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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°87 - FEVEREIRO DE 2005

China

A viso ocidental face china

A China entrou definitivamente no radar ocidental. Subitamente no h publicao acadmica, especializada ou generalista, que no puxe o pas mais populoso do mundo para tema de capa. A revista brasileira "Veja" publicou recentemente um dossi sobre "o planeta China", uma edio da revista norte-americana de geo-poltica Foreign Affairs aborda-a no tema central e at a revista acadmica da gesto, Harvard Business Review (HBR), lhe dedicou o destaque. Para fechar este ramalhete de media, a consultora Goldman Sachs presenteou-a no prprio dia do aniversrio da proclamao por Mao Zedong da atual Repblica Popular da China com uma notcia que vai mudar o mundo - em 2039 a China ultrapassar os Estados Unidos em termos de PIB, e ser a economia nmero um de meados do sculo XXI. Aquele pas asitico vive, de fato, um perodo de euforia, em que o recente primeiro vo espacial tripulado foi a cereja em cima do bolo.

Este fenmeno representa os sinais de uma mudana geopoltica e econmica de fundo, bvia, que no mais possvel ignorar. A China dever passar a estar obrigatoriamente no seu radar. Os intelectuais e idelogos chineses falam j da legitimidade de uma nova postura - daguo xintai, ou mentalidade de grande potncia.

Os fatos falam por si e o fato mais marcante dos ltimos anos , sem dvida, a emergncia da China como potncia econmica mundial no sculo XXI. Hoje, ainda, est atrs da Alemanha, do Reino Unido e da Frana em termos de PIB. Mas em 2008 - o ano dos Jogos Olmpicos - ultrapassar o PIB da Alemanha, ficando frente daqueles pases-chave da Unio Europia. E, segundo o estudo da Goldman Sachs, ultrapassar o Japo em 2015 e os Estados Unidos em 2039.

Este calendrio de ultrapassagens em 40 anos tem uma conseqncia geopoltica imediata - o chamado Grupo dos 6 (Estados Unidos, Japo, Alemanha, Reino Unido, Frana e Itlia), ou dos 7 ou 8 (com a Rssia e Canad), ficar obsoleto.

De acordo com o professor Peter Williamson, do INSEAD, o grupo dos 6 no ter outra opo se no responder a este terremoto econmico e geopoltico. Williamson escreveu um artigo no dossi da HBR que os membros do G 6 tero de fazer dois ajustamentos. A idia seria se ligar ainda mais estreitamente emergncia da China, da ndia, do Brasil e da Rssia e prosseguir a integrao da Europa se esta quiser continuar a ter influncia num mundo de gigantes.

A ascenso do PIB chins nesta primeira metade do sculo se baseia na dinmica de crescimento: 8% no qinqnio at 2005, 7% entre 2005 e 2010, 6% entre 2010 e 2015 e 5% entre 2015 e 2020, segundo estimativas da Goldman Sachs. Nenhum outro grande pas "maduro" ou emergente ter um crescimento deste tipo - a ndia, Rssia e Brasil tero mdias anuais mais baixas. Ou seja, a "locomotiva" mundial vai estar centrada na China.

Os responsveis chineses passaram a ter plena conscincia do que designam por zhanlue jiyuqi, ou oportunidade estratgica neste sculo. Tambm visvel no plano geopoltico.

Depois dos ciclos ideolgicos dos anos 60 e 70 - revoluo cultural, combate ao "revisionismo" sovitico, teoria dos "trs mundos" e oposio ao hegemonismo das duas superpotncias de ento -, a China abriu o ciclo do "take off" com as reformas econmico-polticas encabeadas por Deng Xiaoping (relaes internacionais de grande polmica) no final dos anos 70 que permitiram um crescimento mdio anual de 9% ao longo de quase um quarto de sculo, entre 1978 e 2002. Depois desta primeira "fase", a liderana chinesa comeou a olhar para fora, sobretudo depois da queda do Muro de Berlim - a estratgia de emergncia no plano diplomtico acelerou-se com marcos recentes importantes como o Tratado com a Rssia e a adeso Organizao Mundial do Comrcio.

Os ocidentais fazem a "leitura" de que se trata para a China de reganhar apenas um papel "regional" na sia Pacfico, contrabalanando o papel geopoltico dos Estados Unidos (e das suas alianas com a Coria do Sul ou Taiwan, ou mais recentemente com a ndia) e a fora da economia japonesa (apesar da crise em que est envolvida, continua a ser a segunda economia do mundo). O que leva os ocidentais a uma viso limitada da emergncia chinesa.



