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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°89 - ABRIL DE 2005

Mercado-Portugal

O Pinheiro Bravo: A primeira essncia florestal de Portugal

A sua origem alimentou algumas discusses. Introduzida ou originria, o que fato que ela se instalou e progrediu enormemente em Portugal, tendo o seu pico de expanso nos anos setenta, que de acordo com o padro de ocupao florestal da poca representava mais de 40% da rea florestal.

O sculo XX foi o grande perodo da sua expanso. Os grandes programas de arborizao promovidos pelo governo de Portugal estiveram na raiz do seu crescimento. As suas caractersticas fizeram desta espcie o grande e quase nico meio de arborizao das dunas litorais e baldios serranos. As suas caractersticas de rusticidade e plasticidade, de boa adaptao a solos muito degradados por sculos de uso intensivo, permitiram-lhe expandir-se um pouco por quase todo o territrio, muito para alm do que a rea tima para o seu desenvolvimento.

Os proprietrios particulares adaptaram-na para ocupar muitos dos seus montes, onde durante sculos vegetaram carvalhos e outras espcies que o pastoreio intensivo, o corte das lenhas e as roas de mato acabaram por fazer desaparecer.

Os produtos do pinhal permitiram satisfazer algumas das necessidades bsicas das famlias camponesas tradicionais. Foi durante dcadas o grande capital de reserva com que as comunidades rurais puderam acorrer a muitas das suas despesas extraordinrias. Das lenhas, aos toros para entivao das minas, passando pela madeira, pelo carvo e pela resina, o pinhal teve uma importncia fundamental na economia rural do Centro e Norte de Portugal.

A partir dos anos setenta, o xodo rural do pas veio alterar radicalmente aquilo que tinha sido at ali o modo de vida rural. Espcie florestal intimamente ligada pequena propriedade, fragmentada e dispersa, o pinhal e a sua economia so um testemunho das grandes mudanas operadas na sociedade rural portuguesa, com o abandono dos campos e a procura, fora das suas comunidades, de formas de vida mais dignas para si e para os seus. As conseqncias para o pinhal so diversas e vo desde o abandono, tpico dos espaos rurais profundos, at sua substituio pelo eucalipto designadamente em espaos rurais intermdios onde as condies socioeconmicas e edafo-climticas, permitem solues florestais mais intensivas.

As mudanas iniciadas na dcada de sessenta do sculo passado, conduziram os espaos rurais a um circulo vicioso que se auto alimenta, num processo onde o declnio demogrfico a face mais visvel do problema, alterando prticas ancestrais de produo de energia e da sua reconverso por processos naturais. A diminuio da intensidade do uso da floresta traduziu-se numa enorme acumulao da maior parte da biomassa produzida, criando grandes massas trmicas prontas a explodir.

A utilizao mais tradicional dos pinhais na pequena propriedade, centrada na explorao dos matos, das lenhas, da resina, da madeira para uso prprio e como "mealheiro", num quadro de "no gesto", tem vindo a dar alguns sinais, ainda que tnues, num processo com imensos escolhas, de uma nova lgica mais virada para o mercado, preocupada com os problemas da produtividade, da qualidade dos produtos, fazendo apelo aos novos saberes e tecnologias hoje disponveis.

Mudanas previsivelmente lentas estas, face aos condicionalismo intrnsecos a prpria espcie, mas tambm ao enquadramento scio-econmico onde este recurso florestal e uma realidade presente e onde apresenta maiores potenciais de crescimento.

Esto, desde h muito tempo, identificados os grande obstculos que impedem o desenvolvimento harmonioso da fileira do pinheiro bravo, que uma das duas mais importantes espcies madeireiras, sendo a maioria de sua produo destinada s industrias de serrados.

Do lado da produo, a ausncia de uma gesto ativa deste recurso vem sendo apontado como a grande questo que tem estado na origem das baixas produtividades e produes, da degradao do seu patrimnio gentico atravs de modalidades de cortes que privilegiam os piores exemplares como garantias da continuidade dos povoamentos, atravs de um processo de seleo negativo, com consequncias desastrosas para as qualidades tecnolgicas do material produzido.

A quase absoluta ausncia de praticas silvcolas, limpezas, desbastes desrramaes, fertilizaes, etc. torna o patrimnio florestal portugus um meio excelente para a propagao dos incndios florestais.

A tendncia que tem vindo a desenhar-se nos ltimos vinte anos de diminuio da rea ocupada e as dificuldades crescentes em assegurar a satisfao das necessidades da industria, traduz bem o contexto social, econmico e fundirio extremamente desfavorvel em que a nossa principal espcie resinosa tem sabido resistir e sobreviver, e a muito pouca ateno que tem tido por parte dos seus maiores utilizadores. Quase se pode afirmar que a sua presena se faz contra tudo e contra todos, mesmo naqueles casos em que a opo conscientemente assumida por ela se deveu s elevadas ajudas pblicas.

A transferncia para organizaes, profissionalmente cada vez mais estruturadas, as atividades de ordenamento e gesto, no quadro de uma silvicultura multifuncional, racionalizando e tornando mais eficientes as diversas operaes florestais, melhorando a qualidade do lenho e organizando as vendas de produtos florestais atravs de uma poltica comercial mais agressiva e a preveno dos incndios, uma das vias que deve ser privilegiada no mbito do desenvolvimento do setor florestal privado de Portugal.

Paralelamente, desenvolver polticas pblicas de apoio ao reagrupamento da propriedade, aplicao de critrios de gesto sustentvel e certificao dos produtos florestais, ao melhoramento dos materiais de reproduo, em ordem obteno de ganhos de produtividade que permitam, em prazo razovel, aumentar as produes unitrias e os rendimentos dos proprietrios.

Enfim, preciso transformar em realidades as potencialidades identificadas, mas para se atingir tal desiderato fundamental operar uma nova atitude em todos os intervenientes, ativamente ligados aos grandes bices ao desenvolvimento sustentvel do patrimnio florestal.



Lus Pinheiro - Portugal