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Pressão por juros, importações e barreiras externas afetam desempenho do setor ao longo do ano, demonstra nova edição da “Conjuntura de Móveis”
A indústria brasileira do mobiliário chega aos últimos meses de 2026 diante de um cenário marcado por sinais distintos tanto no mercado interno quanto externo. Segundo os números da “Conjuntura de Móveis – Edição Setembro 2026”, estudo elaborado pelo IEMI com exclusividade para a ABIMÓVEL (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário), a produção de móveis e colchões no país cresceu 5,3% na passagem de junho para julho deste ano. No acumulado de janeiro a julho, entretanto, a produção recuou 2,3%, enquanto o faturamento avançou 3,4% na comparação com o mesmo período de 2025.
Somente em julho, a receita cresceu 6,2% frente ao mês anterior e, no acumulado dos últimos 12 meses, registra alta de 2,8%. A combinação mostra que o crescimento do faturamento esteve menos associado à expansão da atividade e mais à formação de preços, à composição das vendas e ao maior tíquete médio dos produtos comercializados.
Parte desse comportamento reflete as pressões acumuladas sobre a estrutura de custos da cadeia, envolvendo matérias-primas, componentes, energia, logística, mão de obra e despesas financeiras, tributárias e fiscais. No entanto, mudanças no mix de produtos também contribuíram para sustentar o faturamento em um ambiente no qual os volumes seguem pressionados.
“O setor conseguiu manter crescimento nominal mesmo diante da retração do volume produzido, refletindo um cenário de demanda ainda moderada e de cautela por parte da indústria. A retomada dos volumes dependerá da evolução das condições econômicas e da recuperação gradual do consumo e dos investimentos. Nesse contexto, medidas que contribuam para a melhoria do ambiente de negócios, o acesso ao crédito, a redução gradual do custo financeiro e o fortalecimento dos mercados imobiliário e habitacional poderão favorecer a retomada da atividade. A combinação desses fatores será importante para ampliar a utilização da capacidade instalada, estimular novos investimentos, preservar e ampliar postos de trabalho e, consequentemente, contribuir para a geração de renda e para uma trajetória mais consistente de crescimento da atividade produtiva.” avalia Cândida Cervieri, diretora-executiva da ABIMÓVEL.
Crédito continua limitando a demanda
O comportamento do varejo ajuda a dimensionar essa diferença entre valor e volume. Entre janeiro e julho, as vendas no varejo doméstico caíram 2,4% em número de peças. No mês de julho, porém, houve avanço de 2,6% frente ao mês anterior, enquanto em 12 meses, o varejo ainda registra queda de 3,4% em volume.
O movimento, no entanto, não esteve acompanhado por uma pressão particularmente elevada dos preços do mobiliário. Em agosto, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) do segmento registrou alta de 0,65% no mês, acumulando 1,50% no ano e 2,75% em 12 meses. No mesmo período, o IPCA geral apresentou deflação de 0,32% em agosto, alta de 3,11% no ano e de 4,22% em 12 meses. Para a ABIMÓVEL, isso reforça a leitura de que o principal obstáculo à demanda está mesmo nas condições de consumo e financiamento.
“Móveis são bens duráveis, normalmente de maior tíquete e com forte participação do parcelamento na decisão de compra. Com juros elevados, o consumidor enfrenta prestações mais caras e menor espaço para assumir compromissos financeiros de médio prazo, adiando a renovação de dormitórios, cozinhas, salas, ambientes de trabalho e outros espaços”, explica Cândida.
A expectativa para o restante de 2026, portanto, ainda é de cautela. Black Friday e Natal podem produzir algum estímulo sazonal, mas dificilmente serão suficientes, isoladamente, para compensar a retração observada ao longo do ano. Com a taxa básica de juros, a Selic, ainda em 13,75% ao ano, a velocidade de transmissão dos cortes de juros para o crédito, que não é automática, será determinante para uma recuperação mais consistente.
Já para 2027, a perspectiva melhora se a redução dos juros vier acompanhada de recuperação da renda, da confiança e do mercado imobiliário. Nesse contexto, a ABIMÓVEL também considera estratégica e vem atuando na busca pela inclusão do setor de móveis nas políticas habitacionais, associando o acesso à moradia à sua efetiva ocupação e equipagem, especialmente no âmbito do Programa Minha Casa, Minha Vida.
