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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°100 - NOVEMBRO DE 2006

Preservao

Madeira preservada Os impactos ambientais

Embora sejam inmeras as vantagens e as opes de utilizao, a madeira apresenta algumas desvantagens, como degradao por radiao e produtos qumicos, alm da biodegradao. O fogo, calor, umidade, poluio, efeitos climticos, presena de substncias muito cidas ou muito bsicas, atrito com outros materiais e os agentes biolgicos podem degradar a madeira. Os agentes biolgicos, sem dvida, so considerados os de maior importncia. No ambiente terrestre, os fungos, as bactrias e os insetos so os principais agentes biolgicos que destroem a madeira; no ambiente marinho, destacam-se os moluscos e os crustceos.

Para impedir ou atenuar a deteriorao da madeira, citam-se, basicamente, trs medidas a serem tomadas:

- Utilizar madeiras de elevada resistncia natural aos agentes biolgicos, fsicos e qumicos.

- Introduzir alteraes qumicas permanentes na estrutura dos componentes da madeira.

- Incorporar substncias madeira que lhe confiram maior resistncia, como preservativos, ignfugos e acabamentos superficiais;

Sem dvida, a terceira medida a mais utilizada em todo o mundo pelas facilidades, tecnologias disponveis e pelos resultados obtidos. O tempo de vida til da madeira tratada depender fundamentalmente da interao entre as caractersticas da prpria madeira e das condies locais onde a madeira ser utilizada. Quando se fala em preservao da madeira entram em cena trs elementos importantes, que devem estar perfeitamente sintonizados: as propriedades da madeira, a natureza do produto utilizado e o mtodo de aplicao utilizado. Preservar a madeira , portanto, assegurar que ela tenha resistncia que ela no teria naturalmente, tornando-a to duradoura quanto possvel.

Jamais um produto qumico conseguir reunir todas as propriedades desejveis para um bom preservante de madeira. Os preservantes hidrossolveis so os mais utilizados e constitudos de sais metlicos e incluem na sua formulao vrias substncias qumicas, como arsnio, cromo, cobre, boro, zinco e flor. Em geral, os sais contm mais de uma substncia qumica na sua formulao, com vrias finalidades:

- Melhor fixao do produto, por reagirem quimicamente com os componentes da madeira.

- Reduo dos efeitos corrosivos sobre metais.

- Proteo da madeira contra um maior nmero de agentes xilfagos.

Tratamento Industrial da Madeira

Os processos industriais de tratamento da madeira apresentam algumas vantagens em relao aos processos caseiros ou feitos presso atmosfrica: maior produo e uniformidade, maior facilidade no controle de qualidade, maior segurana, maior retorno de capital, maior controle ambiental, maior rigor no cumprimento da legislao, maior controle fiscal, maior gerao de impostos e divisas etc. Em compensao, os processos industriais requerem maiores investimentos, maior formao profissional dos administradores e funcionrios, maior rea operacional, maior quantidade de madeira disponvel, maior conhecimento de mercado, com pontos de distribuio e profissionais de venda etc.

Atualmente, a usina tem incorporado em seu projeto novos melhoramentos advindos da engenharia mecnica, eletrnica e qumica, que facilitam a operao e que so, cada vez mais, disponveis no mercado, a preos acessveis. Alm da usina em si, o arranjo e o grau de mecanizao do ptio de secagem e estocagem tem uma influncia considervel no sucesso do empreendimento, alm dos aspectos de logstica, que envolvem a colheita, o processamento e o transporte da madeira, desde as reas de produo at o ptio. Custos, eficincia e controle de estoque devem ser compatibilizados e so elementos que um administrador no pode perder de vista.

Grande parte das atividades realizadas numa usina de preservao executada nos ptios; sua organizao e disposio devero apresentar um fluxo contnuo, sm cruzamento de atividades, garantindo eficincia, ganho de tempo, economia, produtividade e segurana. O arranjo fsico da rea industrial prev espaos para a rea administrativa, rea operacional (armazenamento, tratamento, expedio), rea de circulao e rea social.

Os produtos utilizados exigem cuidados na preparao, dosagem e controle de vazamentos. As usinas mais modernas tm maior controle de qualidade e redobram os cuidados em relao proteo do meio ambiente; no entanto, importante salientar a necessidade de rigoroso controle na integridade e no destino final das embalagens, na destinao final dos resduos e observncia na deposio de respingos de soluo remanescente das peas tratadas, que podem contaminar o solo e os cursos dgua.



