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Durante uma conversa entre profissionais do setor florestal surgiu uma observação curiosa:
— A silvicultura parece conviver com alguns fantasmas que nunca desaparecem. Eles apenas mudam de roupa.
Há algumas décadas, um dos grandes fantasmas era a qualidade das sementes. Quantas florestas foram implantadas com material genético de baixo potencial? A consequência era conhecida: povoamentos pouco produtivos, altos custos e enorme dificuldade para produzir madeira de forma competitiva.
A pesquisa respondeu ao desafio. Vieram as sementes melhoradas, os pomares clonais, os clones de alto desempenho e uma verdadeira revolução na produtividade das florestas brasileiras.
Mas o tempo passou.
Novas fronteiras florestais surgiram, os ambientes tornaram-se mais desafiadores e começam a aparecer sinais de que aquele velho fantasma apenas mudou de aparência. Os materiais genéticos que revolucionaram a silvicultura nem sempre evoluíram na mesma velocidade exigida pelas novas condições de cultivo. O problema continua existindo, agora com outra roupagem.
Outro fantasma que volta a dar sinais é o chamado apagão florestal.
Durante muito tempo, havia quem tratasse essa preocupação com certa tranquilidade. Afinal, existiam florestas excedentes, muitas vezes distantes das fábricas, capazes de suprir necessidades temporárias. Não era a situação ideal, mas dificilmente alguém ficava sem madeira.
Hoje o cenário é diferente.
As reservas diminuíram, a expansão industrial continua e a margem de segurança tornou-se muito menor. Se surgirem dificuldades importantes de oferta, os impactos poderão ser muito mais severos do que no passado. Mais uma vez, o fantasma continua rondando a silvicultura, apenas com uma nova aparência.
Mas talvez nenhum deles seja tão conhecido quanto um velho inimigo da silvicultura brasileira: a formiga.
Estima-se que, décadas atrás, milhares de hectares de florestas de eucalipto tenham sido comprometidos por seus ataques. Elas mobilizaram pesquisadores, empresas e fabricantes de produtos, transformando-se em um dos maiores desafios da silvicultura brasileira.
Hoje dispomos de muito mais conhecimento, tecnologias de monitoramento e métodos eficientes de controle.
Mesmo assim, basta conversar com profissionais de campo para perceber que esse velho inimigo continua firme e forte rondando as florestas. Talvez menos visível do que antes, mas certamente não menos faminto.
Ao longo da história, a silvicultura brasileira mostrou uma extraordinária capacidade de superar desafios.
Mas existe uma diferença importante entre o passado e o presente.
Quando surgia um grande problema, rapidamente todo o setor ficava sabendo. Empresas, pesquisadores, universidades e profissionais compartilhavam experiências, discutiam soluções e aprendiam juntos. Havia uma convivência técnica muito mais intensa e um permanente intercâmbio de informações.
Hoje a realidade mudou.
Os empreendimentos conversam menos entre si. As dificuldades, muitas vezes, permanecem restritas a quem as enfrenta. Os problemas deixam de circular, o conhecimento demora mais para se espalhar e, com isso, alguns fantasmas conseguem permanecer mais tempo escondidos.
Talvez essa seja a maior mudança de todas.
Os fantasmas da silvicultura continuam existindo. Mudam de roupa, mudam de endereço e mudam de intensidade, mas continuam rondando os plantios.
No passado, a força do setor estava também na rapidez com que esses fantasmas eram identificados e enfrentados coletivamente.
Hoje, quando cada um convive apenas com os seus próprios fantasmas, vale uma última reflexão:
– Será que estamos compartilhando os problemas com a mesma velocidade com que compartilhamos os sucessos?
Talvez os fantasmas da silvicultura façam parte da própria evolução da atividade.
Eles mudam de roupa, mudam de endereço e surgem em momentos diferentes.
O importante é que nunca deixemos de reconhecê-los enquanto ainda são apenas fantasmas.
Nelson Barboza Leite – Agrônomo – Silvicultor – nbleite@uol.com.br
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Fonte: Comunidade de Silvicultura
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