MENU
Bioenergia
Construo Civil
Crdito de Carbono
Editorial
Espcies
Esquadrias
Lminas
Madeiras Tropicais
Manejo
Melhoramento
Mveis & Tecnologia
Organizao
Pragas
Treinamento
E mais...
Anunciantes
 
 
 

REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°93 - NOVEMBRO DE 2005

Bioenergia

Biodiesel e Biomassa: duas fontes para o Brasil

No decorrer das prximas dcadas, dois fenmenos tero um efeito decisivo sobre o bem-estar e o modo de vida das pessoas. Ambos se desenvolvem em rede e ambos esto ligados a uma tecnologia radicalmente nova. O primeiro fenmeno a consolidao do capitalismo global e, o segundo, a estruturao de comunidades sustentveis baseadas na implantao prtica de um plano de ao ambiental definido na Agenda 21.

Enquanto o capitalismo global est composto por redes eletrnicas de fluxos de finanas e de informaes, o projeto ecolgico trabalha com redes ecolgicas de fluxos de energia e de matrias-prima. A meta de economia global, em sua forma atual, a de elevar ao mximo a riqueza e o poder de suas elites; a do projeto ecolgico a de elevar ao mximo a sustentabilidade da teia da vida.

A abundncia das energias renovveis em todas as partes do mundo cria novas perspectivas para os pases pobres e de sustentabilidade para os pases ricos. No Brasil, 60% da energia gerada hoje provm de fontes renovveis, enquanto que outros pases pretendem chegar a 12% somente em 2010. Atualmente, 85% da energia que movimenta o mundo de origem fssil e 80% dessa energia tem seu uso concentrado em cerca de 10 pases. A contribuio do Brasil na emisso de gs carbnico para a atmosfera de 0,41%, enquanto que a dos Estados Unidos, China, Alemanha, Rssia e Japo, soma 65%.

A reduo das tenses que o aproveitamento de energias renovveis poder representar , sem dvida, uma razo contundente para alcanar a paz no mundo e gerar a sustentabilidade ecolgica com justia social. Os combustveis de origem vegetal dos trpicos representam o contraponto ao estopim de conflitos provocados pelo ocaso do petrleo e pelo declnio das demais fontes fsseis. No Sculo 21, caber ao Brasil, em termos mundiais, desempenhar um importante papel; trata-se de uma grande oportunidade econmica que jamais pas algum teve na histria do mundo globalizado.

A perspectiva de o Brasil se consolidar como o principal supridor mundial de combustveis renovveis de elevado contedo energtico, vivel graas sua dimenso continental localizada numa rea tropical, e por possuir abundantes recursos hdricos (22 a 24% da gua doce do planeta), alm de imensas reas desocupadas.

O que se busca hoje estabelecer um pacto entre as naes pela integrao energtica, a partir da produo e do uso de combustveis renovveis.

Nesse universo, o biodiesel surge como uma alternativa de diminuio da dependncia dos derivados de petrleo e como um novo mercado para as oleaginosas, com perspectiva de reduo da emisso de poluentes. A introduo do biodiesel no mercado representar uma nova dinmica para a agroindstria, com seu conseqente efeito multiplicador em outros segmentos da economia, envolvendo leos vegetais, lcool, leo diesel e mais os insumos e subprodutos da produo do ster vegetal.

A viabilizao do biodiesel requer, porm, a implementao de uma estrutura organizada para produo e distribuio de forma a atingir, com competitividade, os mercados potenciais. A introduo do biodiesel demanda, portanto, investimentos ao longo da cadeia produtiva para garantir a oferta do produto com qualidade, alm da perspectiva de retorno do capital empregado no desenvolvimento tecnolgico e na sustentabilidade do abastecimento em longo prazo.

A produo agrcola de leos vegetais e de cana-de-acar mais do que uma alternativa energtica; constitui a base para um modelo de desenvolvimento tecnolgico e industrial autnomo e auto-sustentado, baseado em dados concretos da realidade nacional e na integrao do homem a uma realidade econmica em harmonia com o meio ambiente.

O Brasil, que ocupa a posio de segundo produtor e exportador mundial de leo de soja, poder se tornar, gradativamente, um importante produtor e consumidor de biodiesel, acrescida da oportunidade de se utilizar aqui outros leos vegetais caractersticos das diferentes regies do Pas e, tambm, da possibilidade de reduzir a dependncia da importao de leo diesel, desonerando o balano de pagamentos e criando riqueza no interior.

