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Notícias

07
fev
2019
(QUEIMADAS)
Incêndio ameaça árvores de mil anos na Tasmânia

O fogo está a cerca de 500 metros da maior floresta de pinheiros do mundo, com árvores que chegam a mil anos de idade, relata para o “The Guardian” o escritor e diretor de cinema Richard Flanagan. Uma nefasta associação de ventos com tempestades de raios secos alimentou a disseminação e a ferocidade dos incêndios na Tasmânia, ilha-estado da Austrália, a vigésima-sexta maior do mundo. Conta o escritor:

“Relâmpagos incendiaram o que se tornaria conhecido como o incêndio do rio Gell no sudoeste da ilha. Nas últimas semanas, mais relâmpagos levaram a mais incêndios. Hoje a Tasmânia está queimando. Ela registrou seu janeiro mais seco, com temperaturas máximas surpreendentes de 3,22C acima da média de longo prazo do mês”.

Segundo o Corpo de Bombeiros local, há 20 a 30% mais gás carbono na atmosfera do que a média. E os incêndios se tornaram incontroláveis, a tal ponto que, na Nova Zelândia, uma equipe de bombeiros foi convocada para investigar se vem de lá uma espessa nuvem de fumaça que se espalhou por mais de dois mil quilômetros no mar. As autoridades estão alertando: há chances de catástrofe como a que aconteceu em 1967, nos quais 62 pessoas morreram em poucas horas:

“Os incêndios na Tasmânia atraíram pouca atenção da mídia nacional porque até agora, felizmente, não houve perda de vidas e apenas um punhado de casas foi incendiado. No entanto, esses incêndios sinalizam uma nova realidade aterradora, tão perturbadora e quase certamente tão trágica quanto o branqueamento de recifes de corais da Grande Barreira de Corais”, escreveu Flanagan.

Não se pode discordar do escritor. Sobretudo quando ele diz que os tasmanianos estão vivendo um dia a dia de terror por causa do fogo. Seus verões não são mais alegres, mas um período de pavor:

“Comunidades inteiras foram evacuadas e estão vivendo em centros de evacuação ou se amontoando com amigos e familiares. Aqueles que permanecem vivem em uma onda de insônia e medo, nunca sabendo quando o próximo ataque de brasas ocorrerá ou um incêndio próximo quebrará linhas de contenção, um terror de vento, fumaça e calor. Bombeiros voluntários não se encontram mais lutando contra incêndios por uma semana, mas por uma temporada. O governo é confrontado com o custo extraordinário de combater incêndios desse tamanho e escala por meses”, diz ele.

O novo normal dos tasmanianos será conviver com este pavor todos os anos. E não terão respeito nem o zelo dos políticos, pelo jeito. Richard Flanagan é um crítico implacável do Primeiro Ministro da Austrália, Scott Morrison. Descreve com detalhes o dia em que Morrison, ainda como tesoureiro do Partido Liberal, chegou ao Parlamento com um pedaço de carvão nas mãos para insuflar seus colegas a “perderem o medo” do mineral tão combatido pelos ambientalistas porque aumenta as emissões de carbono que, no fim e ao cabo, segundo os cientistas, vão ajudar a incendiar as florestas já que causam mudanças climáticas e seus efeitos, como a seca.

Assim, se depender do primeiro ministro australiano, os tasmanianos não podem imaginar voltar a ter verões amenos e tranquilos. E sua incrível floresta tende a ter destino semelhante ao das três maiores florestas tropicais do mundo, segundo reportagem publicada no site da organização Climate Change News, que também sofrerão por causa de ações dos políticos. Floresta Amazônica, no Brasil; Floresta da República Democrática do Congo, também conhecida como Selva do Congo, na África; e a Floresta da Indonésia, situada no arquipélago que forma a Indonéstia e a Malásia, podem ser alvo da cobiça cada vez maior da indústria e do afã pelo desenvolvimentismo que vem sendo o único mote dos políticos.

“Mudanças recentes de liderança no Brasil e na República Democrática do Congo, e eleições presidenciais na Indonésia em abril, estão alimentando preocupações de que a política poderia estar ao lado de indústrias como dendê, madeira, mineração e agricultura nos três maiores países da floresta tropical”, explica a reportagem.

De 2015 para cá, segundo os dados apurados pelos jornalistas, a cobertura de árvores nas três florestas está ameaçada. O desmatamento do Brasil em 2017 foi equivalente a 365 milhões de toneladas de CO2, pelas contas dos pesquisadores do site, e aumentou quase 50% nos três meses de campanha do atual presidente Jair Bolsonaro. No Congo, a perda de cobertura de árvores da foi equivalente a 158 milhões de toneladas no ano passado e, a da Indonésia, ficou em 125 milhões de toneladas.

“As florestas poderiam fornecer cerca de um terço da solução para a mudança climática, mas no momento elas são mais parte do problema por causa do desmatamento. Se isso fosse interrompido e pudéssemos restaurar florestas em grande escala, poderíamos provavelmente fechar cerca de um terço do atual déficit de emissões." disse Tim Christophersen, chefe da filial de água doce, terra e clima da ONU no Quênia.

Com todas essas informações ainda quentes na cabeça, fui à casa de amigos para uma reunião mensal. Ali conversamos sobre o atual estado das coisas em termos climáticos. Não há uma unanimidade entre nós, porque dois dos nossos, médicos, não acreditam que o clima esteja mudando por causa do homem, mas por conta das atividades solares, que alteram nosso campo eletromagnético e...

De qualquer maneira, e isto é importante que se diga e se pontue até mesmo aos céticos: há um ponto de convergência quando se discute as questões climáticas entre pessoas que se informam por essas ou aquelas fontes de estudo. Mesmo que, como acreditam eles, o planeta estivesse seguindo apenas seu destino, caminhando para uma nova era, o fato de a humanidade estar abusando tão intensamente de suas florestas e poluindo tão profundamente sua atmosfera, com certeza o deixa mais vulnerável. E, neste ponto, não há como tirar dos ombros dos políticos uma tremenda responsabilidade.

São eles que poderiam estar mudando o rumo, focando menos em lucro do que em qualidade de vida para os cidadãos. Estes, por sua vez, poderiam estar mudando de atitude, priorizando mais o próprio bem estar do que o fato de ter coisas. Se queremos algo, precisamos saber conquistar. E se é de saúde que precisamos, está na hora de perceber a conexão que existe entre o excesso de rejeitos de minério que leva à tragédia de Brumadinho e nosso própriojeito de viver, de consumir, de acumular coisas. Está na hora de mudarmos de atitude. Este é o convite que o planeta pode estar nos fazendo.

Amélia Gonzalez

Fonte: G1

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