Fbrica do mundo

A anlise ocidental tende a olhar a China como a atual "fbrica" de mercadorias ("commodities", na designao tcnica) a baixo custo. Os salrios mdios na China so 2,1% dos norte-americanos, o que tambm compara positivamente com os outros destinos como a ndia ou o segundo anel de "tigres" (como Indonsia, Filipinas e Malsia), que so mais caros.

Fruto dessa imagem, a China passou de 3,9% das exportaes mundiais em 2000 para 6% em 2002 e passou a ser o principal destino dos fluxos mundiais de investimento direto estrangeiro desde 2002, tendo ultrapassado os prprios Estados Unidos. Em 2004 se transforma no nmero 2 mundial em termos de "stock" acumulado de capital estrangeiro, logo a seguir aos Estados Unidos.

Os principais "clusters" da China ligados sua especializao internacional so os isqueiros, com 70% do mercado mundial, o calado, com 50%, os brinquedos, com 30%, e os acessrios de roupa com 20%.

Contudo, por baixo destes nmeros est uma realidade mais complexa. O pas cada vez mais um parceiro duplo na cadeia de valor - importa massivamente componentes e partes intermdias dos "tigres" asiticos e do Japo - e da os difceis com Taiwan, Coria do Sul, Japo e Austrlia - e re-processa-as em produtos finais para o seu mercado domstico e para a exportao, nomeadamente para os Estados Unidos (de onde resulta um supervit para a China). Esta dinmica dupla tem colocado inclusive na ordem do dia a agenda da integrao econmica na sia Pacfico - quer atravs da APEC como da ASEAN - e motivado discusses acaloradas sobre a necessidade de uma moeda nica no futuro.

No entanto, muito parcial julgar que a China joga apenas na "parte inferior" da cadeia de valor. Conforme Peter Williamson nem a China, nem a ndia se fixaro pela posio de fbrica de commodities. Numerosos exemplos de empresas chinesas que comearam pela parte mais baixa da cadeia de valor para criar volume, mas que rapidamente se moveram para o valor acrescentado, para segmentos mais sofisticados . Por isso, a China tem entrado cada vez mais na rea das tecnologias de informao, quer no hardware como no software. As exportaes chinesas nesta rea so j 30 a 40% das suas exportaes totais - o que aproxima a China dos outros "tigres" (mais de 50% das exportaes da Malsia e Filipinas so nas tecnologias de informao; 50% no caso de Singapura, 45% no caso da Coria do Sul e 40% nos casos da Tailndia e Taiwan).

Segundo um estudo do Deutsche Bank Research, a China (juntamente com Hong Kong e Macau) j lidera o mercado mundial em 8 das 12 categorias de produtos da eletrnica de consumo - mais de 50% do mercado de leitores de DVD, mais de 30% dos gravadores de DVD, dos computadores de secretria e dos "notebooks", mais de 25% nos telemveis, TV a cores, PDA (assistentes pessoais digitais) e auto-rdios. Ainda que muita gente, no Ocidente, no o reconhea, a China est a comear a competir tambm em indstrias intensivas em conhecimento.

Tambm no campo do software, segundo a revista Business Week, a China poder alcanar a posio da ndia - o principal local do mundo de "outsourcing" nesta rea - em 2006-2007. O prprio "indicador de preparao para a economia do conhecimento" - criado pelo Deutsche Bank - revela que, numa escala de 1 a 10, com um mximo de 8,22 para os Estados Unidos, a China se situa j acima do meio da tabela, com 5,14, ainda que abaixo da Coria do Sul (6,62), do Japo (6,82), e de Taiwan (7,15). Ainda que muita gente, no Ocidente, no o reconhea, a China est a comear a competir tambm em indstrias intensivas em conhecimento.

Desconhecimento ainda maior o relativo s marcas globais emergentes. Sobre este assunto Peter Williamson comenta que as grandes marcas dos EUA, japonesas e europias no tm prestado ateno ao que se chama de drages escondidos. So mopes sobre a China, apenas vendo a dimenso do mercado interno. Mas a China tambm fonte de concorrncia mundial. Na China olha-se a entrada na Organizao Mundial do Comrcio como a grande oportunidade para penetrar nos mercados ocidentais com produtos chineses.

O governo chins apia abertamente 22 grandes empresas com potencial global, seis das quais pretendem entrar na galeria das 500 maiores do mundo e as outras 16 afirmar marcas globais. Entre elas so de citar, a Haier com 50% do mercado de pequenos frigorficos dos EUA, a Galanz com 1/3 do mercado mundial de microondas, a Legend com 20% do mercado mundial de placas-base dos computadores e a China International Marine Containers com 40% do mercado internacional de contentores refrigerados.



Fontes: Agncia de Informao Oficial da China; Xinhua Agncia de Notcias; Ministrio dos Negcios Estrangeiros; chinaonlineline