CCA em Questo

Arseniato de cobre cromatado CCA - O arseniato de cobre cromatado (CCA), tambm conhecido como Celcure, o preservativo hidrossolvel mais utilizado em todo o mundo, com uma tradio de uso que remonta h mais de setenta anos. Quando aplicado madeira, em tratamento sob presso, o cromo provoca a precipitao de grande quantidade de cobre e arsnio e reage com a madeira, tornando os produtos praticamente insolveis. A reao de fixao desencadeada pelo cromo deixa o arsnio, como agente inseticida, e o cobre, como agente fungicida, totalmente aderidos s estruturas celulares.

O CCA largamente utilizado no tratamento de madeiras que permanecem em contato com o solo e muito eficiente na proteo de madeiras contra insetos (cupins e brocas), fungos apodrecedores e perfuradores marinhos. As madeiras a serem preservadas devero ser previamente descascadas e secas, j dimensionadas e preparadas para seu uso final. Aps o tratamento preservativo, as peas devem ser armazenadas por duas a trs semanas, para a fixao dos ingredientes ativos.

O produto mantm inalterada a condutividade eltrica da madeira, fator de grande importncia para postes e redes de energia eltrica, bem como dormentes para ferrovia; no altera a combustibilidade da madeira, como no aumenta a corrosividade a metais utilizados em contato; no deixa resduos em sua superfcie, no exala vapores e odores, bem como os acabamentos de superfcie apresentam uma durabilidade comprovadamente maior que os aplicados sem tratamento.

Dentre todos os processos e produtos utilizados at o momento, considera-se como mais efetivo o tratamento da madeira com a impregnao com ciclos de vcuo e presso, utilizando o sal preservante CCA. A madeira preservada com presso com CCA uma opo ecologicamente responsvel para elementos de construo; quando processada corretamente e utilizada de acordo com as recomendaes tcnicas, as peas tratadas so limpas, inodoras e seguras para serem utilizadas numa ampla variedade de aplicaes.

Por apresentar arsnio e cromo na sua composio, o uso dos sais CCA tem gerado questionamentos e dvidas, por acarretarem certos perigos para o meio ambiente. Esta preocupao procedente e est relacionada conhecida toxicidade que possuem. O cromo metal pesado e o arsnio perigoso em todos os sentidos. O CCA classificado como extremamente txico (classe I). O foco da discusso est na possvel disperso do arsnio para o ambiente pela madeira, antes da completa fixao dos ingredientes ativos, pela inevitvel emisso em servio e, mais recentemente, pela disposio dos resduos. A imprensa americana tem levantado contnuos questionamentos sobre o uso dos sais de CCA na madeira tratada, principalmente devido presena do arsnio. Manifestaes pblicas e regulamentaes tm restringido o uso de CCA em vrios pases como Japo, Indonsia, Sucia, Dinamarca e Alemanha.

Nos Estados Unidos, a Environmental Protection Agency EPA - anunciou, em 2003, uma deciso voluntria das indstrias para cessar a produo de madeira tratada com CCA em uso residencial, ou seja, para playgrounds, decks e cercas de casas; no surgiram, entretanto, limitaes de uso do produto para as utilidades rurais e industriais, como postes, moures e dormentes. A EPA concluiu, ainda, que as madeiras tratadas com CCA, em uso nas residncias ou estocadas em lojas, no representam riscos para o pblico, no sendo necessria a remoo e substituio desta madeira, inclusive para decks e playgrounds.

Na Unio Europia, pases de vanguarda ambiental, como Sucia e Dinamarca, j proibiram o uso do arsnio e restringiram, a partir de 2004, o uso de madeira tratada com preservantes baseados em cromo e cobre, em algumas aplicaes especiais, como uso domstico; o cromo e o cobre no sofreram restries para uso industrial e comercial. A EPA considera a madeira tratada com CCA como segura quando utilizada para os propsitos determinados.

Sem dvida, as pesquisas tm demonstrado que ambas as substncias qumicas (cobre e arsnio) esto fortemente ligadas madeira por efeito do cromo, que atua como elemento fixador, minimizando o perigo de contaminao ambiental em condies normais de utilizao da madeira tratada; em ambientes marinhos, no foi constatada nenhuma condio de lixiviao ou qualquer alterao do ambiente aqutico.

O debate entre os pesquisadores e alguns ambientalistas, que pressionam para eliminar o preservante CCA do mercado, pelos seus efeitos ao ambiente e sade humana, se baseia em evidncias cientficas de alguns e, principalmente, nas especulaes de outros. Esta preocupao compreensvel quando se considera que a madeira tratada vai estar em contato fsico com os seres humanos, como o caso da madeira utilizada em instalaes de ptios, coberturas, comedouros de animais, ambientes internos de residncias e play-grounds. Como so as crianas que tocam as superfcies e levam freqentemente as mos boca, considera-se que as crianas estejam mais sujeitas ao perigo.