Fazendo um parntesis, oportuno lembrar aqui que Rudolf Diesel, inventor do motor que leva seu nome, em certa ocasio afirmou de forma premonitria que o motor a Diesel pode ser alimentado com leos vegetais e pode ajudar no desenvolvimento dos pases que o utilizem.

No Brasil, desde a dcada de 1920, o Instituto Nacional de Tecnologia - INT j estudava e testava combustveis alternativos e renovveis, como, por exemplo, o lcool de cana-de-acar. Mais recentemente, motivados pelas demandas da II Guerra Mundial e das crises de petrleo, os Governos de diferentes pases, em parceria com a iniciativa privada e centros de pesquisa, desenvolveram e testaram biocombustveis em frotas municipais, especialmente em grandes centros urbanos.

A dcada de 90 se caracterizou pela produo comercial e instalao de plantas em escala industrial, visando atender a preocupao ambiental e o estimulo proporcionado pela competitividade de preos do petrleo e dos leos vegetais.

Desde 1991, o Ministrio da Cincia e Tecnologia - MCT coordena projetos de desenvolvimento tecnolgico para combustveis renovveis, como, por exemplo, a biomassa de madeira, de cana-de-acar e de folhas, inclusive contando como o apoio do GEF-Global Environment Facility-Banco Mundial e, mais recentemente, da Unio Europia. As misturas combustveis lcool e diesel e lcool e gasolina esto em permanente desenvolvimento.

No ano 2000, foi instalada a fbrica de biocombustveis da ECOMAT no Estado do Mato Grosso que atualmente produz ster de soja, um aditivo especial da mistura lcool diesel. A ECOMAT foi concebida visando a produo inicial de biodiesel de leo de soja e pode ser otimizada para produo de biodiesel a partir de outros leos vegetais.

Em 2003, a disponibilidade brasileira imediata de biodiesel a partir de soja se concentra na perspectiva do diferencial entre a capacidade nominal de produo da ordem de 51 milhes de toneladas, para uma capacidade de processamento de 36 milhes de toneladas, com a correspondente produo de leo de soja da ordem de 5 bilhes de litros e a capacidade de produo de biodiesel que da ordem de 1,5 bilho de litros, sendo 47% no Centro-Oeste e 40% na Regio Sul.

A produo de oleaginosas poder expandir significativamente para atender o aumento da demanda por leo para a produo de biodiesel, destacando-se o potencial de 70 milhes de hectares com aptido para o cultivo do dend, localizados principalmente na regio Amaznica e no Leste do Estado da Bahia. O Brasil tem apenas 50 mil hectares plantados com dend.

Na Amaznia, estima-se que existam cerca de 20 milhes de hectares desmatados sem atividade econmica. O dend a cultura em grande escala mais apropriada para esta regio, podendo ser complementada com as culturas de ciclo curto que no precisam ser desidratadas antes da colheita: banana, mandioca, batata doce, inhame, car, arroz e feijes tropicais.

O Estado do Par tem 2 milhes de hectares de terras improdutivas com clima e solo apropriado para o dend, com toda a infra-estrutura, inclusive porto e energia eltrica a uma distncia mxima de 200 km de Belm (rea de influncia do projeto Ala Viria). O Estado do Amazonas tem 400 mil hectares de terras improdutivas com clima, solo e infra-estrutura adequada na periferia de Manaus (Distrito Agropecurio da SUFRAMA).

O Estado do Amap tem 200 mil hectares de terras de assentamentos do INCRA, prximos a Macap, apropriados para a produo de dend.

O mercado internacional de leo de dend cresce a um ritmo de 7% ao ano na indstria alimentcia e oleoqumica. A produo do ano 2000 foi de 21 milhes de toneladas e est projetada para 32 milhes de toneladas para o ano 2010. O Brasil, aps 35 anos de pesquisa e plantio, tem tecnologia apropriada para aumentar a rea plantada desta cultura perene, com produtividade de at 6 toneladas de leo por hectare/ano, ocupando o segundo lugar.

As curvas do preo do leo de dend e de soja decrescem taxa de 3% ao ano, em dlares deflacionados (mdia dos ltimos 20 anos), enquanto que as curvas de preo do leo diesel crescente, em funo da escassez de combustveis fsseis, no havendo previso de inverso da tendncia.

