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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°89 - ABRIL DE 2005

Pisos

Pisos de compensado e madeira macia

O piso composto por dois estratos (compensado no substrato + madeira macia no estrato superior), conhecido no mercado internacional como engineered wood floor(e.w.f), no ainda produzido no Brasil em escala industrial. Informaes bibliogrficas sobre tal produto, matrias-primas e processo de produo so escassas.

A principal diferena em relao a outros tipos de piso laminado, tambm pertencentes categoria do e.w.f, a espessura do estrato superior, que maior, conferindo ao produto a possibilidade de lixar e aplicar novo acabamento (2 a 3 vezes) aps anos de uso, e conseqente desgaste, prolongando a vida til do piso. Outras caractersticas do produto so a maior estabilidade dimensional e menor propenso a empenamentos. Alm disso, quando utilizadas resinas apropriadas na manufatura, o piso engenheirado apresenta alta resistncia umidade e ao calor, podendo ser instalado em locais onde o piso de madeira macia convencional no indicado.

Na Europa, mas principalmente nos Estados Unidos, o e.w.f tm grande aceitao em virtude de suas excelentes caractersticas, cujos mercados para o referido produto encontram-se em expanso.

Esse quadro tem despertado o interesse das empresas nacionais que atuam no setor de pisos de madeira, para aqueles mercados promissores. No entanto, embora haja demanda, tem-se constitudo em certa limitao, incertezas sobre as matrias-primas e as variveis do processo de produo do e.w.f, comprometendo a sua produo industrial plena.

Com vistas para esses fatos, o presente trabalho foi desenvolvido no Laboratrio de Laminao de Madeiras do Departamento de Cincias Florestais/ESALQ/USP, em parceria com a iniciativa privada (Indusparquet), com o objetivo de gerar informaes teis para a produo do piso composto por dois estratos, em escala industrial, bem como verificar a possibilidade de empregar o compensado de Eucalyptus no substrato do piso.

Os compensados utilizados para compor o substrato do piso fo-ram manufaturados com 9 espcies de Eu-calyptus . Todos os compensados foram manufaturados a partir de lminas de 2 mm de espessura e com 5 camadas.

O gnero Eucalyptus foi o sugerido pela empresa parceira, seguindo as tendncias dos mercados nacional e internacional, que a cada dia passam a valorizar mais as espcies originrias de florestas plantadas, visando reduzir custos, bem como a presso sobre as florestas nativas e atender os consumidores dotados de conscincia ecolgica.

A madeira utilizada no estrato superior do piso produzido foi o Jatob (Hymenaea spp), sob a forma de tbuas, j consagrada no mercado de pisos e largamente utilizada pela empresa parceira.

O adesivo utilizado na manufatura dos compensados foi base de fenol-formaldedo e na produo do piso, adesivo do tipo PVA (crosslinking). Estes tipos de adesivos foram escolhidos em funo das caractersticas tcnicas desejadas para o produto final (piso) que foram indicadas pela em-presa parceira.

Para manufatura inicial do piso foram utilizadas cerca de 50 chapas de compensado com dimenses de 850 x 850 x 10 mm, inteiramente produzidas no Laboratrio de Laminao e Painis de Madeira do Depto. de Cincias Florestais /ESALQ/USP. Estes compensados foram utilizados como substrato para a colagem das tbuas de Jatob, fornecidas pela empresa parceira, com dimenses aproximadas de 82 x 405 x 6 mm.

As tbuas de Jatob, antes da colagem, foram selecionadas excluindo-se aquelas que apresentavam defeitos passveis de serem identificados visualmente quando colocadas sobre uma mesa plana, ou com o auxlio de um paqumetro, como empenamentos ou rachaduras acentuadas e diferenas de espessura ao longo da pea e entre as peas. Na operao de seleo, de um total aproximado de 1260 tbuas, foram rejeitadas 500 (cerca de 39,7%), com aproveitamento de aproximadamente 60,3%.

Atravs de amostras aleatrias, com o auxlio de um medidor eltrico, foi determinado o teor de umidade das tbuas que variou de 10 a 15%.

As tbuas com empenamentos acentuados, utilizadas em ensaios preliminares, apresentaram de laminao nas bordas, ou rachaduras aps a prensagem, resultando em perda do material. Tbuas com diferenas acentuadas de espessura ocasionaram presso inadequada sobre as outras tbuas com espessura menor, quando coladas na mesma chapa de compensado, apresentando uma colagem deficiente (eventualmente com de laminao imediata aps a abertura da prensa) devido a falta de contato suficiente entre as partes juntadas, resultando tambm em perda de material.

Para colagem do compensado/tbuas, foi utilizada cola do tipo PVA (crosslinking).

Trata-se de um tipo de cola branca especial que, segundo o fabricante, apresenta nvel de colagem D-4 (conforme a Norma EN-204), conferindo junta de colagem alta resistncia umidade e ao calor. Essas caractersticas no so encontradas na maioria dos tipos de cola branca e, por isto, as colas PVA crosslinking, pela sua excelncia, apresentam custo bastante superior.

Preliminarmente foram testados dois tipos de cola, que diferem basicamente em viscosidade. A que apresentou o melhor resultado foi a 2590, em termos de trabalhabilidade e colagem entre as partes, possivelmente em funo da sua menor viscosidade.

A primeira, antes do uso foi misturada com o Catalisador CL na proporo de 4%. Esta proporo foi determinada atravs de ensaios preliminares em laboratrio, obtendo-se bom resultado em relao a trabalhabilidade da cola e de laminao da tbua aps a prensagem.

