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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°93 - NOVEMBRO DE 2005

Pragas

Nova praga ataca Pinus na Regio Sul

O Brasil possui cerca de 2 milhes de hectares reflorestados com espcies de Pinus, sendo que nas regies Sul e Sudeste concentram-se 1,2 milho de hectares, basicamente com as espcies P. taeda e P. elliottii. Plantios puros, manejo florestal inadequado, ausncia de inimigos naturais especficos, abundncia e densidade contnua de hospedeiro, entre outros, proporcionam as condies ideais para a colonizao, estabelecimento e disperso de pragas. Exemplos recentes disso, so os pulges-gigantes-do-pnus do gnero Cinara, do Adelgidae Pineus boerneri nas regies Sul e Sudeste do Brasil e a deteco de Pissodes castaneus (De Geer) (Coleoptera: Curculionidae) na regio Sul.

A deteco de P. castaneus, o gorgulho-do-pnus, cujas larvas broqueiam os ponteiros de Pinus spp. Foi registrada em junho de 2001, no municpio de So Jos dos Ausentes-RS; no final de 2001, em Pinho-PR; no incio de 2002, em Curitibanos- SC; e em agosto de 2002 em So JoaquimSC e Cambar do Sul-RS. Estas deteces foram realizadas em plantios de P. taeda, com idades variando entre 2 a 6 anos. Atualmente, o gorgulho-do-pnus, encontra-se disperso em vrios municpios em toda a regio Sul.

A introduo desse inseto representa mais uma ameaa produo florestal brasileira, visto que ele tem potencial para causar perdas econmicas aos povoamentos de pinus no pas, fazendo-se necessrio criar mecanismos de resistncia a esse inseto, assim como o desenvolvimento de um programa de Manejo Integrado de Pragas.

Na regio de origem esta praga tem um ciclo biolgico complexo, sendo que os adultos so bastante longevos, alguns sobrevivem at 20 meses. A oviposio, que realizada sob a casca, logo abaixo das brotaes apicais do ramo terminal (ramo de um ano), normalmente ocorre em dois perodos distintos. O primeiro entre meados da primavera ao incio do vero (entre maio e meados de julho, no Hemisfrio Norte) e o segundo, do final do vero ao incio do outono (final de agosto at outubro, no Hemisfrio Norte) (MINISTRIO, 1981). As fmeas ovipositam em cavidades no tronco e nos ramos de rvores jovens, logo abaixo da casca. So depositados de 2 a 3 ovos em cada cavidade e uma fmea capaz de colocar de 250 a 800 ovos . De acordo com a literatura, o perodo larval dura cerca de dois meses, na Frana e Espanha.

Aps o quarto instar, no meio do vero, as larvas constroem uma cmara pupal oval, na parte final da galeria, logo abaixo da casca. A pupao ocorre dentro de um puprio constitudo de fibras de madeira mais grossas e excrementos do inseto. Dependendo do clima de cada local, durante o inverno, uma parte das larvas pode permanecer hibernando no ramo atacado, ou ento hibernam no estgio adulto, escondidos no solo ou entre as ranhuras da casca.

No Sul da Europa, o ciclo biolgico da praga, geralmente apresenta dois perodos de postura por ano. Carle (1973) afirma que se as condies de temperatura forem superiores a 8 C e inferiores a 32 C podem ocorrer de uma at trs geraes anuais. Em climas mais frios, ocorre uma gerao a cada dois anos . No caso da ocorrncia de duas geraes anuais, a postura realizada no outono, dar origem aos adultos no final da primavera. As primeiras posturas realizadas na primavera, produzem adultos no outono, que podem reproduzir-se antes de um perodo de hibernao no inverno .

Estes besouros atacam o broto terminal (gema apical) de rvores do gnero Pinus, preferindo rvores mais vigorosas com ponteiros longos, porm sob condio de estresse. O inseto mata os brotos em anos anteriores, resultando em perdas de crescimento tambm no ano corrente. Os ramos laterais tornam-se dominantes e ataques repetidos resultam em multifurcao ou envasssoramento e perda de crescimento em altura. Normalmente, as rvores so atacadas somente se um novo ponteiro formado; contudo a repetio do ataque abaixo do ponteiro morto, ocorre ocasionalmente. Mais de 50 % das rvores de um talho podem ser atacadas em um ano .

