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Boletim da Embrapa Amazônia Ocidental detalha pela primeira vez os custos de implantação do sistema integrado na Região Metropolitana de Manaus e mostra que o componente florestal é o que separa o arranjo simplificado do modelo completo
Transformar uma pastagem degradada em um sistema de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) no Amazonas exige investimento inicial entre R$ 6 mil e R$ 17 mil por hectare. A faixa foi calculada por pesquisadores da Embrapa Amazônia Ocidental no Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento nº 68, publicado em agosto de 2026, que estimou os custos de implantação do sistema considerando diferentes níveis de degradação do pasto e as condições de clima e solo da Região Metropolitana de Manaus.
O trabalho, assinado por Silas Garcia Aquino de Sousa e Jasiel Nunes Souza, da Embrapa Amazônia Ocidental, e Maria Isabel de Araujo, do Instituto de Tecnologia para o Agronegócio e Meio Ambiente Selva Amazônica (Itasa), foi conduzido no âmbito do projeto “Sistemas de ILPF e Recuperação de Pastagens Degradadas na Região Amazônica”, financiado pelo Fundo Amazônia, operado pelo BNDES e executado pela Embrapa na Região Norte.
A conclusão central é que a conta varia sobretudo em função do estado da área. Para o sistema simplificado de integração lavoura-pecuária (ILP), a estimativa fica entre R$ 6 mil e R$ 8 mil por hectare. Já o arranjo completo, com o componente florestal incorporado, sobe para a faixa de R$ 15 mil a R$ 17 mil por hectare.
Dois estágios, duas contas de máquina
O ponto de partida do cálculo é o preparo da área, etapa em que o nível de degradação pesa diretamente sobre as horas de máquina. Em pastagens no estágio de “capoeirinha”, a sequência de retirada da vegetação secundária, enleiramento, aração, gradagem, distribuição de calcário e semeadura de milho e capim consome 12 horas-máquina por hectare e soma R$ 4.200.
No estágio de “capoeirão”, a operação muda de escala. A retirada de tocos de árvores com mais de 30 centímetros de diâmetro exige trator de esteira e retroescavadeira, a R$ 800 a hora-máquina, contra R$ 350 do trator de pneu. O resultado é um custo de preparo de R$ 6.250 por hectare — quase 50% mais alto.
“Os custos de recuperação de pastagens variam conforme o estágio de degradação, tornando-se mais elevados à medida que o nível de intervenção se intensifica”, registram os autores, citando Townsend et al. (2010), segundo quem a recuperação de áreas degradadas na Amazônia pode custar de R$ 5 mil a R$ 10 mil por hectare.
Onde o dinheiro é aplicado
Depois da mecanização, os insumos concentram a maior fatia do investimento. Para garantir produtividade média de 6 toneladas de milho grão por hectare e deixar resíduo suficiente para a pastagem, a recomendação técnica prevê calagem e adubação corretivas. O pacote de corretivos e fertilizantes — calcário, superfosfato simples, cloreto de potássio, sulfato de amônia e micronutrientes — foi orçado em R$ 4.512 por hectare, com preços cotados em abril de 2026 no comércio de Manaus.
A esse valor somam-se as sementes, entre elas 20 quilos de capim Mombaça por hectare, ao custo de R$ 500, além de desembolsos operacionais como mão de obra, análise de solo em laboratório e controle fitossanitário. A orientação técnica é clara quanto ao timing: quando a saturação por bases do solo fica abaixo de 60%, a calagem deve ser feita três meses antes do plantio, para elevar o índice acima de 70%.
O peso da floresta
A diferença entre o arranjo simplificado e o sistema completo está justamente no componente arbóreo — e é aí que a pesquisa oferece o recado mais direto ao setor florestal. A recomendação dos pesquisadores é priorizar espécies nativas da biodiversidade amazônica, capazes de gerar serviços ambientais e, ao mesmo tempo, receita com madeira e produtos florestais não madeireiros (PFNM).
Segundo o boletim, essas espécies contribuem para melhorar as condições físicas, químicas e biológicas do solo e para elevar a produtividade agropecuária de forma sustentável, além de diversificar a renda da propriedade. O plantio das mudas deve ser feito na divisão dos piquetes da pastagem, e a proteção das mudas com cerca elétrica por pelo menos dois a três anos precisa entrar na planilha do componente florestal.
Para produtores com dificuldade de acesso a mudas, os autores sugerem uma estratégia de entrada gradual: iniciar pelo arranjo ILP, com milho, capim e adubo plantados simultaneamente, o que reduz a quantidade de horas-máquina nas operações e dilui o desembolso ao longo do tempo.
Um milhão de hectares no radar
O estudo dimensiona o tamanho do problema que o ILPF tenta endereçar. No Amazonas, estima-se que cerca de 1 milhão de hectares de pastagens estejam em algum estágio de degradação. Dados do MapBiomas (2024) citados no boletim indicam que 40% dessas áreas apresentam degradação moderada e 10% estão em estágio severo.
Na Amazônia Legal, as pastagens ocupam 67 milhões de hectares, mas a tecnologia ILPF foi adotada em apenas 5% delas. Mato Grosso e Pará concentram as maiores áreas, com cerca de 3 milhões de hectares cada. O Amazonas, sozinho, soma apenas 473 hectares de sistema integrado — número que dá a medida exata do espaço de expansão.
Recomendações que vão além da planilha
O boletim não se limita aos custos. Entre as recomendações técnicas estão a divisão da pastagem em piquetes, para otimizar o pastejo e o consumo de forragem, e a renovação da pastagem a cada dez anos, de modo a preservar os ganhos do sistema integrado.
Os autores também destacam que, apesar do investimento inicial elevado, o ILPF entrega reabilitação de pastagens degradadas, diversificação da produção e melhoria das condições do solo, com benefícios econômicos, sociais e ambientais — incluindo contribuição para a mitigação das mudanças climáticas.
Box — Os números da pesquisa • Custo total de implantação: R$ 6 mil a R$ 17 mil por hectare • Sistema simplificado (ILP): R$ 6 mil a R$ 8 mil/ha • Sistema completo (ILPF): R$ 15 mil a R$ 17 mil/ha • Preparo da área em capoeirinha: R$ 4.200/ha (12 horas-máquina) • Preparo da área em capoeirão: R$ 6.250/ha (14 horas-máquina) • Corretivos e fertilizantes: R$ 4.512/ha • Sementes de capim Mombaça: R$ 500/ha • Produtividade de referência do milho: 6 t/ha • Pastagens degradadas no Amazonas: cerca de 1 milhão de ha • Área com ILPF no Amazonas: 473 ha
Fonte: SOUSA, S. G. A. de; SOUZA, J. N.; ARAUJO, M. I. de. Estimativa de custos para implantação de sistema de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), Manaus, AM. Manaus: Embrapa Amazônia Ocidental, 2026. 9 p. (Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento, 68). Valores cotados em abril de 2026 no mercado de Manaus.
Fonte: Mais Floresta
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