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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°98 - AGOSTO DE 2006

Amaznia

A expanso madeireira na Amaznia

A explorao e o processamento industrial de madeira esto entre as principais atividades econmicas da Amaznia, ao lado da minerao industrial e da agropecuria. No ltimo ano o setor madeireiro extraiu 24,5 milhes de metros cbicos de madeira em tora, o equivalente a cerca de 6,2 milhes de rvores. Essa matria-prima gerou 10,4 milhes de metros cbicos de madeira processada (tbuas, produtos beneficiados, laminados, compensados e outros.). O processamento madeireiro ocorreu em 82 plos madeireiros situados principalmente no Par, Mato Grosso e Rondnia. Aps o processamento, a madeira amaznica foi destinada tanto para o mercado domstico (64%) como para o externo (36%). Em particular, as exportaes tiveram um incremento extremamente significativo, passando de US$ 381 milhes em 1998 para US$ 943 milhes em 2004.

No ltimo ano, os pesquisadores do Imazon entrevistaram 680 madeireiras (27% de todas as empresas em funcionamento) distribudas em 82 plos madeireiros em todos os Estados da Amaznia Legal (exceto Tocantins, que no possui plos). Levantamento similar havia sido feito pelo Imazon em 1998, com intensidade amostral de 44%. Esses dois levantamentos representam o mais abrangente e acurado diagnstico realizado sobre o setor madeireiro da Amaznia Legal.

Entre 1998 e 2004, o consumo de matria-prima ( madeira em tora) caiu de 28,3 milhes de metros cbicos em 1998 para 24,5 milhes de metros cbicos (margem de erro de 0,78 milho de metros cbicos) em 2004. Essa reduo de 3,8 milhes de metros cbicos de madeira em tora parece estar associada a trs causas principais. Primeiro, houve o acirramento da fiscalizao por parte do Ibama contra a explorao ilegal. Ao mesmo tempo, agravou-se a crise fundiria na Amaznia, o que levou ao cancelamento de centenas de planos de manejo a partir de 2003. Finalmente, houve a melhoria no rendimento industrial, ou seja, aumento da eficincia na converso de toras em madeira processada como madeira serrada, laminados, compensados e madeira beneficiada

Mesmo com essa queda, a Amaznia Legal ainda o segundo maior produtor de madeira tropical do mundo. Fica atrs apenas da Indonsia, cujo consumo anual de madeira em tora tem superado os 3 milhes de metros cbicos. Os outros pases da bacia amaznica (Bolvia, Peru, Colmbia, Equador, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e Suriname) produzem conjuntamente 13 milhes de metros cbicos em tora.

Rendimento

A produo de madeira processada praticamente permaneceu estvel. Em 1998, foram gerados 10,8milhes de metros cbicos de madeira processada,enquanto em 2004 houve uma ligeira queda para 10,4milhes de metros cbicos.Houve uma melhoria na eficincia do processamento da madeira. Em 1998, o rendimento mdiodas madeireiras era de apenas 38%, enquanto em 2004 atingia 42%. Esse incremento no rendimento gerou uma economia significativa de matria-prima. De fato, em 2004, foram poupados 3,8 milhes de metros cbicos de madeira em tora (equivalente a 950 mil rvores).

O nmero de empregos gerados (diretos e indiretos) aumentou de 353 mil empregos em 1998 para 379 mil empregos em 2004. Estimamos que atualmente pelo menos 5% da populao economicamente ativa da Amaznia Legal trabalha direta ou indiretamente com a atividade madeireira.

Expanso Geogrfica

Houve migrao da atividade madeireira em direo ao oeste do Par, sudeste do Amazonas e extremo noroeste do Mato Grosso. Em conseqncia, o nmero de plos madeireiros subiu de 72 (em 1998) para 82 (em 2004). O nmero de empresas tambm cresceu de 2.570 (em 1998) para 3.132 (em 2004). A grande maioria dessas empresas (> 80%) eram serrarias, e o restante era formado por laminadoras e fbricas de compensados. A proliferao de empresas ocorreu principalmente nos plos madeireiros mais recentes (< 10 anos) como Novo Progresso e Castelo de Sonhos (oeste do Par) e Colniza e Aripuan (noroeste do Mato Grosso)

O Par o principal Estado produtor de madeira amaznica, representando 45% do total produzido. O Par tambm concentra 51% das empresas madeireiras e gera 48% dos empregos da indstria madeireira da Amaznia. Em seguida, aparece o Mato Grosso com 33% da produo, enquanto Rondnia ocupa o terceiro lugar, com 15%. O restante (7%) est distribudo entre os outros Estados. Apesar de sua imensido territorial (1,6 milho de quilmetros quadrados, o equivalente a 18% do Brasil), o Estado do Amazonas contribui com apenas 2% da produo regional.