Na primavera, plantas de Picea spp., atacadas por P. strobi, apresentavam perto dos ponteiros do ano anterior, pequenos ramos amarelados, acompanhados por respingos de resina, indicando novos ataques. Esses ponteiros atacados (infestados), por volta do meio do vero, apresentam sintomas de murcha e clorose progressiva das acculas, mudando de colorao para o amarelo, vermelho e marrom; alm de um pequeno entortamento que se assemelha ao formato de um cajado. Os ponteiros mostram a evidncia de galerias do inseto, cmaras pupais e orifcios de emergncia feitas pelos novos adultos. Os sintomas so mais visveis no outono e alguns ponteiros infestados quebram e caem no inverno. Pode ocorrer tambm, bifurcao ou envassoramento com mltiplos ponteiros e rvores arbustivas.

Nas condies brasileiras no se conhece a bioecologia do inseto, para dar sustentao a um programa de Manejo Integrado de Pragas (MIP), sendo necessrio o desenvolvimento de pesquisas sobre a dinmica populacional do inseto e de seus inimigos naturais, a fim de se definir as estratgias de monitoramento e controle.

OCORRNCIA NO BRASIL

A primeira constatao de Pissodes castaneus, foi no municpio de So Jos dos Ausentes, no Rio Grande do Sul, em julho de 2001, em um plantio de Pinus taeda de 87 ha, com densidade inicial de 2500 plantas, realizado em maro de 1999, cujo solo apresentava afloramento de rocha. Em um levantamento realizado na rea tomando-se quatro amostras de 100 plantas, obteve-se um ndice de ataque de 3%.

Em Cambar do Sul, verificou-se o ataque de P castaneus em um plantio de P. taeda, com seis anos de idade, em agosto de 2002. O plantio estava localizado em uma encosta, prximo a uma fbrica de celulose, portanto exposta a poluio cida, originria de gases do processo industrial. Alm disso, foi intensamente atacado por pulges-gigantes-do-pnus das espcies Cinara atlantica e C. pinivora, quando estava com cerca de dois anos de idade. As plantas estavam com um DAP mdio de 11,10 cm e DAP das rvores dominantes era de 18,75 cm; cerca de 7,6 % das plantas estavam atacadas (106 plantas/ha), que apresentavam um DAP mdio de 10,20 cm. No ano seguinte, em setembro de 2003, somente 0,64 % das plantas estavam atacadas (9 plantas/ha), com um DAP mdio de 11,75 cm, enquanto que o DAP mdio do plantio era de 12,16 cm. A diminuio no ndice de ataque deveu-se a destruio das plantas atacadas no ano anterior e tambm, pela instalao de armadilhas. Essas consistiam em grupos de 16 toretes, que foram empilhados a cada 15 a 20 ha de plantio. Os toretes com dimenses de 2 m de comprimento e 5 a 10 cm de dimetro foram provenientes de rvores recm cortadas. As armadilhas foram instaladas em talhes onde havia ataque do gorgulho-do-pnus.

Em Santa Catarina, foi constatada a presena do inseto em So Joaquim, em agosto de 2002, tambm sobre P. taeda, com quatro anos de idade (plantio de 1998) e em Brunpolis, em outubro de 2002. Nesse local havia uma rea reflorestada de 200 ha, sendo que o ataque era mais intenso em 20 ha. O plantio era de 1999, tendo sido podado em julho de 2002, com trs anos de idade. Provavelmente a poda tenha tornado as rvores susceptveis ao ataque do inseto. Em duas parcelas fixas de 400 m2, observou-se um ndice mdio de ataque de 16,53%.

Verificou-se que o inseto ataca preferencialmente plantios jovens de pnus, rvores em processo de decrepitude, em funo de fatores biticos como o ataque dos pulgesgigantes-do-pnus, Sirex noctilio, ou fatores abiticos como stios inadequados, solos rasos e de baixa fertilidade, seca prolongada, ou mesmo solos encharcados, assim como em rvores que, dependendo da intensidade de poda, podem tornar-se predispostas ao ataque. De modo geral, pode-se afirmar que qualquer fator que provoque a debilidade (estresse) das plantas, favorece o ataque desse inseto. Algumas intervenes silviculturais como a poda e os desbastes, se no forem seguidos de destruio dos resduos, contribuem para a apario e incremento populacional da praga, que ir atacar posteriormente as rvores em p.

