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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°86 - DEZEMBRO DE 2004

Agrossilvicultura

Eucalipto, arroz, soja e carne: uma economia e dieta saudvel

A agrossilvicultura vista como uma alternativa muito promissora para os produtores rurais dos pases do Terceiro Mundo e dos pases em desenvolvimento. Pela integrao da floresta com as culturas agrcolas e com a pecuria, o sistema oferece uma alternativa para enfrentar os problemas crnicos de baixa produtividade, de escassez de alimentos, de degradao ambiental generalizada e de reduo de riscos de perda de produo pela diversificao de cultura. Alm disso, torna-se possvel o retorno do investimento de uma forma mais rpida e possibilita ao agricultor a obteno de renda at que a floresta cresa e produza madeira para a comercializao. Atravs desse sistema, pode-se obter ganhos em eficincia, atravs dos seguintes aspectos: agronmico (melhoria das condies do solo), econmico (diversificao da produo), ecolgico (melhoria da biodiversidade, da hidrologia e do microclima, alm do social (benefcios sociais diretos indiretos).

O sistema agroflorestal ou agrossilvicultural apresenta grandes vantagens em relao aos sistemas convencionais de uso da terra, pois permite maior diversidade e sustentabilidade. Do ponto de vista ecolgico, a coexistncia de mais de uma espcie numa mesma rea permite uma melhor utilizao da gua e dos nutrientes. A ciclagem dos nutrientes tende a ser mais rpida e os nutrientes so melhor aproveitados pelas culturas intercalares. Do ponto de vista agronmico, deve-se levar em conta as demandas que as rvores e as culturas agrcolas detm em termos de espao, nutrientes e gua e necessrio que se faam os clculos de como as rvores poderiam interferir na produo agrcola. Os resultados desses clculos devem permitir a avaliao de que o consrcio das duas espcies produz mais do que seria obtido se as duas espcies fossem cultivadas separadamente

O eucalipto se comporta como uma espcie florestal de mltipla utilizao, podendo proporcionar madeira, sombra, abrigo, mel e leo essencial; apresenta, ainda, alta produtividade e alta capacidade de rebrota, alm de apresentar copa relativamente rala, deixando penetrar a luz. Mediante o controle adequado da densidade do plantio de eucalipto, pode-se obter um retorno econmico significativo, atravs do consrcio com culturas agrcolas. Alm disso, o sistema agroflorestal reduz as perdas de nutrientes do solo, melhora a proteo do solo durante a fase crtica de estabelecimento das mudas, quando o solo permanece desprotegido, alm da reduo nos custos de preparao do solo.

O uso de espcies de eucalipto em sistemas agroflorestais j vem sendo feito h algum tempo. Em vrios pases, buscam-se programas de reflorestamento social, nos quais o eucalipto est sendo utilizado extensivamente em plantios em pequenas propriedades rurais. No Brasil, uma experincia bem sucedida o programa adotado pela Fazenda Bom Sucesso da Companhia Mineira de Metais, no municpio de Vazante, localizada em pleno Cerrado, na regio Noroeste do Estado de Minas Gerais, quase na fronteira com o estado de Gois a, aproximadamente, 200 Km de Braslia. Tal experincia tem motivado uma verdadeira peregrinao de pesquisadores e empresrios, e apontada como uma inovao e revoluo aos conceitos silviculturais que se tem praticado convencionalmente nas empresas florestais. O sistema adotado tem apresentado resultados extremamente positivos, tanto para o uso do solo, como para a auto-sustentabiidade econmico-financeira do empreendimento. J so quase 16 mil hectares implantados, utilizando o sistema agroflorestal, com resultados inquestionveis. O consrcio utilizado prev o plantio seqencial de vrias espcies e hbridos de Eucalyptus, intercalado com cultivos anuais de gros nas entrelinhas, nos dois primeiros anos de estabelecimento da floresta, seguido da semeadura de forrageiras perenes para engorda de gado de corte, a partir do terceiro ano, at atingir dez anos de idade, quando se completa a rotao econmica do povoamento florestal.