Tarifas redesenham o mapa das exportações
Se o mercado doméstico enfrenta limitações, o ambiente externo tornou-se igualmente desafiador. Entre janeiro e agosto, as exportações brasileiras de móveis e colchões recuaram 6,7%, passando de US$ 506,0 milhões no mesmo período de 2025 para US$ 471,9 milhões em 2026, revela o estudo.
A retração foi pressionada especialmente pelos Estados Unidos, onde os embarques de móveis e colchões brasileiros diminuíram 39,9% no período. Excluído o mercado americano, entretanto, as vendas externas cresceram aproximadamente 5,5%, indicando avanço em outros destinos, embora ainda insuficiente para compensar a retração do principal parceiro comercial do setor.
Destino das Exportações
(acumulado do ano)
Dentre os principais mercados externos consumidores de móveis e colchões brasileiros, no acumulado do ano, de janeiro a agosto de 2026, destacaram-se as participações de Estados Unidos (17,3%), Uruguai (13,1%) e Argentina (7,7%).
Países Jan-Ago/2024 Jan-Ago/2025 Jan-Ago/2026
Nota: Não inclui assentos para aviões e automóveis, nem partes para móveis e nem partes para assentos
A pressão aumentou com as novas medidas comerciais adotadas pelo governo americano ao final do mês de julho. Diferentes categorias de móveis brasileiros passaram a estar sujeitas a sobretaxas que podem chegar a 37,5% adicionais às tarifas ordinárias de importação. Canadá e México também adotaram medidas que elevaram o custo de entrada de diferentes produtos brasileiros na América do Norte.
O efeito vai além da margem do fabricante. Tarifas mais elevadas alteram negociações entre exportador, importador e varejo, podem chegar ao consumidor final e reduzem a competitividade do produto brasileiro, interferindo em contratos, volumes e decisões de compra.
Segundo estimativas acompanhadas pelo setor, mais de 10 mil postos de trabalho foram afetados desde o anúncio das primeiras sobretaxas, em 2025. A ABIMÓVEL vem atuando na defesa das condições de acesso aos mercados e apresentou recentemente manifestação ao governo canadense no processo de salvaguarda, acompanhando a evolução das medidas junto às autoridades competentes.
Diversificação passa a ser estratégica
A agenda para 2027 e 2028 deverá, portanto, ser orientada pela diversificação geográfica e pelo fortalecimento da atuação internacional da indústria brasileira, sem perder os destinos já consolidados. Os Estados Unidos permanecem estratégicos, pela escala e pela presença construída pela indústria brasileira ao longo de 25 anos, com uma ampla rede de parceiros comerciais. Paralelamente, América Latina e Central, Europa, Oriente Médio, África e Índia estão no radar para novas oportunidades.
Na América Latina, o Brasil ocupa uma posição de destaque como maior produtor de móveis da região, o que abre espaço para aprofundar sua atuação regional. A prioridade está em mercados como Argentina, Chile, Peru, Uruguai, Colômbia e Panamá, fortalecendo canais de distribuição, relacionamentos comerciais e geração de negócios.
Na Europa, o setor já conta com presença estabelecida em países como Espanha, Portugal, França, Itália, Inglaterra, entre outros mercados, e a estratégia é identificar novelas oportunidades de crescimento, canais e segmentos com potencial para os produtos brasileiros.
A definição das prioridades considera, em cada país, o potencial de demanda, ambiente competitivo, barreiras tarifárias e regulatórias, logística, canais de distribuição e condições de acesso. “Essa inteligência deverá ser fundamental para direcionar as ações de prospecção e promoção internacional, especialmente em mercados onde a evolução de acordos comerciais possa abrir novas oportunidades”, observa a diretora–executiva da ABIMÓVEL.
Essa agenda, inclusive, integra o Projeto Brazilian Furniture, em parceria com a ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), para o ciclo 2027–2028, com foco em inteligência comercial, estudos de mercado, prospecção e promoção internacional. O objetivo é concentrar esforços onde exista maior potencial de negócios e transformar oportunidades em resultados concretos para as empresas brasileiras.
