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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°83 - AGOSTO DE 2004

Ecossistema

Precipitao efetiva em plantios de Pinus

O Brasil possui 530 milhes de hectares de florestas nativas, uma rea de 43,5 milhes de hectares com Unidades de Conservao Federal, 4,8 milhes de hectares com plantaes sendo 1,8 milhes de hectares de Pinus e 3 milhes de hectares de Eucalyptus.

As espcies do gnero Pinus so amplamente utilizadas em reflorestamentos no Brasil, devido principalmente ao seu rpido crescimento. Sua madeira usada em construes leves ou pesadas, na produo de laminados, compensados, chapas de fibras e de partculas, na produo de celulose e papel, entre outros. Uma das espcies que se destaca o P. elliottii, tambm muito utilizado para a extrao de resina.

A gua, recurso renovvel, porm finito, tem sido objeto de estudo de diversas reas do conhecimento, principalmente no que se refere a sua qualidade, tratamento, uso e disponibilidade na superfcie terrestre. Outros estudos, porm, so desenvolvidos no sentido de identificar como e de quanto sua participao em diversas etapas do ciclo hidrolgico. As pesquisas que relacionam as chuvas e suas relaes com sistemas florestais so exemplos disto.

A avaliao da reteno de gua pelo dossel das florestas, sem dvida, importante para o conhecimento da fase do ciclo hidrolgico em que parte do precipitado evaporada e parte chega efetivamente no solo.

Destacamos aqui alguns aspectos importantes sobre a relao entre a precipitao efetiva de chuva e os plantios de Pinus, com base nos resultados encontrados na literatura.

Adota-se, arbitrariamente, o incio do ciclo a partir da evaporao da gua da crosta terrestre com a incidncia da energia solar e ventos sobre, principalmente, os oceanos, que so a principal fonte de gua para a atmosfera. A gua, ao evaporar, migra para as partes mais altas da atmosfera, acompanhando as correntes de ar quente, onde se condensa e forma as nuvens, que vo ficando cada vez mais densas at que se precipitam na superfcie do Planeta sob a forma de chuva. Ao atingir a superfcie terrestre, as chuvas podem incidir sobre os oceanos e/ou continentes.

Nos continentes, a precipitao pode ser interceptada por diferentes coberturas: dossel das florestas, plantaes agrcolas, superfcies impermeabilizadas (como ecossistemas urbanos), enfim, qualquer barreira que encontre antes de atingir o solo. Quando se trata de ecossistemas naturais ou implantados, denomina-se esta fase de interceptao. Uma outra frao da mesma precipitao que consegue atingir direta ou indiretamente a superfcie do solo denomina-se de precipitao interna. Parte do que foi interceptado pelo dossel da floresta pode ser evaporada e outra parte pode ainda escoar pelos galhos e troncos das rvores at atingir o piso florestal formando a frao chamada de escoamento pelo tronco.

Desse modo, a soma da frao de precipitao interna e a frao de escoamento pelo tronco tem como resultado, a frao da precipitao de chuva que realmente atinge a superfcie do solo e que, hidrologicamente, denominada de precipitao efetiva.

A precipitao efetiva pode ainda seguir outros caminhos, como escoar livremente pela superfcie do solo at encontrar um caminho direcional como sulcos, ravinas, e cursos dgua. Porm, devido s caractersticas do piso de ecossistemas florestais, com grande proporo de matria orgnica fornecida pela serapilheira, juntamente com a porosidade dos solos, grande parte da precipitao efetiva tende a se infiltrar. A gua infiltrada forma a umidade do solo, os aqferos, e ainda pode escoar at atingir um fluxo de gua externo, como uma nascente ou diretamente um curso dgua.

Atingindo os cursos dgua estes vo formar a malha que drena a gua da bacia hidrogrfica. Cada bacia possui uma nica sada para um rio principal que, geralmente, vai de encontro aos oceanos, fechando assim o ciclo hidrolgico. Isto tem garantido as diferentes formas de vida em todas as partes do planeta.



O GNERO Pinus



O gnero Pinus foi introduzido na Regio Sul do Brasil a partir dos anos 60 e extensas reas foram implantadas inicialmente com o objetivo de atender demanda de matria-prima para a indstria de papel e celulose. Sua utilizao para madeira serrada teve incio na dcada de 80, estimando-se, segundo a Associao Brasileira de Produtores de Madeira ABPM, que, em 1980, tenham sido produzidos 130.000 m ou 1,4 % da produo nacional de madeiras serradas.

O Pinus (inserido na categoria das conferas), utilizado como insumo para a produo de celulose de fibra longa, painis de madeira e na indstria moveleira, entre outros usos, tem 76 % de seu plantio nas regies Sul e Sudeste do Pas, onde o clima lhe mais favorvel. Liderada pelo setor de celulose e papel, a indstria consumidora de madeira investiu de forma significativa em tecnologia florestal. Atualmente, os plantios de Pinus costumam ser plantados em espaamentos de 3m x 2m e 2,5m x 2,5m e o desbaste para a produo de celulose ocorre entre nove e dez anos. Para a indstria moveleira, este prazo maior, tendo a exigncia mnima de quinze a dezoito anos, para que a tora possa ter bom aproveitamento.