O principal dano realizado pelas larvas que se alimentam na regio do cmbio e da casca, onde forma uma galeria, preenchida com excrementos e fibras finas de madeira. As rvores atacadas apresentam um sintoma caracterstico na copa, que fica marrom avermelhada na parte superior e tambm puncturas na casca, resultantes da oviposio ou da alimentao. Geralmente, o ataque de P. castaneus causa a morte da rvore. Para se ter certeza que trata-se de um ataque do gorgulho-do-pnus, deve-se retirar a casca das rvores com o sintoma de amarelecimento de copa e verificar se tem gotculas de resina e pequenas perfuraes de alimentao e de postura nos ramos ou no caule, alm de galerias, larvas e pupas.

Em todos os locais foi constatada a presena de larvas, pupas e adultos da praga. Durante a fase de surto, a proporo de ataque variou de ano para ano, devido aos efeitos do clima, de inimigos naturais e outros fatores. Por esta razo deve-se avaliar os danos do inseto em diferentes sistemas de manejo florestal, submetidos a diferentes tratos silviculturais.

DESCRIO DO INSETO

Ovo:
colorao branco prola (brilhante), liso, oblongo e arredondado em ambas as extremidades, medindo de 0,5 a 1 mm de dimetro. A medida que vai se completando a incubao torna-se amarelado.

Larva: colorao branco amarelada, de forma cilndrica, ligeiramente curvada (forma de c) e poda, com a cabea castanho claro, com cerca de 10 mm quando completamente desenvolvida (Figura 1).

Pupa: de tamanho semelhante ao adulto, colorao branco brilhante no incio, tornando-se escurecida medida que vai maturando, com asas e pernas bem desenvolvidas; na cabea aparece uma tromba proeminente (Figura 2).

Adulto: possui de 6 a 9 mm de comprimento, sendo um curculeondeo tpico, com uma longa tromba curvada e antenas geniculadas. No extremo distal da tromba, aparecem as pequenas mas fortes mandbulas. Corpo cilndrico, de colorao parda. Os litros apresentam quatro manchas transversais, formadas por escamas amareladas (Figura 3).

MANEJO DE PRAGAS

A meta do manejo integrado de pragas a reduo de danos em vez de eliminar o inseto, utilizando-se diversos mtodos combinados. Cada mtodo propicia apenas um controle parcial, contudo a interao dos mtodos resultar em um controle satisfatrio. A utilizao de diferentes tticas de MIP, dependem de quais so os objetivos de manejo da plantao existente, ou do desenvolvimento e manejo de novas plantaes, visando reduzir a susceptibilidade das rvores ao ataque e reduzir dano.

Desta forma, para resolver problemas de pragas deve-se conhecer todos os fatores que agem no ecossistema, a fim de que sejam utilizados, racionalmente, todos os meios disponveis para resolv-los, minimizando impactos ambientais indesejveis.

A execuo de um Programa de Manejo Integrado de Pragas requer, inicialmente, o conhecimento da bioecologia da praga, para o desenvolvimento de um sistema de monitoramento adequado, visando a deteco precoce dos surtos, sua distribuio geogrfica, assim como para a avaliao da densidade populacional da praga e da efetividade das medidas de controle. De modo geral, um sistema de monitoramento um processo de avaliao de variveis necessrias para o desenvolvimento e uso de prognsticos para predio de surtos de pragas e tomada de deciso para seu controle.

O conhecimento das relaes da praga com seu hospedeiro e seus inimigos naturais tambm, essencial para se traar as estratgias de controle. Num Programa de Manejo Integrado de Pragas, todos os mtodos de controle tm seu espao e importncia, entretanto quando trata-se de plantios florestais, o uso de agrotxicos apresenta srias restries, devendo ser usado apenas como ltimo recurso. Por outro lado, o controle biolgico natural e o aplicado, assim como os mtodos fsicos, silviculturais, mecnicos e os biotcnicos so os que apresentam grande potencial de uso e de integrao.

CONTROLE BIOLGICO

As possibilidades de controle biolgico clssico geralmente so maiores para as pragas exticas do que para as nativas. Por razes biolgicas e econmicas, as pragas que mantm populaes razoavelmente altas de forma constante, so as melhores para serem submetidas ao controle biolgico, do que quelas que so escassas por um determinado perodo e repentinamente ocorrem em surtos.