Importações avançam em velocidade superior ao mercado
Entre janeiro e agosto, as importações do setor alcançaram US$ 265,9 milhões, avanço de 40,8% na comparação com os US$ 188,9 milhões registrados no mesmo período de 2025. A China respondeu por 73,9% do total. O ritmo de crescimento é muito superior ao observado no consumo doméstico e na própria produção brasileira, indicando ganho de espaço dos produtos importados no mercado nacional.
Origens das Importações
(acumulado do ano)
Em termos de participação, a China segue sendo a principal origem, com de 73,9% das importações totais de móveis e colchões realizadas pelo Brasil no acumulado do ano de 2026, de janeiro a agosto. Em seguida, vem a Áustria, com 6,9% e a Itália com 5,1%.
O cenário internacional adiciona um risco para 2027. À medida que grandes economias reforçam tarifas, salvaguardas e outros mecanismos de proteção, produtos originalmente destinados a esses mercados podem ser redirecionados para países com menores barreiras de entrada, aumentando a pressão competitiva sobre a indústria local.
“Não se trata de fechar o mercado brasileiro, mas de garantir condições justas e equilibradas de concorrência e fortalecer a competitividade da indústria brasileira”, afirma Cândida Cervieri. Para a ABIMÓVEL, isso passa pelo monitoramento de preços, origens e volumes importados, pelo cumprimento das normas técnicas, tributárias, ambientais e de segurança e, quando houver fundamentos técnicos, pela utilização dos instrumentos de defesa comercial.
Ao mesmo tempo, parte da resposta precisa vir do fortalecimento da própria base produtiva. Nesse sentido, a ABIMÓVEL atua de forma integrada por meio de dois projetos complementares: o PDCIMob (Projeto de Desenvolvimento, Competitividade e Integração da Indústria do Mobiliário), em conjunto com o Sebrae (Serviço Brasileiro de Promoção de Exportações e Investimentos), com foco na expansão dos pequenos negócios; e o Brazilian Furniture, em parceria com a ApexBrasil, que amplia a inserção internacional, a promoção e as exportações. Juntos, os projetos fortalecem a indústria brasileira e conectam competitividade, desenvolvimento e internacionalização.
Competitividade e design entram no centro da agenda setorial
Esse debate sobre competitividade, diferenciação e geração de valor também estará no centro do Congresso Nacional Moveleiro 2026, realizado nos dias 4 e 5 de novembro, no Centro de Eventos Sistema Fiep, em Curitiba (PR). Sob o tema “Conexões”, o encontro reunirá indústria, especialistas, compradores e diferentes agentes da cadeia para discutir estratégias de mercado, inovação, gestão, design e os caminhos para ampliar a competitividade do mobiliário brasileiro em palestras, painéis, exposições, rodada de negócios, visitas técnicas, reuniões sindicais e muito mais.
O credenciamento está aberto e é gratuito: www.congressomoveleiro.com.br.

Resumo – Principais Indicadores do Setor Moveleiro
Indicadores Brasil Minas Gerais Paraná Rio Grande do Sul Santa Catarina São Paulo
Produção (Peças) – Julho/26 5,3% - 11,1% -2,8% - -
Consumo Aparente – Julho/26 6,5% - 11,5% -0,7% - -
Exportação (US$) – Agosto/26 -2,9% 5,0% -26,1% 16,4% -6,8% 9,5%
Importação (US$) – Agosto/26 -19,5% -28,2% -17,2% -47,8% -18,6% -21,2%
Participação dos Importados – Julho/26 7,9% - 4,3% 0,5% - -
Participação dos Exportados – Julho/26 5,0% - 8,8% 9,6% - -
Emprego – Julho/26 -0,6% -0,54% -0,18% -0,16% -0,50% -0,34%
Varejo (Volume) – Julho/26 2,6% 6,4% 8,1% -4,2% 3,1% 1,4%
Varejo (Valores) – Julho/26 2,4% 6,0% 6,0% -3,3% 1,1% 0,1%
Inflação (móveis) – Agosto/26 0,65% 1,30% -0,76% 1,37% - 1,09%
Fonte: IBGE/Secex/CAGED/CNI. Elaboração IEMI.
A íntegra da Conjuntura de Móveis – Setembro/2026 está disponível no acervo digital da ABIMÓVEL: abimovel.com/acervo-digital
Fonte: Abimóvel
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