O tipo de vegetao, seu estgio de regenerao e a rea basal da mesma podem dar um indicativo do volume de gua efetivamente precipitada na superfcie da bacia hidrogrfica. A cobertura vegetal, atravs da precipitao efetiva, tem influncia na redistribuio da gua de chuva, onde as copas das rvores formam um sistema de amortecimento e direcionamento das gotas que chegam ao solo de forma mais suave e menos impactante, afetando assim, a dinmica do escoamento superficial e o processo de infiltrao, favorecendo o abastecimento dos mananciais subterrneos. O tipo de vegetao caracteriza a quantidade de gotas que cada folha pode reter e a densidade da mesma indica o volume retido numa superfcie de bacia.

Conforme apresentado anteriormente, a precipitao efetiva composta pela precipitao interna, frao da precipitao que passa pelo dossel, e escoamento pelo tronco. Os fatores que interferem na precipitao interna podem estar ligados a caractersticas do clima como: lmina dgua precipitada, intensidade da chuva, durao da chuva, freqncia dos eventos de chuva, espessura das gotas de chuva, intensidade, direo e durao do vento e temperatura.

A precipitao interna pode ainda ser influenciada por caractersticas do prprio ecossistema como o ndice de rea foliar da vegetao que recobre o solo, rugosidade das folhas, ngulo de insero das folhas, profundidade do dossel, estrutura da floresta, composio de espcies, fitossociologia, densidade de plantas, espaamento de plantio e topografia do terreno.

Em ecossistemas florestais, torna-se de suma importncia o conhecimento quantitativo destas fraes para que o balano hdrico do ecossistema seja completo e os efeitos do desenvolvimento das florestas e estdios sucessionais sejam percebidos com xito.

Com relao aos valores de precipitao efetiva, observa-se uma grande variao entre os dados, parte devido aos fatores anteriormente discutidos. No entanto, verifica-se que o gnero Pinus apresenta variaes mais acentuadas, quando observada de forma geral, a precipitao efetiva varia de 69,3 a 93,4 % da precipitao fora do plantio florestal. Enquanto que no gnero Eucalyptus a precipitao efetiva varia de 85,7 at 89,2 %. Uma tendncia que se observa a diminuio da precipitao efetiva de chuvas com o aumento da idade, em princpio explicado pelo aumento da cobertura do solo pelo dossel.

Precipitao(P) e precipitao efetiva (Pe) em ecossistemas florestais de diferentes regies.

Verifica-se que, quando se comparam plantios maduros, o gnero Pinus tende a interceptar uma maior proporo da chuva e por conseqncia, possibilitar uma menor precipitao efetiva quando comparado com os plantios do gnero Eucalyptus. Huber e Irum (2001), observando a interceptao em diferentes ecossistemas nativos e plantados, concluram que, acima de 1200 mm de precipitao total, a perda por interceptao maior em folhosas do que em conferas. Tais autores tambm verificaram que a substituio de floresta nativa por floresta de espcies exticas reduziu a perda por interceptao, no tendo sido possvel concluir sobre a perda total de gua no campo, pois esta depende de outros processos como a perda por transpirao e por evaporao.

A precipitao efetiva em florestas nativas no se diferenciam em grandes propores em relao aos plantios de Pinus, no sendo possvel perceber uma tendncia quando se comparam esses ecossistemas. Observa-se, porm, que a precipitao efetiva numa floresta tropical foi de 62,8 %, o que bem abaixo dos valores encontrados. De acordo com alguns autores este o padro esperado: as florestas nativas recobrem mais o solo, interceptam mais as chuvas porm so ecossistemas mais equilibrados, com menores variaes de contedo de gua no solo. Ao contrrio os plantios florestais interceptam menos, proporcionam maior precipitao efetiva porm consomem mais gua no crescimento. Desta forma, o balano hdrico entre os ecossistemas no apresentariam grandes diferenas no resultado final.

Com base no exposto verifica-se que o estudo da precipitao efetiva de grande importncia para o ecossistema manejado, seja ele nativo ou plantado, j que representa a frao real de gua que chega at o piso florestal.

Com relao a precipitao efetiva em plantios de Pinus, em especial, observa-se que esta no difere acentuadamente dos demais ecossistemas e que, diante dos resultados aqui verificados, tende a ser superior a 70% da precipitao sobre o dossel. Contudo, fundamental que a anlise da precipitao efetiva seja realizada para cada caso separadamente, tendo em vista o grande nmero de variveis que interferem neste processo.

ainda importante lembrar das implicaes ecolgicas da precipitao efetiva, como por exemplo a entrada de nutrientes no ecossistema via gua precipitada. Parte destes nutrientes so lixiviados da atmosfera e outra parte do prprio dossel e podem representar uma quantidade significativa para o crescimento e desenvolvimento da floresta.



Kelly Cristina Tonello - Engenheira Florestal, Ps-graduanda em Cincia Florestal/DEF/UFV - Kellytonello@yahoo.com

Christiany Araujo Cardoso - Engenheira Florestal, Ps-graduanda em Cincia Florestal/DEF/UFV

Herly Carlos Teixeira Dias - Professor do Departamento de Engenharia Florestal/UFV, Viosa, MG

Ana Paula de Souza Silva - Engenheira Florestal, Ps-graduanda em Cincia Florestal/DEF/UFV

Marcelo Rodrigo Alves - Engenheiro Florestal, Ps-graduando em Cincia Florestal/DEF/UFV

Jos Carlos de Oliveira Jnior - Engenheiro Florestal, Ps-graduando em Cincia Florestal/DEF/UFV