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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°87 - FEVEREIRO DE 2005

Reflorestamento

Mercado da madeira de reflorestamento no Brasil

Os projetos de reflorestamento, independente da espcie florestal plantada, caracterizam-se pelo elevado risco, tcnico e econmico, a que esto sujeitos. Na maioria das vezes, estes riscos esto associados ao horizonte de planejamento devido natureza de longo prazo destes, onde no tempo tudo se torna possvel de ocorrer, como incndios, ataques de pragas, ocorrncias de doenas, sinistros, ameaas de mercado, prejudicando a viabilidade do projeto e a atratividade pelo mesmo.

Outra caracterstica negativa deste tipo de projeto era o baixo preo do produto florestal (madeira), em razo da existncia de uma condio de mercado onde a competio se fazia de forma imperfeita, prejudicial no curto prazo aos produtores rurais e, no mdio e longo prazo, s empresas e consumidores.

No entanto, comea a se observar mudanas significativas na conduta deste mercado, onde o aumento elevado na demanda por madeira, sem o correspondente aumento na oferta, tem provocado elevaes nos preos dela. O diferencial deste tipo de projeto comparado com os demais, principalmente, o agrcola, que o aumento nos preos no reflete imediatamente no aumento da oferta, pois no mnimo teria o prazo de maturao dele, em que do plantio colheita leva-se pelo menos de seis a sete anos. Da se acreditar que estes preos continuaro a subir ao longo deste perodo de tempo.

Com isso, este colapso na oferta, popularmente conhecido como apago florestal, est colaborando com mudanas profundas e positivas no mercado, valorizao da madeira e aumento na atratividade deste projeto, e que certamente no futuro prximo ser benfico para todos os agentes econmicos envolvidos como empresa, produtor e consumidor.

Apesar que para as empresas esta situao no curto prazo possa, aparentemente, ser desfavorvel, certamente no longo prazo no o ser, pois com o aumento da rea reflorestada pelos produtores rurais o abastecimento voltar a ser normalizado, porm num patamar de preo maior, forando as empresas a rearranjarem seus processos produtivos e gerenciais a fim de continuarem competitiva.

Para melhor discutir esta situao de mercado, segue uma reflexo onde se aborda todo um contedo histrico da formao da atividade florestal, passando pelos atuais acontecimentos e finalizando com as perspectivas que possam vir a ocorrer, que na verdade em algumas regies do pas, j esto ocorrendo.



Mercado



A economia do setor florestal brasileiro, at o ano de 1965, era pouco expressiva, tanto que as atividades de manejo das florestas plantadas e nativas eram insignificantes e realizadas, na sua grande maioria, em pequena escala e em condies de baixo emprego de tecnologia e gesto. A produo de carvo vegetal tinha como fonte de matria-prima as florestas nativas. Nesta poca, poucos empregos eram gerados e o pas importava quase todo o produto florestal industrial. Alm disso, no havia interesse por parte dos produtores rurais e empresrios florestais, investirem em projetos de reflorestamento devido, entre outras coisas, a baixa rentabilidade, ao longo prazo de maturao e aos riscos elevados.

Com a poltica de incentivos fiscais ao reflorestamento, que vigorou de 1965 a 1988, ocorreu um crescimento significativo da rea reflorestada no pas. Os gneros florestais que mais se destacaram foram Pinus e Eucalyptus, devido ao rpido crescimento, a boa qualidade da madeira, a adaptabilidade ao clima e ao solo das regies sul e sudeste, etc.

Mesmo assim, os reflorestamentos implantados neste perodo apresentavam produtividades baixas e eram antieconmicos, decorrncia da insuficincia de conhecimentos e pesquisas sobre a cultura, inadequao no planejamento do uso da terra, na escolha das espcies e nas tcnicas de implantao, alm de falhas na poltica, na legislao, na fiscalizao, etc.

Esta poltica de subsdio produo florestal surgiu como uma contrapartida legal para apoiar as empresas consumidoras de produtos e subprodutos florestais que, pela lei n 4.771/65 (segundo cdigo florestal), eram obrigadas ao auto-suprimento.

A madeira de reflorestamento como matria-prima para as principais indstrias de base florestal apresentava baixo coeficiente preo sobre peso especfico em razo de ser um produto pesado e de baixo valor comercial. Esta condio, muito peso para pouco preo, fazia com que o valor de uma carga de caminho dessa madeira fosse relativamente baixo, prximo ao seu custo de transporte. Isto foraria a localizao dos reflorestamentos prximos da indstria consumidora para que viabilizasse o projeto.