Para P. castaneus, na regio de origem, so citados sete espcies de parasitides da ordem Hymenoptera, sendo duas da famlia Calcididae, trs de Ichneumonidae e dois Braconidae, alm de uma ave, o pica-pau, como inimigos naturais importantes .

Estratgicamente, dever ser implantado um programa de controle biolgico no Brasil, selecionando-se inimigos especficos importantes da rea da origem do hospedeiro, introduzindo-se essas espcies em reas onde a praga no est controlada.

CONTROLE QUMICO

O controle qumico, mesmo sendo efetivo a curto prazo, no deve ser considerado como uma medida de controle sustentvel, visto o elevado custo dessa medida a longo prazo. Alm disso, surgem problemas associados com a contaminao ambiental, a segurana dos aplicadores e a resistncia e a ressurgncia de pragas. O controle qumico tambm desfavorvel para se fazer um programa de controle biolgico a longo prazo .

O inseto vulnervel a uma srie de produtos qumicos, porm h tambm dificuldades para a realizao dos tratamentos, visto que durante o inverno, ou durante alguns perodos no vero, quando as temperaturas so muito altas, os adultos buscam proteo contra essas condies adversas, entrando em estivao, no solo ou entre as ranhuras da casca .

Na regio de origem so realizadas esporadicamente aplicaes areas com fenitrotion, o que no dever acontecer no Brasil, pelo menos a curto e mdio prazo.

CONTROLE SILVICULTURAL

Algumas medidas silviculturais simples podem reduzir os problemas causados pelas pragas, envolvendo fatores ecolgicos bsicos. Por exemplo, o abeto quando jovem, proveniente de regenerao natural, aparentemente sofre menos danos de Adelges normannianae, do que em plantios. Normalmente estes exemplos esto associados ao estresse hdrico, que desregula os aminocidos, favorecendo a atrao e o desenvolvimento dos insetos. A disponibilidade de gua um, entre os vrios componentes do ambiente, que pode ser modificado por um stio particular. A seleo cuidadosa do stio poder evitar problemas com esta praga. Desta forma, como os insetos acompanham, direta ou indiretamente as respostas das plantas aos fatores climticos e microclimticos, necessrio entender quais os componentes que operam nos locais de origem destes insetos, para introduz-los em um programa de manejo de pragas.

Acredita-se que o grau de resistncia ou suscetibilidade da praga varia em funo da espcie e da idade das rvores. Desta forma, o manejo adequado desses fatores poderia minimizar os riscos de uma disperso rpida da praga.

O controle da praga, tanto preventivo como curativo, mais eficaz quando se dispe de um sistema efetivo de monitoramento para realizar a deteco do inseto de forma precoce. Isso poder ser realizado com o uso de armadilhas (rvore recm cortada, deixada no talho, para atrair o inseto) que deve ser retirada do plantio para ser queimada ou destruda antes da emergncia de novos adultos.

RECOMENDAES

Deve-se eliminar, de forma precoce, as primeiras rvores atacadas pelo inseto, observando-se os sintomas de clorose progressiva, assim como as rvores j mortas. No Brasil, as observaes preliminares sugerem que isso esteja ocorrendo entre os meses de setembro e outubro, devendo-se eliminar as rvores com sintomas de ataque antes da segunda quinzena de novembro. Esses dados devero ser confirmados com as pesquisas que esto sendo desenvolvidas pela Embrapa Florestas.

As armadilhas devero ser instaladas nos perodos de maior incidncia de posturas, que preliminarmente, devem ocorrer entre dezembro e janeiro e entre maro e abril, na regio Sul do Brasil. Elas devem ser monitoradas mensalmente e comprovando-se o ataque devem ser retiradas e destrudas, antes da emergncia de novos adultos.

As armadilhas devem ficar em locais de fcil acesso, se possvel protegidas do sol e devem ser instaladas apenas nos plantios onde a praga esteja presente.

Os restos de podas e desbastes devem ser recolhidos e destrudos pelo fogo ou com picadores, para evitar a proliferao dos inseto.

Em infestaes severas, os ponteiros podem ser podados para remover as larvas e corrigir a forma do caule, contudo somente esta poda de correo no suficiente para controlar a infestao.

Em novas plantaes, deve-se analisar previamente o risco de ataque, visando o planejamento de tticas de manejo.

Edson Tadeu Iede

Wilson Reis Filho

Susete do Rocio Chiarello Penteado