Apesar de a considervel publicidade difundida sobre o risco que a madeira tratada com CCA poderia apresentar, a comunidade mdica americana, at o momento no encontrou qualquer relao direta entre a exposio ocasional ao CCA e alguma enfermidade. Foram realizados vrios estudos tentando-se correlacionar a incidncia de cncer na espcie humana e o contato com a madeira tratada e no se encontrou qualquer evidncia. Ainda que o arsnio seja venenoso em doses altas e muito concentradas, as quantidades presentes na madeira tratada com CCA so mil vezes menores que a dose mortal; para que uma pessoa sofra dos efeitos dos compostos presentes na madeira tratada teria que ingerir diariamente mais de uma colherada de madeira tratada com sais CCA e os efeitos seriam verificados somente a partir de uns trinta anos (veja http://www.ccaconference.org). Os outros dois elementos presentes no CCA, cobre e cromo, so relativamente menos txicos aos seres humanos.

o Brasil, no se conhecem restries para o uso da madeira tratada com os sais CCA, semelhantes s encontrados nos Estados Unidos e na Unio Europia.

conveniente salientar que a madeira preservada no solta produtos ou vapores txicos se for lavada ou aquecida, mas pode se tornar txica quando, inadvertidamente, for consumida por via direta ou indireta. Algumas recomendaes so importantes:

- No usar madeira tratada em nenhuma circunstncia onde partculas de madeira possam tornar-se componentes da comida ou rao animal, como tbuas de cortar carne, talheres de madeira, palitos, cochos para animais, tonis, revestimento interno de solos.

- No queimar a madeira tratada em churrasqueiras, lareiras, fornos de comida ou aquecedores residenciais. Quando queimada, a madeira tratada pode desprender produtos txicos na fumaa e nas cinzas. Nunca deixar que os tocos ou restos de madeira tratada sejam aproveitados naquele churrasquinho de final de semana ou de final de obra.

- Madeira tratada pode ser utilizada em ambientes internos de residncias desde que toda a serragem e fiapos de madeira sejam limpos aps o acabamento da pea.

- Evitar inalao freqente ou prolongada de poeira de madeira tratada. Usar mscaras quando lixar ou serrar as peas de madeira.

- Aps o trabalho com madeira tratada, sempre lavar bem as mos e o rosto quando comer, beber ou fumar.

Madeira Preservada no Brasil

Na Amrica Latina, os pases que mais utilizam a madeira tratada so o Brasil e Chile; destaca-se o Brasil como o maior consumidor de madeira tratada, com quase 700 mil metros cbicos, dos quais a grande maioria tratada com sais CCA.

Segundo estimativas, existiam mais de duzentas usinas de preservao funcionando no Brasil, em 2005. A produo anual de madeira tratada no Brasil foi de cerca de 685 mil metros cbicos, sendo que 62 % para a produo de moires, 30 % para postes, 5 % para dormentes e, apenas, 3 % para a construo civil. Tais valores so muito pequenos quando comparados com os Estados Unidos que estimam sua produo anual em 15 milhes de metros cbicos, concentrando mais de 70% da produo na construo civil. No Brasil, o setor de construo civil ainda no se despertou pra esta importante matria-prima, afetado pela falta de cultura na utilizao deste material e pela ausncia de normas tcnicas.

Num levantamento realizado recentemente sobre o setor de preservao de madeiras no Brasil, verificaram-se algumas tendncias:

- As regies Sul e, principalmente, a Sudeste so as que mais produzem madeira tratada (90,4%). O eucalipto foi a espcie mais utilizada no tratamento de madeiras (93,5%), seguido do pinus (6,5 %). O volume de madeira tratada mostrou que os moires representavam 62 % , seguidos dos postes com 30 %; dormentes, com 5% e peas serradas com 3 %.

- Nas usinas de preservao, o arseniato de cobre cromatado (CCA) representou 80 % do volume utilizado; o CCB (preservativo a base de cobre cromo e boro), o lindane e o tribromofenato de sdio, representaram apenas 15,0%; o leo creosoto, 5,0 % . O mtodo de tratamento mais utilizado foi o sob presso em autoclave (84 %); o restante da madeira foi tratada por imerso (pr-tratamento de madeiras recm-serradas) e por adio na cola (fabricao de painis de madeira).

- No caso de painis de madeira, o tratamento realizado a adio de inseticida na cola (resina), sendo utilizados os produtos preservantes, lindane, cipermetrina, deltametrina e ciflutrin. Estima-se que 25% do volume total de painis compensados produzidos recebam este tipo de tratamento.

