleção e corte de madeiras nobres trocam de profissão e integram novo programa de coleta de sementes.
A capacidade de produzir mudas de árvores nativas já não é, hoje, o principal fator limitante dos reflorestamentos de matas ciliares. Existem muitos viveiros, no Estado de São Paulo, com capacidade ociosa, produzindo um número menor de espécies do que teriam condições. O que falta são sementes.
É um grande desafio obter sementes de 100 a 120 espécies arbóreas diferentes, que frutificam em épocas variadas, têm exigências de manipulação diversas e cujas matrizes, via de regra, estão dentro dos poucos remanescentes florestais não degradados, que ou são propriedade particular ou são parques e reservas, de onde é proibido tirar qualquer pedaço dos recursos naturais.
O desafio é ainda maior, quando se verifica que, além da diversidade de espécies, os modelos produtivos de plantio de nativas exigem alta diversidade genética. Ou seja, as sementes de uma mesma espécie, destinadas a uma mesma área, não podem ser coletadas de uma única matriz. As árvores irmãs não podem ser plantadas juntas. É preciso obter sementes de 10 ou 12 matrizes diferentes, para cada espécie.
Dessa dificuldade, nasceu o programa Trilhas de Matrizes, coordenado pelo botânico Ricardo Ribeiro Rodrigues, do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (LERF/Esalq-USP), de Piracicaba, SP. Com a ajuda dos estudantes de graduação e pós-graduação, ele vem fazendo o levantamento das matrizes de espécies de floresta existentes nas 6 regiões ecológicas do Estado de São Paulo, que se dividem entre o planalto ocidental, o planalto paulista e o litoral.
“São 2 trilhas de matrizes para cada região, num total de 14 mil matrizes de 600 espécies diferentes”, conta o pesquisador. “A lista ainda está crescendo e deve chegar a 800 espécies, em todo o estado”. Todas estão ou serão marcadas com uma placa de identificação e suas características – botânicas, ecológicas, época de floração, frutificação, produção, dormência, forma de coleta das sementes, etc - constam de um banco de dados, que ainda neste semestre estará acessível a qualquer pessoa, via Internet.
“Também temos, geocodificadas, a localização das matrizes e vias de acesso a elas e agora estamos qualificando coletores, que ficarão encarregados de buscar as sementes na mata, na época de frutificação de cada espécie, de acordo com as quantidades estipuladas para cada árvore”, complementa Rodrigues. A garantia de que eles não vão coletar todas as sementes de uma única árvore – o que prejudicaria a renovação natural do remanescente – deixando de lado as outras matrizes da mesma espécie – o que fraudaria o programa de diversidade genética – está no banco de dados do LERF.
“Junto com as sementes, eles têm que coletar um ramo de cada matriz, que conferimos geneticamente com os do nosso herbário”, diz o especialista. O preço das sementes varia de R$20 a 490 reais, o quilo, dependendo da raridade da espécie e dificuldade de coleta. Os coletores recebem uma lista do que devem buscar, a cada mês, com a respectiva localização de cada matriz a ser visitada e das quantidades máximas de sementes permitidas. O controle final é de mercado, ou seja, só serão compradas as sementes até a quantidade máxima estipulada. “Não adianta coletar mais, ele não poderá vender”. ,
Já existem 3 grupos de coletores capacitados e operando, em Capão Bonito (7 famílias), no Vale do Ribeira (5 famílias, incluindo quilombolas) e na região de São Carlos (3 famílias). Os coletores são mateiros, antes especializados em identificar árvores de madeira de lei para derrubar. Ao trocar as motosserras pela coleta de sementes, a maioria deles triplica os ganhos mensais (de uma média de R$200,00 para R$600,00) e passa a executar um trabalho muito mais leve e menos sujeito a acidentes. Sem contar o rastro verde, que começam a deixar, no lugar dos tocos secos e cinzas anteriores.
Liana John
Fonte: O estadão
A capacidade de produzir mudas de árvores nativas já não é, hoje, o principal fator limitante dos reflorestamentos de matas ciliares. Existem muitos viveiros, no Estado de São Paulo, com capacidade ociosa, produzindo um número menor de espécies do que teriam condições. O que falta são sementes.
É um grande desafio obter sementes de 100 a 120 espécies arbóreas diferentes, que frutificam em épocas variadas, têm exigências de manipulação diversas e cujas matrizes, via de regra, estão dentro dos poucos remanescentes florestais não degradados, que ou são propriedade particular ou são parques e reservas, de onde é proibido tirar qualquer pedaço dos recursos naturais.
O desafio é ainda maior, quando se verifica que, além da diversidade de espécies, os modelos produtivos de plantio de nativas exigem alta diversidade genética. Ou seja, as sementes de uma mesma espécie, destinadas a uma mesma área, não podem ser coletadas de uma única matriz. As árvores irmãs não podem ser plantadas juntas. É preciso obter sementes de 10 ou 12 matrizes diferentes, para cada espécie.
Dessa dificuldade, nasceu o programa Trilhas de Matrizes, coordenado pelo botânico Ricardo Ribeiro Rodrigues, do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (LERF/Esalq-USP), de Piracicaba, SP. Com a ajuda dos estudantes de graduação e pós-graduação, ele vem fazendo o levantamento das matrizes de espécies de floresta existentes nas 6 regiões ecológicas do Estado de São Paulo, que se dividem entre o planalto ocidental, o planalto paulista e o litoral.
“São 2 trilhas de matrizes para cada região, num total de 14 mil matrizes de 600 espécies diferentes”, conta o pesquisador. “A lista ainda está crescendo e deve chegar a 800 espécies, em todo o estado”. Todas estão ou serão marcadas com uma placa de identificação e suas características – botânicas, ecológicas, época de floração, frutificação, produção, dormência, forma de coleta das sementes, etc - constam de um banco de dados, que ainda neste semestre estará acessível a qualquer pessoa, via Internet.
“Também temos, geocodificadas, a localização das matrizes e vias de acesso a elas e agora estamos qualificando coletores, que ficarão encarregados de buscar as sementes na mata, na época de frutificação de cada espécie, de acordo com as quantidades estipuladas para cada árvore”, complementa Rodrigues. A garantia de que eles não vão coletar todas as sementes de uma única árvore – o que prejudicaria a renovação natural do remanescente – deixando de lado as outras matrizes da mesma espécie – o que fraudaria o programa de diversidade genética – está no banco de dados do LERF.
“Junto com as sementes, eles têm que coletar um ramo de cada matriz, que conferimos geneticamente com os do nosso herbário”, diz o especialista. O preço das sementes varia de R$20 a 490 reais, o quilo, dependendo da raridade da espécie e dificuldade de coleta. Os coletores recebem uma lista do que devem buscar, a cada mês, com a respectiva localização de cada matriz a ser visitada e das quantidades máximas de sementes permitidas. O controle final é de mercado, ou seja, só serão compradas as sementes até a quantidade máxima estipulada. “Não adianta coletar mais, ele não poderá vender”. ,
Já existem 3 grupos de coletores capacitados e operando, em Capão Bonito (7 famílias), no Vale do Ribeira (5 famílias, incluindo quilombolas) e na região de São Carlos (3 famílias). Os coletores são mateiros, antes especializados em identificar árvores de madeira de lei para derrubar. Ao trocar as motosserras pela coleta de sementes, a maioria deles triplica os ganhos mensais (de uma média de R$200,00 para R$600,00) e passa a executar um trabalho muito mais leve e menos sujeito a acidentes. Sem contar o rastro verde, que começam a deixar, no lugar dos tocos secos e cinzas anteriores.
Liana John
Fonte: O estadão
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