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21
set
2026
(MADEIRA E PRODUTOS)
Dia da Árvore: Como a madeira engenheirada conecta florestas e cidades rumo à descarbonização

No Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, é comum que a discussão sobre a conservação se concentre na necessidade de proteger as florestas e ampliar a cobertura vegetal. No entanto, diante da urgência climática e da necessidade de transformar a economia, existe outra dimensão dessa conversa que merece atenção: como utilizar os recursos da floresta de maneira responsável, mantendo sua capacidade de regeneração e, ao mesmo tempo, contribuir para uma economia de baixo carbono?

Essa questão ganha relevância quando chega ao setor da construção civil. Edifícios, pontes, galpões e outras estruturas demandam grandes volumes de materiais e energia ao longo de seus ciclos de vida. Por isso, repensar os insumos utilizados nas obras tornou-se parte importante da agenda de descarbonização.

É nesse ponto que a madeira engenheirada estabelece uma conexão entre floresta e cidade. Produzido a partir de madeira proveniente de florestas plantadas e manejadas de forma responsável, o material transforma um recurso renovável em componentes estruturais capazes de atender a projetos de diferentes escalas. A discussão, portanto, não começa no canteiro de obras, mas sim nas florestas.

Quando manejadas de forma responsável, as florestas plantadas podem desempenhar um papel importante em uma economia de baixo carbono. Durante o crescimento, as árvores retiram dióxido de carbono da atmosfera e armazenam carbono na biomassa. Ao mesmo tempo, áreas destinadas à produção florestal podem integrar paisagens produtivas planejadas, com ciclos de plantio, crescimento e colheita.

Isso não significa equiparar florestas plantadas a ecossistemas naturais. São funções distintas e a conservação das florestas nativas permanece indispensável. A questão é reconhecer que a produção florestal responsável pode fazer parte de uma estratégia mais ampla de uso eficiente da terra, desde que respeite a legislação, critérios ambientais e boas práticas de manejo.

A origem da matéria-prima é, portanto, um dos pontos fundamentais quando se fala em madeira para construção. Certificações florestais, rastreabilidade e manejo responsável ajudam a estabelecer critérios para que o recurso renovável chegue à indústria dentro de uma cadeia produtiva controlada.

Nesse modelo, a árvore não é vista apenas como matéria-prima, mas como parte de um ciclo. O carbono capturado durante o crescimento permanece armazenado na madeira utilizada em produtos de longa duração, enquanto novas árvores podem ser plantadas para dar continuidade à produção.

A madeira engenheirada representa uma evolução importante na capacidade de utilizar esse recurso em aplicações estruturais. Diferentemente da madeira convencional utilizada diretamente em determinados produtos, os sistemas engenheirados combinam peças e lâminas por meio de processos industriais que permitem obter elementos com características estruturais específicas.

Entre as tecnologias mais conhecidas estão o CLT (Cross Laminated Timber), formado por camadas de madeira dispostas em sentidos alternados, e o glulam, produzido pela união de lâminas de madeira coladas. Esses sistemas ampliam as possibilidades de aplicação da madeira em projetos de maior porte e permitem maior precisão na fabricação dos componentes.

A industrialização também modifica a dinâmica do canteiro. Parte dos elementos pode ser produzida previamente em ambiente controlado e chegar à obra pronta para montagem. Isso pode contribuir para maior previsibilidade, redução de desperdícios e racionalização do processo construtivo.

O impacto ambiental, entretanto, precisa ser analisado de maneira abrangente. Não basta comparar materiais apenas pelo peso ou pela quantidade de energia utilizada durante a fabricação. É necessário considerar a origem da matéria-prima, os processos industriais, transporte, vida útil, manutenção e possibilidades de reutilização ou destinação ao final da vida da edificação.

É justamente essa perspectiva de ciclo de vida que coloca a madeira engenheirada no debate sobre construção de baixo carbono. As árvores absorvem carbono durante seu crescimento e, quando a madeira é transformada em produtos de longa duração, parte desse carbono permanece armazenada enquanto o material estiver em uso.

Essa relação cria uma conexão particular entre floresta e construção. Um edifício de madeira não representa apenas o resultado de um processo industrial, pois incorpora parte do carbono capturado pelas árvores que deram origem aos seus componentes.

É uma lógica que exige responsabilidade. O benefício climático não está simplesmente no fato de um produto ser feito de madeira, pois depende de uma cadeia que começa no manejo florestal e segue pela transformação industrial, logística, projeto, construção, manutenção e destinação final.

É por isso que falar em madeira engenheirada também significa falar em rastreabilidade, eficiência produtiva e planejamento. Quanto mais transparente for a cadeia, maior a capacidade de avaliar seus impactos e seus benefícios.

A expansão dessas soluções também provoca uma reflexão sobre o próprio conceito de desenvolvimento. Durante décadas, o crescimento urbano esteve associado a um modelo construtivo baseado em materiais de alta intensidade energética e em processos pouco industrializados. A transição para uma economia de baixo carbono exige repensar esse modelo e considerar o ciclo completo da construção: de onde vem o recurso, quanto é utilizado, quanto é desperdiçado, quanto tempo a estrutura permanece em uso e o que acontece com seus componentes depois.

Nesse contexto, a madeira engenheirada aproxima duas agendas que muitas vezes são tratadas separadamente: a conservação ambiental e o desenvolvimento econômico. De um lado, existe a necessidade de proteger florestas nativas, preservar a biodiversidade e combater o desmatamento. De outro, há uma demanda crescente por materiais renováveis e soluções construtivas com menor impacto climático.

Florestas plantadas manejadas de forma responsável podem ocupar parte desse espaço, fornecendo matéria-prima renovável para uma indústria que busca reduzir sua pegada ambiental, sem confundir produção florestal com conservação de ecossistemas naturais. A relação entre as duas frentes depende de planejamento territorial, critérios ambientais, rastreabilidade e uma visão de longo prazo sobre o uso dos recursos naturais.

No setor da construção, essa mudança de perspectiva faz com que a madeira deixe de ser vista apenas como um material tradicional e passe a ocupar espaço em uma discussão mais ampla sobre como as cidades podem ser construídas. A árvore que cresce em uma floresta plantada pode, décadas depois, estar presente em uma estrutura urbana, mantendo parte do carbono capturado durante seu crescimento e dando materialidade a uma cadeia que conecta produção, indústria e infraestrutura.

*Ana Belizário é diretora da Urbem, indústria brasileira de madeira engenheirada de larga escala, que atua no setor da construção civil, focada em oferecer produtos e serviços inovadores e sustentáveis.

*Por Ana Belizário


Tatiane Almeida
tatiane@temp7.com.br
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