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Notícias

28
out
2026
(OPINIÃO)
Como surgiu a Engenharia Florestal

Você já parou para pensar por que surgiu a Engenharia Florestal? Por que foi necessário criar uma formação específica para cuidar das florestas? Os conhecimentos de outras áreas não seriam suficientes?

A resposta está na complexidade dos ecossistemas florestais, que não podem ser plenamente atendidos por abordagens generalistas. As florestas exigem precisão em cada intervenção: demandam conhecimento técnico, visão clara do presente e compromisso com o futuro. Durante séculos, a madeira sustentou atividades econômicas essenciais, mas sua exploração apresentava um desafio: garantir o abastecimento de um recurso que levava décadas para se renovar. Para enfrentar esse problema, governantes estabeleceram regras de exploração, estudiosos desenvolveram métodos de cultivo e, mais tarde, surgiram escolas destinadas à formação de profissionais.

Na França, uma dessas iniciativas foi a Ordenança de Brunoy, promulgada em 1346 pelo rei Filipe VI. O documento estabelecia regras para a administração das florestas reais e procurava assegurar a continuidade de seu aproveitamento. Em 1376, Carlos V promulgou a Ordenança de Melun, com disposições sobre os cortes, a manutenção de árvores e a proteção das áreas exploradas. O objetivo dessas medidas era organizar a exploração da madeira sem comprometer os interesses econômicos da Coroa.

No Brasil colonial, a exploração do pau-brasil levou a Coroa portuguesa a estabelecer, em 1605, o Regimento do Pau-Brasil. A norma exigia licença para o corte e previa punições severas aos infratores, incluindo, em determinadas circunstâncias, a pena de morte e o confisco de bens. O documento mencionava a crescente dificuldade de encontrar madeira nas áreas próximas ao litoral. Tratava-se de controlar a exploração de um produto valioso para o comércio português.

Na Inglaterra, Arthur Standish publicou, em 1613, New Directions of Experience, defendendo o plantio de árvores para ampliar a produção de madeira e lenha. Em 1664, John Evelyn publicou Sylva, reunindo conhecimentos sobre espécies florestais, solos, semeadura, plantio e cuidados com as árvores. O trabalho respondia, entre outras questões, à necessidade de fornecer madeira para a construção naval inglesa. Evelyn defendia que o abastecimento futuro dependia do cultivo planejado das árvores.

Na França, Jean-Baptiste Colbert promoveu reformas na administração florestal durante o reinado de Luís XIV, consolidadas na Ordenança de Águas e Florestas de 1669. A legislação estabeleceu regras de exploração, fiscalização e manutenção de árvores destinadas ao crescimento futuro, buscando assegurar madeira para diferentes atividades, incluindo a construção naval. Enquanto Evelyn se dedicava ao cultivo das árvores, Colbert procurava disciplinar a exploração e a administração das florestas francesas.

Na Saxônia, região da atual Alemanha, Hans Carl von Carlowitz conhecia as dificuldades de abastecimento enfrentadas pela mineração e pela metalurgia. Em 1713, publicou Sylvicultura Oeconomica, obra dedicada ao cultivo, à regeneração e ao aproveitamento das florestas. Defendia o plantio de árvores, a redução do desperdício e a organização dos cortes para evitar que a falta de madeira comprometesse as atividades econômicas. Sua obra tornou-se uma referência histórica da sustentabilidade, embora estivesse voltada principalmente à continuidade do fornecimento de madeira.

A Espanha também adotou medidas para garantir madeira à construção naval. Em 1748, durante a atuação do marquês de Ensenada, uma ordenança regulamentou a administração dos montes destinados ao abastecimento da Armada, provocando conflitos com populações que dependiam desses recursos. Na França, Henri-Louis Duhamel du Monceau publicou estudos sobre espécies arbóreas, semeadura, plantio, exploração e propriedades da madeira. Seus trabalhos ajudaram a organizar conhecimentos que seriam utilizados no ensino e na prática florestal.

Na segunda metade do século XVIII, o estudo das florestas ganhou métodos mais sistemáticos, especialmente nos territórios alemães. Na Saxônia, Johann Gottlieb Beckmann publicou trabalhos sobre semeadura, cultivo de árvores e administração florestal. Hans Dietrich von Zanthier, por sua vez, organizou atividades de ensino na década de 1760, combinando aulas teóricas com demonstrações práticas. A experiência dos profissionais começava a ser complementada por conhecimentos reunidos em livros e ensinados em escolas.

Em 1770, a Prússia estabeleceu em Berlim o ensino público de botânica e economia florestal, sob a responsabilidade de Johann Gottlieb Gleditsch. A formação reunia conhecimentos de botânica, matemática, medição de árvores e cálculo dos estoques de madeira. Em 1789, Georg Ludwig Hartig organizou uma escola florestal em Hungen. Seis anos depois, publicou Anweisung zur Taxation der Forste, obra que apresentava métodos de avaliação das florestas e planejamento da produção de madeira, fundamentais para o desenvolvimento do ordenamento florestal.

Em 1795, Heinrich Cotta estabeleceu uma escola florestal em Zillbach. Nesse período, o ensino também avançava em outras regiões europeias. Na Rússia, uma escola foi criada em 1803, em Tsarskoye Selo, dando origem à instituição que posteriormente se estabeleceria em São Petersburgo. Na região de Banská Štiavnica, atual Eslováquia, conhecimentos florestais já integravam o ensino ligado à mineração desde 1770, e um instituto especializado foi criado em 1807. A necessidade de abastecer atividades econômicas, especialmente a mineração, estimulava a preparação de profissionais em diferentes países.

Em 1811, Cotta transferiu sua escola para Tharandt, na Saxônia. Cinco anos depois, a instituição tornou-se uma academia florestal. Em 1817, publicou Anweisung zum Waldbau, obra de silvicultura que alcançou diversas edições e traduções. Em suas aulas, Cotta reunia conhecimentos de silvicultura, avaliação e ordenamento florestal. O ensino também incorporou conhecimentos de geologia, química e outras ciências naturais, ampliando o estudo das condições de crescimento das árvores.

Em 1821, Wilhelm Pfeil assumiu o ensino florestal vinculado à Universidade de Berlim. Para ele, a formação precisava ocorrer também nas florestas, onde os alunos poderiam observar diretamente os problemas estudados. Em 1830, a instituição foi transferida para Eberswalde, favorecendo essa aproximação entre teoria e prática. Na França, a Escola Real Florestal de Nancy havia iniciado suas aulas em 1825. A Espanha inaugurou sua Escola Especial de Engenheiros de Montes em 1848. As escolas passaram a reunir disciplinas, métodos de pesquisa e atividades práticas voltadas especificamente ao trabalho com as florestas.

A Engenharia Florestal surgiu desse longo processo de desenvolvimento de normas, conhecimentos técnicos e métodos de administração florestal. Inicialmente voltada sobretudo à produção e ao abastecimento de madeira, ampliou seu campo de atuação para incluir a conservação dos ecossistemas, a recuperação de áreas degradadas e a gestão dos recursos naturais. Hoje, sua atuação exige conciliar produção, conservação e as necessidades das populações que dependem das florestas. A estrutura diamétrica em J invertido nos lembra um princípio fundamental: sem renovação, não há continuidade; sem planejamento, não há futuro.

Cícero Ramos, engenheiro florestal e vice-presidente da Associação Mato-grossense dos Engenheiros Florestais (AMEF).

Fonte: Cícero Ramos

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