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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°83 - AGOSTO DE 2004

Resduos

O aproveitamento dos resduos de serraria no condicionamento de solos florestais

Em muitas empresas florestais, os resduos dos processos produtivos, principalmente de serrarias, por serem materiais slidos e que no sofreram severos tratamentos qumicos capazes de causar impacto ambiental no ecossistema, tem a possibilidade de serem aproveitados com sucesso na devoluo de parte dos nutrientes retirados do povoamento por ocasio da colheita. Estes iro se decompor e liberar os nutrientes contidos em sua estrutura para o solo, onde podero ser reabsorvidos pelas razes das plantas da rotao seguinte.

Atravs da decomposio deste material, espalhado no solo da floresta em p ou aps o seu corte, teremos uma fonte adicional, incrementadora da ciclagem de nutrientes no povoamento, compensando parte das perdas de nutrientes sofridas no decorrer da rotao e por ocasio da colheita.

Alm disso, em povoamentos que sofreram corte raso ou desbaste mais severo, a devoluo destes resduos ao solo formar uma camada protetora contra efeitos nocivos da eroso hdrica e da insolao excessiva e todos os danos da decorrentes, como perdas de solo e nutrientes, poluio de mananciais hdricos, perdas econmicas por investimentos em recuperao da fertilidade do solo, etc. O grau de proteo da conferido proporcional a quantidade de resduos devolvida por rea, formando camadas que tero atuao mais intensa, quanto maior for a sua espessura.

O estudo realizado em reas florestais da empresa Reflorestadores Unidos S.A. teve como objetivos estimar a velocidade de decomposio dos resduos de madeira de Pinus taeda L. proveniente da serraria, os quais foram distribudos, em arranjo experimental, aprisionados em bolsas de nylon (litter-bags) sobre o solo de duas reas, uma de plantio recente e outra sob uma floresta com 4,5 anos de idade. Parte deste material foi recolhido na floresta e encaminhado para anlise de laboratrio (perda de peso, mudanas na constituio qumica) a cada final de estao do ano, pelo perodo de dois anos (2002-2003).

De acordo com os dados apresentados na Tabela 1, a perda de peso verificada com o transcorrer do tempo de permanncia do resduo na floresta demonstra a viabilidade do uso testado. Deve-se obviamente entender que no se trata de obter velocidade mxima de decomposio, uma vez que os dados so inferiores aos obtidos em pesquisas sobre florestas naturais do Sul do Brasil. Alcanando-se ndices que giram em torno de 40% ao final de dois anos, o leque de opes quanto ao manejo destes resduos pelos silvicultores aumenta, uma vez que se pode usar a relativamente lenta velocidade de decomposio como fator de proteo do solo contra a eroso. Espalhando-se os resduos na floresta aps os desbaste ou o corte final, o uso de mquinas para este fim ficar facilitada pelo maior espaamento entre rvores e o solo ficar mais protegido principalmente no momento em que a chuva poder impactar diretamente sobre o mesmo. Alm disso, os nutrientes que passaro a ser liberados lentamente podero ser utilizados pelas razes das plantas restantes ou pelas das novas mudas implantadas, podendo-se com isso diminuir a aplicao de fertilizantes.

A maior eficincia em perda de resduos para o solo foi verificada, ao final do primeiro ano, como mais significativa na floresta, o que se inverteu ao final de dois anos, para a rea recm plantada. Acredita-se que estes resultados sejam explicados pelo fato de que, neste local, quando da implantao do experimento, fatores como a menor quantidade de razes (recente preparo do solo), a insolao direta nas amostras, o que pode ter inibido a ao de agentes decompositores da matria orgnica, fez com que a liberao de resduos para o solo fosse pequena no primeiro ano. Para o segundo ano, com o crescimento das plantas de Pinus taeda e principalmente da vegetao concorrente, formada por gramneas, regenerao do prprio pinus, entre outras espcies arbreas, fez com que fosse aumentada a quantidade de razes invadindo as amostras, as quais abriram caminho para pequenos e grandes decompositores. Estes, auxiliados pela proteo da vegetao quanto aos raios solares diretos (maior umidade nas amostras), atacaram o material das bolsas, propiciando a maior perda de peso destes resduos no segundo ano.