Com temperatura ambiente alta, recomenda-se utilizar o catalisador na proporo de 3%, que o mnimo indicado pelo fabricante, pois menores quantidades podem prejudicar a performance da cola (no ocorre a formao do crosslinking ocasionando a perda das resistncias trmica e umidade). Por outro lado, com temperatura ambiente baixa, a proporo de 5% de catalisador foi a ideal.

A gramatura de cola empregada na encolagem das tbuas foi de 120g/m. A aplicao de cola sobre as tbuas foi realizada numa encoladeira de rolos.

Muito importante foi a verificao da quantidade de cola aplicada, realizada atravs da diferena de peso da tbua antes e aps a encolagem, cujo resultado foi utilizado para efetuar o ajuste da regulagem da encoladeira a fim de obter a gramatura desejada.

Depois de encoladas, as tbuas (18 em cada chapa) foram dispostas manualmente sobre o compensado, separadas pelo uso de um gabarito de madeira, distanciadas entre si cerca de 9mm. Esta distncia foi suficiente para passagem da serra circular (cerca de 3mm de espessura) utilizada para obter as unidades do piso.

Aps a colocao das 18 tbuas encoladas sobre o compensado e a retirada do gabarito de madeira, o conjunto foi encaminhado para prensagem.

A prensagem foi efetuada com brevidade aps a juno entre as peas, de modo a evitar a pr-cura da cola sem que as partes tivessem recebido presso adequada.

Ciclo da prensa empregado na colagem do conjunto compensado/tbuas.

Decorrido o tempo de prensagem, o conjunto foi retirado da prensa e colocado em posio vertical, permanecendo assim at atingir o equilbrio com a temperatura ambiente e completar a cura da cola. Posteriormente, os conjuntos foram levados a serraria para o seccionamento em serra circular e retirada das unidades do piso semi-pronto. Em seguida, as dimenses do piso semi-pronto foram alcanadas atravs da passagem das peas em uma plaina, acertando a sua largura, e o comprimento obtido pelo corte transversal em serra circular.

Ao todo foram manufaturados cerca de 27m do piso semi-pronto. Os pisos semi-prontos foram separados de acordo com a espcie da lmina de madeira utilizada na manufatura dos compensados, devidamente identificada na face inferior do piso e empacotados.

O piso semi-pronto foi transportado do Laboratrio de Laminao e Painis de Madeira do LCF/ESALQ/USP, onde foi inteiramente produzido, para a empresa, onde foram realizadas as operaes de acabamento e usinagem.

Anteriormente ao acabamento superficial e usinagem, j na indstria, foram realizados 5 cortes transversais na face inferior do piso, efetuados em serra circular numa profundidade de cerca de 9mm, em 50% da quantidade total das peas. Essa operao teve por finalidade avaliar se os cortes realizados teriam efeito no sentido de prevenir a liberao de possveis tenses, que levariam ao empenamento do piso antes ou depois de ser instalado.

A operao de acabamento superficial do piso teve incio com o lixamento da superfcie (desbastando cerca de 2mm da tbua de Jatob) e prosseguiu com a aplicao de camadas sucessivas de selador, fundo e verniz com cura UV, conforme a prtica usual na indstria.

A operao de usinagem consistiu na realizao dos encaixes macho e fmea lateral e frontal, o que resultou no piso pronto pr-acabado (cerca de 25m), composto por dois estratos, designado Prefinished Engineered Wood Floor.

Os compensados manufaturados a partir das espcies de Eucalyptus mostraram bom potencial para compor o estrato inferior do piso, conferindo-lhe solidez, reduo da tendncia de empenamentos, encaixes macho e fmea bem acabados permitindo a juno perfeita entre as peas e maior estabilidade dimensional que o piso manufaturado inteiramente com madeira macia.

A possibilidade de utilizar o compensado manufaturado a partir de espcies de Eucalipto, proporciona economia de madeira nativa, tornando seu uso mais racional com a obteno de maior aproveitamento. Alm disso, o fato de empregar espcies de reflorestamento na confeco do piso, pode ser utilizado como estratgia de marketing na promoo do produto.

A quantidade de tbuas de jatob descartadas devido ocorrncia de empenamentos acentuados, rachaduras e espessura desuniforme entre tbuas, bem como a variao verificada em seus teores de umidade, indicam a necessidade de melhoria em seu processo de produo.

Os adesivos utilizados foram adequados para as colagens efetuadas e as gramaturas e formulaes empregadas podem servir como base de referncia para produo do piso em escala industrial.

Visando reduo de custos, recomenda-se a experimentao de diferentes gramaturas de cola, a fim de se obter um ponto timo, no qual utiliza-se a menor quantidade de adesivo, sem comprometer a resistncia mecnica, umidade e ao calor, do piso quando em servio.

As variveis do ciclo da prensa empregadas na manufatura do conjunto compensado/tbuas, foram adequadas e podem servir como base de referncia para a produo do piso em escala industrial. Do mesmo modo citado para os adesivos, as variveis do ciclo da prensa podem ser otimizadas atravs de experimentao, visando reduo de custos.

No foram observadas diferenas entre as unidades do piso nos quais foram efetuados os cortes transversais e os demais, em relao ocorrncia de empenamentos, antes da instalao.

A avaliao definitiva sobre a qualidade dos pisos manufaturados experimentalmente, ser possvel aps a sua instalao e posterior acompanhamento, atravs de ins-pees peridicas, a fim de verificar o seu desempenho em servio.



Geraldo Bortoletto Jr. Departamento de Cincias Florestais /ESALQ/USP, Piracicaba-SP.