Por outro lado, a instalao de uma unidade industrial mnima (exemplo da indstria de celulose) exige altos investimentos iniciais, isto requer um nvel elevado de produo, para que sejam diludos seus custos por unidade produzida, o que levaria a formao de grandes empreendimentos florestais, operando em economia de escala.

Desta forma, considerando que os projetos florestais se caracterizavam pelo longo prazo, baixa rentabilidade, pouca atratividade, baixo coeficiente preo sobre peso especfico, exigncia de elevado investimento inicial, produo em escala e obrigao legal ao auto-suprimento, forou as empresas florestais a adquirirem grandes quantidades de terras (latifndios) e formarem, inexoravelmente, extensas reas com plantaes florestais (monoculturas) destes dois gneros.

Neste sentido, o latifndio, a monocultura e os grandes macios florestais localizados no entorno das empresas dificultavam a existncia de outros produtores e consumidores de madeira prximos, eliminando as possibilidades de concorrncia, de aumento nos preos da madeira e levando a constituio de monoplios naturais, mais precisamente de mercados monopsnicos da madeira.

Sendo assim, naturalmente, os preos da madeira de reflorestamento eram controlados e formados pelas grandes empresas florestais nas suas regies de atuao, isto tornava a atividade menos valorizada, reduzindo a sua atratividade e eliminava o interesse dos produtores rurais em investir nos projetos de reflorestamento.

Para contornar estes desinteresses, muitas empresas constituram os programas de fomento florestal visando apoiar os produtores a reflorestarem suas propriedades. Os principais contratos destes programas constituem basicamente, em doaes e transporte de mudas e insumos, assistncia tcnica. Como todo contrato, os de fomento tambm envolvem obrigaes que num certo momento podem ser desagradveis para uma ou todas as partes, seja pelos preos negociados, o volume, as especificaes dos produtos, a entrega da madeira, enfim, algo que venha ser prejudicial para a continuidade da atividade. Muitos contratos no tm logrado xitos e nem tem sido cumpridos ou renovados. Atualmente existem programas mais arrojados, com financiamentos para os produtores investirem na atividade florestal, bnus para o produtor, garantias e seguros de florestas, etc. Estes programas tm ajudado a alavancar o setor.



Atualidades



Felizmente, as espcies florestais exticas, como as do Pinus e Eucalyptus, se adaptaram to bem no Brasil e graas avanada tecnologia silvicultural brasileira, se promovem aqui produtividades, no mnimo, dez vezes maiores que as de muitos pases de clima temperado, muitos deles competidores internacionais.



Este rpido crescimento das plantaes florestais confere ao pas uma vantagem competitiva invejvel e assustadora a estes competidores, devido s condies favorveis de clima, solo, extenso territorial, mo-de-obra, infra-estrutura e capacidade gerencial produtiva.



Inusitadamente, as condies de competncias gerenciais s foram possveis com o fim da poltica de incentivos fiscais, em dezembro de 1988. Com o trmino dos subsdios houve uma seleo de empresas florestais que culminou com a falncia de outro nmero muito grande delas. No entanto, as que sobreviveram, se fortaleceram e se constituram em grandes conglomerados de importncia nacional e internacional.



Graas ao crescimento das empresas florestais brasileiras e das demandas internacionais por produtos da cadeia, o Brasil tem se tornado um dos maiores pases do ranking de exportadores do mercado internacional de produtos florestais, conquistando posio e ganhando competitividade de pases tradicionais no ramo de celulose, como a Finlndia e a Sucia, respectivamente.

Com a consolidao da abertura comercial mundial, a desvalorizao do cmbio no Brasil, a retomada do crescimento econmico brasileiro e dos pases desenvolvidos e o espetculo do desenvolvimento da China e da ndia, o setor florestal brasileiro vem, ao longo dos ltimos anos exportando cada vez mais, destacando-se como um dos setores de maior crescimento da indstria nacional, contribuindo para a gerao de mais emprego, renda, impostos, PIB, etc.

Mudanas significativas vm ocorrendo ao longo dos anos no mercado domstico e internacional de produtos florestais. A expanso dos mercados existentes e o surgimento de novos mercados e novos produtos que se utilizam basicamente da madeira de reflorestamento foram se consolidando aqui e no exterior. Internamente, as indstrias de celulose cresceram vertiginosamente sua produo e as siderrgicas esto trabalhando no limite da sua capacidade, as serrarias se multiplicaram, bem como as indstrias de compensados. Surgiram novos produtos, como o MDF (medium density fiberboard) e o OSB (oriented strand board). A madeira de eucalipto que era utilizada basicamente na produo de carvo e celulose, passa a ser empregada tambm na serraria, movelaria, construo civil, etc.