Estas situaes descritas, que se acentuaram no segundo ano na rea de plantio, j ocorriam, de certa forma, na rea da floresta mais velha, porm no em igualdade de condies, uma vez que a floresta apresenta uma baixa abundncia de vegetao concorrente, sendo menor o ataque de razes nas amostras, as quais so provenientes, na maior parte, das rvores de pinus da referida floresta, encobertas pela camada de serapilheira que j se forma nesta rea.

Considerando que, no caso especfico da empresa dona da floresta estudada, o depsito de resduos acumula hoje cerca de 200.000 toneladas, uma taxa de liberao de 1% significa que a cada estao so devolvidos ao solo 2.000 toneladas de resduos.

Atravs de um raciocnio matemtico simples, pode-se entender que: o tamanho da amostra levada a campo (litter-bag), era de 0,2 x 0,2 m, contendo uma quantidade de 100 g de resduo, isso equivale a espalhar sobre o solo da floresta 25 toneladas/ha de material, e que restaria, ao final de 2 anos, somente, na mdia das duas reas pesquisadas, 14,7 Mg ha-1. Se, por um lado, este material restante ainda no decomps e, conseqentemente, ainda no liberou seus nutrientes para o solo, por outro, fica sobre a superfcie do mesmo, tendo uma importante funo de ser uma proteo fsica contra os efeitos danosos da eroso hdrica, sendo uma fonte de nutrientes de lenta liberao.

Em relao aos aspectos nutricionais, mesmo que ainda no tenham sido realizadas as anlises qumicas dos resduos coletados aps o perodo de permanncia da floresta, os quais sero realizadas e posteriormente divulgadas, cabe ressaltar que este material uma importante fonte de liberao de nutrientes, apresentando teores significativos dos mesmos, o que pode ser verificado na Tabela 2, com base no teor nutricional do resduo, em anlise realizada no incio do estudo, antes da instalao do experimento na floresta. A relao C/N do resduo apresenta-se relativamente alta no material, a qual tender a cair quando do acondicionamento dos resduos junto ao solo, pela atividade da fauna decompositora e pelo resduo estar em contato com os fatores ambientais.

importante lembrar que empresas que tem a inteno ou j esto em processo de certificao no podero manter qualquer depsito acumulando resduos em sua rea industrial ou em qualquer outra rea, na forma de depsito. Se for espalhada na floresta uma quantidade de 25 Mg ha-1, como anteriormente citado, seriam necessrios 8.000 ha para que todo o resduo do depsito seja espalhado na floresta, livrando a empresa de um grande problema ambiental e, melhor que isso, transformando-o em uma boa e ambientalmente correta soluo, uma vez que as reas de plantio da empresa so superiores ao tamanho mnimo necessrio para a colocao do resduo.

Deve-se destacar que este no o nico caminho a ser percorrido para a soluo deste problema ambiental, ou seja, o acmulo de resduos no ptio das serrarias. Alternativas como a produo de adubos orgnicos atravs de tcnicas de compostagem, para serem usados em viveiros, hortas, etc tambm merecem ser testados. Porm, sem sombra de dvida, o espalhamento dos resduos sobre o solo da floresta a alternativa mais barata e que no apresenta riscos ambientais aparentes.



Prof. Dr.nat.techn. Mauro Valdir Schumacher; Eng. Ftal. Prof. Eleandro Jos Brun; Eng. Ftal. Flvia Gizele Knig - Laboratrio de Ecologia Florestal Dpto. Cincias Florestais CCR UFSM. Santa Maria, RS. CEP: 97105-900. E-mail: schuma@ccr.ufsm.br