O consumo anual de diesel no Brasil da ordem de 36 bilhes de litros, sendo 20% importado. A regio Sudeste consome 44%, a regio Sul 20%, o Nordeste 15%, o Centro-Oeste 12% e a regio Norte 9%. O diesel se utiliza preferencialmente para transporte 80% e 20% para sistemas eltricos isolados, agroindstria e usinas emergenciais de eletricidade (1000 MW instalados). A produo nacional de biodiesel em adio ao diesel comum pode melhorar a qualidade do diesel e, tambm, pode contribuir na reduo da atual dependncia de importao de leo diesel, que da ordem de 7 bilhes de litros ao ano, desonerando a balana de pagamentos e criando riqueza no interior.

Em cada Estado e regio do Pas est sendo avaliado o desenvolvimento das cadeias produtivas dos diferentes leos vegetais. Para a regio Norte: dend, babau, soja e gordura animal; para o Nordeste: babau, soja, mamona, dend, algodo, coco, gordura animal e leo de peixe; para o Centro-Oeste: soja, mamona, algodo, girassol, dend, gordura animal; para o Sul: soja, colza, girassol, algodo, gordura animal e leos de peixes; e, para o Sudeste: soja, mamona, algodo, girassol, gordura animal e leos de peixes.

A competitividade da produo nacional de etanol em diferentes regies do Brasil, o PROALCOOL, a infra-estrutura de produo e distribuio j existente, o know how e o desempenho das tecnologias desenvolvidas para a cadeia produtiva da cana e setor automotivo, a oportunidade de substituir o diesel importado e contribuir para a economia de divisas, a gerao de renda, so todos eles elementos de sinergia para a produo de biodiesel nacional.

A perspectiva de melhorar a qualidade do diesel consumido, os excedentes de produo de leo de soja, as vantagens econmicas e scio-ambientais decorrentes da produo e do consumo de combustvel renovvel, a segurana para proviso de combustvel produzido diretamente nas diferentes regies do Brasil, as novas e alteradas polticas agrcolas internacionais, o fortalecimento da indstria nacional de biocombustveis, quer seja para transporte pesado e de massa ou para gerao de eletricidade, especialmente em sistemas isolados, motivam a priorizao do Programa Nacional de biodiesel.

Biocombustveis

O Programa Brasileiro de Biocombustveis, coordenado pelo Ministrio da Cincia e Tecnologia/Secretaria de Poltica Tecnolgica Empresarial tem como principal agente executor o Centro de Referncia em Biocombustveis - CERBIO. O PROBIODIESEL compreende aes de viabilizao das tecnologias de adio do etanol e de leos vegetais ao leo diesel derivado de petrleo.

O PROBIODIESEL se concretiza atravs da ao integrada, em rede de pesquisas, para o desenvolvimento das tecnologias de produo e uso de misturas biocombustveis, visa a avaliao da sua viabilidade e competitividade tcnica, scio-ambiental e econmica para o mercado brasileiro e para exportao futura, alm de sua produo e distribuio espacial nas diferentes regies do Pas.

Compreende aes de pesquisa e desenvolvimento tecnolgico, incluindo testes em campo, nas adies leos vegetais/leo diesel (BX), alm de tecnologias especficas que viabilizem o desenvolvimento scio-econmico de assentamentos rurais pela produo de eletricidade e combustveis (PROBIOAMAZON). Os recursos previstos para aplicao na implementao do PROBIODIESEL so da ordem de R$ 8,4 milhes.

O Programa Brasileiro de Biocombustveis - PROBIODIESEL o resultado da interao e parceria para o desenvolvimento oriundos da Rede Nacional de Biocombustveis, que congrega mais de 200 especialistas, representantes de entidades de pesquisa, associaes empresariais, agncias reguladoras e de fomento, Governos Federal, Estadual e Municipal e da Comisso de Minas e Energia da Cmara dos Deputados.

No Programa Brasileiro de Biocombustveis destacam-se as entidades com responsabilidades diretas de coordenao das atividades do Programa: INT, TECPAR, LACTEC, IPT, CENPES, UNICAMP, USP, UESC, UFPR, UFCE, UFRJ, COPPE, UFRGS, IME, CTA, ANFAVEA, ABIOVE, SINDIPEAS - BOSCH e DELPHI, AEA, SINDICOM, ALCOPAR, SINDALCOOL, UNICA, ANP, PETROBRAS, IBAMA, FGV.

Um dos grandes desafios do PROBIODIESEL o de constituir um projeto ecolgico brasileiro; trata-se de um esforo coordenado de remodelao das cidades, das tecnologias, das indstrias e das estruturas fsicas a fim de torn-las ecologicamente sustentveis; isto quer dizer em outras palavras, capaz de atender s necessidades e satisfazer s aspiraes da populao sem diminuir as oportunidades das geraes futuras.

