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Notícias

04
ago
2026
(GERAL)
Como a Engenharia Florestal ajuda a reduzir os impactos do El Niño

Antes que a estiagem diminua a vazão de uma nascente, que um incêndio florestal avance sobre extensas áreas de vegetação ou que a irregularidade das chuvas comprometa uma safra, existe um período decisivo: o intervalo entre a previsão climática e a ocorrência dos danos. É nesse momento que a Engenharia Florestal atua, aplicando conhecimentos e intervenções que reduzem a vulnerabilidade dos ecossistemas aos efeitos do El Niño.

O El Niño altera os regimes de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta, mas suas consequências não dependem apenas de sua intensidade. Também são influenciadas pelas condições do solo, da cobertura vegetal, dos recursos hídricos e do uso da terra. Uma mesma estiagem pode causar danos muito distintos em territórios conservados ou degradados. Por isso, a previsão meteorológica precisa ser acompanhada de ações sobre a paisagem.

É justamente sobre essas condições que atua a Engenharia Florestal. O conhecimento das relações entre solo, vegetação e água orienta práticas que controlam a erosão, favorecem a infiltração e conservam a umidade. O manejo florestal, a recuperação de áreas degradadas e a proteção de nascentes, matas ciliares e bacias hidrográficas fazem parte desse conjunto de ações. Não se trata de impedir a ocorrência do El Niño, mas de diminuir a vulnerabilidade dos territórios aos seus efeitos.

Essa relação entre clima e condições do território pode ser observada de forma clara nos incêndios florestais. Grandes incêndios quase nunca começam grandes. Eles ganham intensidade ao encontrar vegetação seca e contínua, acúmulo de material combustível e condições meteorológicas favoráveis à propagação das chamas. Os episódios registrados no Brasil em 2023 e 2024 mostraram como estiagens prolongadas podem ampliar o risco de incêndios de grandes proporções. Aceiros bem planejados, manejo da vegetação, monitoramento e identificação das áreas mais suscetíveis ajudam a conter o fogo antes que ele se torne incontrolável.

Os mesmos princípios também determinam a disponibilidade de água. É comum imaginar que uma nascente dependa apenas da vegetação existente ao seu redor. Na realidade, seu funcionamento depende das condições de toda a microbacia hidrográfica que contribui para sua recarga. A cobertura vegetal protege o solo, reduz a erosão e favorece a infiltração da água da chuva. Parte dessa água permanece armazenada no solo e é liberada gradualmente durante os períodos secos. Conservar uma nascente, portanto, exige cuidar de toda a bacia hidrográfica responsável por sua produção de água.

Essa conservação do solo e dos recursos hídricos produz reflexos diretos na produção agropecuária. A tecnologia elevou a produtividade das lavouras, mas a produção continua dependente da disponibilidade de água, da estabilidade dos solos e de condições climáticas favoráveis. Florestas e demais formações vegetais não competem com a produção; integram a infraestrutura natural que sustenta a atividade agropecuária. Regulam o ciclo da água, protegem os solos e contribuem para maior estabilidade da produção diante das variações do clima.

Os mesmos princípios permanecem válidos quando o cenário deixa de ser rural e passa a ser urbano. Em ambientes dominados por concreto, asfalto e superfícies impermeáveis, a arborização, os parques e os corredores verdes reduzem as ilhas de calor, melhoram a qualidade do ar e favorecem a infiltração da água da chuva. Mais do que elementos paisagísticos, árvores e florestas urbanas constituem uma infraestrutura ambiental indispensável à adaptação das cidades aos extremos climáticos.

Hoje, a capacidade de planejar essas intervenções tornou-se ainda maior. Sensoriamento remoto, geoprocessamento, sistemas de informação geográfica (SIG), modelagem computacional, drones e inteligência artificial permitem monitorar continuamente a cobertura vegetal, identificar áreas suscetíveis ao fogo e orientar intervenções com maior precisão. Quando associados às previsões meteorológicas e ao conhecimento de campo, esses recursos tornam as decisões mais rápidas, eficientes e precisas.

Embora esses princípios sejam gerais, sua aplicação varia conforme as características de cada região. No Brasil, as respostas precisam considerar as diferenças entre Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa. Cada bioma apresenta características próprias de clima, solo, vegetação e disponibilidade hídrica, que condicionam sua resposta ao El Niño. Por isso, reduzir os impactos do fenômeno exige estratégias específicas para cada bioma, considerando suas particularidades ecológicas e as diferentes formas de uso da terra, tanto em áreas naturais quanto em florestas plantadas, lavouras, pastagens e espaços urbanos.

O El Niño continuará fazendo parte da dinâmica climática do planeta. A dimensão de seus danos, entretanto, não é determinada apenas pelo clima, mas pelo estado em que se encontram os territórios quando os eventos extremos chegam. Entre a previsão, ou mesmo antes dela, e o desastre existe um tempo precioso para agir. É nesse intervalo que a Engenharia Florestal revela uma de suas maiores contribuições para a sociedade: preparar a paisagem para que a estiagem, os incêndios florestais e a escassez de água encontrem territórios menos vulneráveis e uma sociedade mais protegida.

Cícero Ramos, Engenheiro Florestal e vice-presidente da Associação Mato-grossense dos Engenheiros Florestais (AMEF).

Eleandro Brun, Engenheiro Florestal, professor da UTFPR – Campus Dois Vizinhos e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Engenheiros Florestais (SBEF).

https://maisfloresta.com.br/como-a-engenharia-florestal-ajuda-a-reduzir-os-impactos-do-el-nino/

Fonte: Mais Floresta

Sindimadeira_rs ITTO