Os produtos preservativos CCB (cromo, cobre e boro) e leo creosoto tambm so classificados como extremamente txicos (classe I). No existem muitas informaes sobre o CCB em relao aos aspectos ambientais e disposio de resduos na madeira tratada. No caso do leo creosoto, de modo geral, no recomendado o seu uso em residncias, peas para recreao e usos urbanos, mas permitido para usos industriais, como dormentes e postes.

De modo geral, a indstria de preservao considerada consciente sobre os aspectos de segurana e higiene dos trabalhadores e usurios, alm dos riscos ambientais de seus processos produtivos, considerados mnimos por se tratarem de processos fechados. Observam-se, no entanto, um rigor excessivo e uma severidade da legislao observada na maioria dos pases, alm de presses ambientais impostas indstria de madeira preservada. Tais fatores acarretam uma elevao dos custos, ameaando a competitividade do setor com produtos alternativos, como ferro, cimento, plstico, embora estes sejam muito mais restritivos dos pontos de vista estratgico e ambiental.

A tendncia mundial em preservantes de madeira a incessante busca de produtos que sejam eficientes na proteo da madeira, mas cuja emisso de elementos txicos para o meio ambiente seja minimizada. Atualmente, as pesquisas tm procurado sucedneos e alternativos para o arsnio e o cromo.

Em sntese, podem ser citados os produtos difusveis (boratos), os compostos base de cobre, como quaternrios de amnio (ACQ), possvel substituto do CCA, as isotiazolonas, os complexos amina-cobre, os produtos base de outros metais (Zn, Al e Zr) e sistemas livres de metais, como emulses de piretrides e isotiazolonas. No Brasil, observa-se, como tendncia, o uso de piretrides (cipermetrina, deltametrina e permetrina) e de triazol. Esto na fase de desenvolvimento e registro, os produtos difusveis (boro e flor), o ACQ e outras molculas inseticidas, como pirazol e nicotinide.

Vale ressaltar que, atualmente, no consta o princpio ativo heptacloro na lista de produtos devidamente registrados no IBAMA para tratamento de madeiras. Esta postura est em sintonia com uma tendncia mundial de reduo do uso de produtos organoclorados.

Legislao E Normalizao

A legislao atual pertinente preservao de madeiras est em sintonia com as leis internacionais, destacando-se a Portaria Interministerial n 292 de 28/04/89 e a Instruo Normativa n 5 de 20/10/92. A Portaria em questo exige que as firmas fornecedoras de produtos preservantes e as usinas de preservao de madeira sejam registradas no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e de Recursos Naturais Renovveis IBAMA, alm de regulamentar toda a produo de preservantes e a madeira preservada, evitando-se os possveis riscos ao meio ambiente e sade das pessoas. O IBAMA o rgo controlador e fiscalizador pelo cumprimento da Portaria e das atividades das indstrias e usinas.

Em 2002, o IBAMA e a Agncia Nacional de Vigilncia Sanitria - ANVISA, no uso das suas atribuies, criaram uma Instruo Normativa Conjunta que se destina a disciplinar as atividades que envolvam produtos qumicos preservativos de madeira, bem como a sua importao, produo, comercializao, utilizao e destinao final de suas embalagens uma nova sistemtica integrada para disciplinar os procedimentos a serem observados quando do cumprimento do estabelecido na Portaria Interministerial n 292, de 20 de outubro de 1989. Esta nova Instruo Normativa dever ainda ser implementada, envolvendo a participao da Associao Brasileira de Preservao de Madeira (ABPM) na leitura crtica e apresentao de sugestes para melhoria do setor. Vale ressaltar a obrigatoriedade de todas as empresas estatais, para-estatais ou privadas a utilizar peas ou estruturas de madeira preservadas quando usadas em contato direto com o solo ou sob condies que contribuam para a diminuio de sua vida til.

No Brasil, as normas disponveis sobre o assunto no contemplam o uso da madeira preservada na construo civil. As nicas normas do setor referem-se apenas produo de postes de eucalipto preservado, moires de eucalipto preservado, dormentes ferrovirios e carretis de madeira para fios e cordoalhas. Nos Estados Unidos, existem 46 normas envolvendo produtos preservantes, componentes de madeira e seus derivados para diferentes empregos na construo de edificaes, alm de procedimentos de inspeo e mtodos de ensaio.

Prof. Jos de Castro Silva

Departamento de Engenharia Florestal

Universidade Federal de Viosa - Minas Gerais

E.mail: jcastro@ufv.br.