Por sua vez, o Programa de Produo de Biomassa Energtica em Assentamentos do INCRA na Amaznia em Micro e Pequenas Propriedades Rurais - PROBIOAMAZON, institudo pelo MCT/MDA, prev a produo de cerca de 500 mil toneladas/ano de dend na Regio Norte. Se trata de um programa autofinancivel aps 6 anos, tem um ciclo de trabalho de 12 meses, gerando emprego permanente e permitindo a integrao, quando necessria, entre os pequenos produtores e as grandes empresas.

O cenrio atual se mostra tambm bastante oportuno, tendo em vista a prtica do livre mercado para combustveis, a reduo das barreiras, a poltica energtica praticada, o perfil de produo e consumo de diesel, a necessidade de se reduzir a poluio atmosfrica, em particular nos grandes centros urbanos, e o grande interesse e competitividade da indstria local.

Alm destes aspectos trata de uma excelente oportunidade para que o Brasil venha a ingressar no bloco de pases detentores da tecnologia de biocombustveis, tornando-se efetivamente exportador de tecnologia e de produtos com maior valor agregado. Assim, o PROBIODIESEL contribuir para consolidar o Brasil como pas lder mundial em biocombustvel atravs da atualizao e do desenvolvimento de tecnologias em todos os elos da cadeia produtiva multisetorial (setor automotivo, sucroalcooleiro, leos vegetais, Sindipeas, Sindicom, Centros de Pesquisa, entre outros) sempre em benefcio do consumidor final, da qualidade de vida e da promoo do desenvolvimento do Pas.

O esforo governamental est concentrado em fomentar o saber fazer um bom combustvel e o fazer valer o preo e as garantias de seu uso. O desenvolvimento das tecnologias dos processos de produo e de usos do biodiesel e seus subprodutos deve estar sempre acompanhado com a demonstrao da viabilidade econmica e scio-ambiental, da competitividade e, tambm, da promoo da aceitao pelo mercado consumidor.

Produo mundial

A produo mundial de leos vegetais cresceu de 70 milhes de toneladas

em 1997 para 90 milhes de toneladas em 2001. Vrios pases produzem comercialmente e outros estimulam o desenvolvimento do Biodiesel em escala industrial, dentre eles se destacam: Argentina, EUA, Malsia e Unio Europia (Alemanha, Frana, Itlia, ustria e outros).

Na Unio Europia o Biodiesel recebe incentivo produo e consumo atravs de uma forte desgravao tributria e alteraes importantes na legislao do meio ambiente. Em 2005, 2% dos combustveis consumidos so renovveis e, em 2010, 5%.

Ainda na Europa, os fabricantes de motores apiam a mistura de 5% de Biodiesel. Na mistura at 30% ou Biodiesel puro (Alemanha) muitos fabricantes do garantia aos veculos: VW, Audi, Seat, Skoda, PSA, Mercedes, Caterpillar e Man garantem alguns modelos. Na Alemanha, mais de 800 postos de combustveis vendem Biodiesel puro.

Nos Estados Unidos, no h desgravao tributria e a produo ainda incipiente (126.000 toneladas). Atualmente, o biodiesel est sendo usado em frotas de nibus urbanos, servios postais e rgos do governo e considerado Diesel Premium para motores utilizados na minerao subterrnea e embarcaes. Em Minnesota est tramitando projeto de lei que estabelece: 2% de mistura - imediato e, 5% de mistura com biodiesel aps 5 anos de aprovao.

Na Malsia est sendo implementado programa para a produo de biodiesel. A primeira fbrica deve entrar em operao em 2004, com capacidade de produo de 500 mil toneladas ao ano. A extrao possvel de vitaminas A e E permitir reduzir os custos.

O Biodiesel na Argentina tem estmulo atravs do Decreto 1.396, de novembro de 2001, que cria o Plan de Competitividad para el Combustible Biodiesel, propiciando a desonerao tributria do Biodiesel, por 10 anos. A Resoluo 129/2001 definiu as especificaes do biodiesel.

As reservas de combustveis fsseis como o petrleo, por exemplo, esto concentradas em 65% no Oriente Mdio. Em 2001, o preo FOB do petrleo em relao ao leo de soja foi da ordem de trs vezes superior.

Autora: Ivonice Campos - Engenheira qumica, especialista em desenvolvimento energtico, energias renovveis e biocombustveis