Para atender aos aumentos nas vendas, as empresas florestais esto operando a plena capacidade produtiva, e investindo em novas plantas industriais. No entanto, este aumento na produo industrial no vem sendo acompanhado, num mesmo ritmo, pelo aumento na rea reflorestada no pas. Desta forma, era bvio que surgisse um problema, que no jargo florestal, tem sido chamado de apago florestal, analogia dada escassez de energia ocorrida no incio desta dcada.

O fato que, com o fim da poltica de incentivos fiscais ao reflorestamento, a taxa de aumento das reas plantadas no Brasil, praticamente foi nula, enquanto o aumento na demanda por madeira continuou crescente, passando a consumir madeiras de antigos povoamentos florestais a longas distncias, rotulados de inviveis, e madeira de plantaes jovens, estoques de crescimento. A questo que, o colapso da oferta desta madeira hoje uma realidade que se refletiu nos preos, conforme pode se observado na Figura 1, onde mostra o que est ocorrendo na regio de Itapeva, SP, sendo que, o que acontece l no diferente do que ocorre em outras regies do pas.

Uma observao interessante que se faz, refere-se situao de que as grandes empresas florestais no conseguem mais controlar totalmente os preos da madeira em seu mercado de atuao, pois com o aumento na sua produo industrial sem o acompanhamento dos plantios, tornaram-se mais dependente da matria-prima ofertada no mercado.

O acirramento no consumo de madeira vem transformando uma antiga imperfeio de mercado numa condio de concorrncia perfeita, onde os preos e as quantidades so estabelecidos no equilbrio entre as foras de oferta e demanda por madeira de reflorestamento.

Apesar de algumas opinies catastrficas sobre o apago florestal, a verdade que muitos benefcios esto ocorrendo e ocorrero, pois com o aumento nos preos, a produo florestal no, necessariamente, precisaria se concentrar prximo aos centros consumidores de matria-prima florestal, visto que passaria a compensar o transporte a longas distncias.

Perspectiva



Como o setor florestal brasileiro, principalmente o representado pelas indstrias de celulose e siderurgia, est cada vez mais competitivo no mercado internacional e como a taxa de cmbio, por questes macroeconmicas favorveis tende a continuar desvalorizada, provvel que as exportaes brasileiras continuem crescendo. Existe tambm a possibilidade do pas conquistar novos mercados internacionais. Alm disso, com a elevao da renda familiar no Brasil, devido ao crescimento econmico brasileiro a partir de 2004, a expectativa de que o consumo domstico continue aumentando, corroborando com a elevao da demanda por madeira de eucalipto.



Ao exercitar uma conjectura, possvel prever que o mercado e o preo da madeira de eucalipto tendero a crescer. Assim, duas consideraes devem ser apresentadas:

- existem grandes chances do mercado brasileiro de madeira reger-se sob a tica da competio perfeita, com isso parcela significativa do abastecimento das empresas florestais vir dos produtores rurais independentes, tendo como vantagens: desconcentrao de renda e da posse da terra;

- dado o perodo de maturao dos projetos florestais, do plantio colheita, espera-se que o aumento nos preos persista por, no mnimo, cinco anos. Mas, mesmo quando a oferta se equiparar com a demanda, certamente os preos se equilibraro num patamar superior ao histrico, haja vista a entrada de um grande nmero de atores econmicos (consumidores e produtores de madeira de eucalipto), neste mercado.

No futuro, a expectativa de uma participao maior dos produtores rurais no abastecimento de madeira industrial aliviar bastante as empresas que, por questes circunstanciais aqui discorridas, tiveram que formar grandes macios florestais, mas que a partir de um certo momento podero concentrar seus esforos apenas no processo industrial, ficando a cargo dos agricultores, quem de direito, o fornecimento da madeira via mercado.

H uma srie de fatores econmicos, tcnicos e mercadolgicos favorveis expanso da atividade florestal no Brasil;

O setor tem enfrentado problema relacionado oferta e demanda de madeira;

O mercado de madeira est se tornando mais competitivo em razo das questes aqui descritas, favorecendo a insero do pequeno e mdio produtor;

Falta uma poltica florestal mais dinmica que se adeque s novas tendncias e mudanas verificadas neste mercado;

Tudo isso favorece o setor florestal brasileiro. Se no se agarrar esta oportunidade, outras naes podero ocupar este espao, no qual o Brasil tem tudo para dominar.



Sebastio Renato Valverde, Naisy Silva Soares, Mrcio Lopes da Silva, Larcio Antnio Gonalves Jacovine, Sigrid de Aquino Neiva