Utilizando o chamado espaamento dinmico, ou seja, 10 metros entre linhas e 4 metros entre plantas, obtm-se uma populao inicial de 250 plantas por hectare. No primeiro ano, planta-se o eucalipto na linha, consorciado com arroz nas entrelinhas, utilizando-se as normas de preparo do solo e adubao convencionais para as duas culturas. As linhas de plantio do eucalipto so mantidas sempre limpas, a uma distncia de 70 centmetros das linhas de plantio do arroz.

Colhido o arroz, em mdia, 30 sacas por hectare, utiliza-se a prtica do cultivo mnimo e planta-se a soja, no segundo ano, com as correes de solo e adubaes necessrias, mantendo-se os cuidados mnimos com a cultura de eucalipto.

Colhida a soja, em mdia 35 sacas por hectare, planta-se o capim-braquiria, principalmente a Brachiaria brizantha, como componente forrageiro para o gado.

Quando o capim j est estabelecido, solta-se o gado em regime de recria e/ou engorda, obtendo-se, em mdia, 850 quilos de carne por hectare por ano. O sistema de consrcio silvo-pastoril vai at o dcimo ano, quando se procede ao corte da madeira.

Aps o ciclo completo de colheita, inicia-se novo ciclo, repetindo-se as culturas e os procedimentos, com o aproveitamento da brotao do eucalipto. Para tanto, retira-se o gado da rea, colhe-se a madeira e aplica-se herbicida nas entrelinhas para o cultivo do arroz, soja ou outra cultura agronmica. Resultados preliminares do segundo ciclo, apresentam produtividades maiores em gros, carne e madeira, mostrando a eficincia do sistema agrosilvopastoril. A produtividade de gros do segundo ciclo foi 15 a 20% superior ao obtido no primeiro ciclo e a produtividade de madeira foi superior em 20%. Alm das vantagens econmicas, tais resultados evidenciam as importantes respostas ambientais que alguns leigos e pseudocientistas teimam em ignorar sobre o comportamento e o efeito da cultura do eucalipto sobre outras culturas. Tais respostas mostram que todas as culturas em questo (eucalipto, arroz, soja e braquiria) se beneficiaram do sistema de consrcio.

Apesar de a produtividade das lavouras de arroz e soja entre as linhas de eucalipto ser relativamente baixa (30 e 35 sacas por hectare), quando comparada com a produtividade de gros de outras regies do Pas, deve-se considerar as condies precrias locais de solo e baixa precipitao. A despeito dessa produtividade, todas as duas culturas se pagam, melhoram as condies fsicas e qumicas do solo, preparam o solo para a formao de pastagens e propiciam melhores condies de crescimento e produo de madeira. A qualidade e o rendimento da madeira tm superado todas as expectativas. Apesar de apresentar apenas 250 plantas por hectare, tem-se obtido, na maioria das reas, um incremento mdio anual de 40 metros estreos, ou seja, 400 metros de madeira por hectare, dos quais, 50% de madeira para serraria, quando o consrcio chega ao final, aps dez anos. Verificou-se uma melhor utilizao espacial das condies de solo, nutrientes, gua,luz e CO2. Com um espaamento adequado, tornou-se possvel a introduo de culturas intercalares, sem prejuzo da produtividade de madeira.

O sistema agroflorestal praticado pela Companhia Mineira de Metais inovador pela concepo de desenvolvimento sustentvel e est em sintonia perfeita com os anseios e apelos sociais dos sistemas produtivos, usando, de maneira mais eficiente e racional, os recursos naturais e utilizando espaos simultneos para produo de alimentos, fibras e energia. O sistema constitui uma alternativa para amortizar s custos iniciais de implantao e manuteno das plantaes florestais, permitir um fluxo de caixa constante ao longo do perodo de maturao da floresta, alm de fornecer rendas complementares.



Prof. Jos de Castro Silva - Departamento de Engenharia Florestal - Universidade Federal de Viosa - Campus Universitrio - 36.570-000 Viosa Minas Gerais - Fone; 0XX3138992193/ 2489 - Fax; 0XX3138992478 - E.mail: jcastro@ufv.br