A industrializao de madeira ocorre ao longo dos principais eixos de transporte da Amaznia. De 1998 a 2004, houve um deslocamento da produo madeireira do leste para o oeste do Par e do centro-norte para o noroeste do Mato Grosso. Em 2004, as madeireiras situadas ao longo da BR-163 (Santarm-Cuiab) eram responsveis por 28% da madeira produzida na Amaznia. A BR 364 (Cuiab-Porto Velho-Rio Branco) representava 16% da produo, enquanto as indstrias localizadas na calha do rio Amazonas (Manaus-Esturio) produziam 14% da madeira processada na regio. Os eixos rodovirios do leste do Estado do Par (PA-150 e BR-010) representavam 12% da produo cada um. A Rodovia Transamaznica (que se estende de Marab, no Par, at Humait no Amazonas) contribua com apenas 5% da madeira processada. O restante (13%) estava disperso no noroeste do Mato Grosso, sul de Rondnia e em Roraima.

Mercado

Houve uma profunda mudana no mercado de madeira processada. Em 1998, apenas 14% do volume total produzido era exportado. Em 2004, essa proporo atingia 36%. Dois fatores contriburam para essa mudana: o cmbio favorvel e o aumento da demanda por madeira amaznica no mercado europeu, norte-americano e tambm asitico. O mercado nacional absorveu 64% da madeira processada na Amaznia. O Estado de So Paulo ainda tem grande destaque no uso de madeira amaznica, consumindo 15% (em 1998, eram 20%). Os outros Estados do Sul e Sudeste do pas consumiram conjuntamente 27%. O Nordeste utilizou apenas 7%, enquanto o Centro-Oeste consumiu 4% da madeira. O restante (11%) foi consumido na prpria Amaznia Legal.

Segundo dados do Ministrio do Desenvolvimento, Indstria e Comrcio Exterior (MDIC), houve um drstico aumento no valor das exportaes de madeira da Amaznia. Em 1998, as exportaes de produtos madeireiros da Amaznia somavam US$ 381 milhes.J em 2004, esse montante atingia US$ 943 milhes.

O setor madeireiro da Amaznia paradoxal. Por um lado, economicamente competitivo e um importante gerador de oportunidades de emprego e renda para uma parcela significativa da populao da Amaznia. Por outro, o carter migratrio da indstria madeireira e o baixo ndice de adoo de manejo florestal revelam alguns dos graves problemas do setor madeireiro. Dessa forma, as principais sugestes para polticas pblicas so:

Ordenamento Territorial. Para deter o carter migratrio da indstria madeireira, essencial a definio das regies nas quais a explorao pode ocorrer, de acordo com o Zoneamento Ecolgico- Econmico. Nessas reas, deve-se priorizar a regularizao fundiria e a criao de Florestas Nacionais ou Estaduais Unidades de Conservao de Uso Sustentvel para assegurar uma oferta legal e manejada de produtos florestais.

Apoio Eficincia da Indstria. A melhoria no rendimento de processamento industrial pode reduzir de forma significativa o consumo de matria-prima e, portanto, a presso sobre a floresta. Por exemplo, se o rendimento do processamento subisse hoje em 3% (de 42% para 45%), haveria uma economia de 1,6 milho de metros cbicos de madeira em tora, o que significaria poupar 108 mil hectares de florestas.

Dessa forma, recomendamos a adoo de instrumentos econmicos, tal como a reduo de impostos para a aquisio de maquinrio destinado a melhorar o rendimento.

Incentivo Agregao de Valor. A maioria da produo da Amaznia (63%) so produtos de baixo valor agregado , comercializados apenas como madeira serrada, principalmente para a construo civil. Por isso, so necessrios instrumentos econmicos para incentivar o aumento da renda da produo madeireira como, por exemplo, a diminuio das taxas de importao de maquinrios que agregam maior valor produo. Paralelamente, so necessrios investimentos em treinamento de pessoal tcnico especializado para operar esse maquinrio.

De acordo com o Imazon, para cada emprego direto criado pelo setor madeireiro, 1,8 emprego indireto gerado. Considerando uma intensidade de explorao de 15 metros cbicos por hectare.

J existem algumas iniciativas importantes neste sentido. No caso do Estado do Par, o Decreto 4.676/2001 isenta as empresas madeireiras de pagar ICMS durante a importao de maquinrios sem similares na indstria nacional. Existem no mbito federal algumas portarias do MDIC que tambm desoneraram algumas taxas de importao de mquinas para a indstria madeireira.

Fonte: Marco Lentini*, Adalberto Verssimo & Denys Pereira, IMAZON.