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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°82 - JULHO DE 2004

Insetos-Pragas

Pragas atacam madeiras e mveis

Existem mais de 2.800 espcies conhecidas de cupins, a maior parte nas regies tropicais e subtropicais. J os besouros chegam, no total, a mais de 300 mil espcies

Dois grupos de insetos, que se adaptaram vida nos ambientes humanos, podem ser os causadores dos estragos: os cupins de madeira seca e os besouros conhecidos como brocas.

Como ambos escavam galerias dentro dos mveis e tm resduos parecidos, eles so muitas vezes confundidos, mas na verdade pertencem a ordens distintas da classe Insecta. Os cupins so insetos sociais (vivem em colnias, como as formigas, com as quais tambm so, s vezes, confundidos) e integram a ordem Isoptera, enquanto os besouros tm vida isolada (s procuram outros na poca do acasalamento) e fazem parte da ordem Coleoptera.

Existem mais de 2.800 espcies conhecidas de cupins, a maior parte nas regies tropicais e subtropicais. J os besouros chegam, no total, a mais de 300 mil espcies ( a maior ordem do reino animal).

A denominao cupim de madeira seca abrange muitas espcies pertencentes famlia Kaloter-mitidae. Esses cupins formam colnias no interior de estruturas e objetos de madeira, para se alimentar da celulose, o principal componente desse material. O aspecto mais interessante a atrao desses insetos justamente por madeira bastante seca, com umidade inferior a 30%, onde cavam galerias e fazem seus ninhos. Esses cupins so lentos, tm o corpo cilndrico e as pernas relativamente curtas, se comparados aos cupins subterrneos (ver Cupins urbanos: conhecer para combater, em CH n 165).

Cupins de madeira seca atacam, alm dos mveis (armrios, mesas, cadeiras e outros), estruturas existentes nas casas (portas, janelas, pisos, rodaps, forros, vigas de telhados) e outros utenslios.

Acredita-se, no entanto, que antes da ocupao humana esses cupins no existiam nessas regies, onde teriam sido introduzidos, ao longo dos ltimos sculos, atravs do transporte de peas de madeira infestadas. As colnias dos cupins de madeira seca, por seu tamanho reduzido, so capazes de viver at em pequenos objetos, o que facilita o transporte e a introduo desses insetos em regies distantes do local de origem.

Essa disseminao fez com que vrias espcies de cupins superassem grandes barreiras naturais, como os oceanos. Um exemplo o cupim Cryptoter- mes havilandi, originrio da frica, introduzido no Brasil no perodo colonial, provavelmente durante o comrcio de escravos, atravs de objetos de madeira contaminados com a espcie e trazidos do continente africano pelos chamados navios negreiros. O cupim de madeira seca mais comum Cryptotermes brevis, encontrado hoje em quase todos os continentes.

Como habitam um ambiente de baixa umidade, os cupins de madeira seca tm que evitar a perda de gua, necessria ao organismo, e conseguem issoproduzindo bolotas fecais secas. Os resduos empilhados sob os mveis infestados, conhecidos como pozinho do cupim, so formados exatamentepelas bolotas fecais. Os grnulos fecais apresentam diferentes cores podem ser claros (bege) ou escuros (vermelho ou preto) e no tm sua forma alterada com o tempo. So expelidos periodicamente da pea infestada atravs de orifcios circulares ligados ao sistema de galerias e cmaras que constitui o ninho desses cupins. Em geral, tais orifcios ficam vedados por uma secreo intestinalmarrom dos prprios cupins: depositada ainda lquida, a secreo endurece com o tempo. Os cupins tambm utilizam a mesma secreo para fechar passagens dentro do ninho.

Os grnulos fecais dos cupins de madeira seca tm o formato aproximado de um cone curto, de pontas arredondadas, com menos de 1 mm de comprimento. Cada grnulo apresenta seis marcas superficiais, dispostas longitudinalmente, resultantes da impresso dos msculos retais do tubo digestivo quando expelido.

As colnias de cupins de madeira seca tm uma populao baixa, comparada das colnias de outras espcies de cupins, e seu crescimento tambm vagaroso. Em geral, uma colnia possui uma populao constituda por centenas de indivduos perfuradores de madeira, e ainda perfuram livros e papis deixados sobre mesas ou estantes infestadas. Raramente infestam rvores vivas, como alguns cupins subterrneos, mas so bastante conhecidos como destruidores de monumentos histricos, pois infestam peas antigas de igrejas e museus. Entre outras razes, essas peas so mais suscetveis ao ataque porque no recebiam, na poca em que foram criadas, uma proteo adequada contra esses insetos.

Alm disso, no existe uma substncia inseticida que proteja o material por perodos muito longos. Os cupins deixam, na pea atacada, apenas uma fina casca superficial, facilmente deformada ou quebrada por um leve toque da mo de uma pessoa.

Muitas espcies de cupins de madeira seca esto hoje disseminadas por todo o mundo. So encontradas at em regies frias, como o Canad, pois vivem no interior de habitaes humanas. Nos locais com inverno mais rigoroso as casas geralmente tm aquecimento, o que garante uma temperatura agradvel para o desenvolvimento das colnias

Todo ano, em uma colnia madura, parte dos falsos operrios se transforma em reprodutores alados, de corpo marrom e asas iridescentes, e deixa o ninho, voando em direo s luzes para encontrar seus parceiros. Os vos de disperso ocorrem durante vrias semanas, entre o entardecer e a noite, em geral durante a primavera, embora pequenos vos ocasionais tenham sido registrados fora dessa poca. Os reprodutores ganham asas um ms antes do vo e aguardam o momento propcio para deixar as colnias, atravs dos mesmos (100 a 300).

Com uma populao to pequena, esse inseto se torna um problema simplesmente porque muitas colnias podem habitar o mesmo mvel ou pea. Um mvel muito infestado por esses cupins pode emitir barulhinhos, resultantes da ao das mandbulas desses insetos na madeira, durante sua alimentao.



Como atacam

As escavaes, paralelas aos veios da madeira, produzem cmaras achatadas e ligadas por passagens estreitas. As madeiras preferidas por esses cupins so as de rvores do gnero Pinus (pinheiros) e os compensados (compostos de finas folhas de madeira coladas e prensadas).

Os insetos acumulam os grnulos fecais em algumas cmaras e, s vezes, empurram parte deles para fora da pea infestada atravs de orifcios feitos na superfcie da mesma. Depois, os orifcios so novamente selados com a secreo intestinal. Com o tempo, a colnia amplia o ninho de tal maneira que a pea de madeira ou o mvel ficam completamente ocos. As paredes internas dessas galerias so muito lisas e todo o ninho mantido limpo pelos cupins, que inclusive devoram rapidamente os integrantes da colnia mortos.

Suas colnias so compostas por diferentes tipos de indivduos: os soldados, os falsos operrios, o casal real e os jovens. A funo dos soldados, como o nome indica, basicamente a de defesa da colnia contra predadores, mas no so agressivos como os de outras espcies de cupins (figura 5). Os jovens saem dos ovos como ninfas indivduos menores e brancos, que no se alimentam sozinhos.

Os falsos operrios constituem a casta mais numerosa. So indivduos imaturos de cor branca ou creme e desempenham todas as tarefas da colnia.

Eles escavam e consomem a madeira, cuidam do parreal, dos jovens, dos ovos, da limpeza do ninho e alimentam os outros membros da colnia, incapazes de fazer isso sozinhos. Esses indivduos so denominados falsos operrios porque podem originar reprodutores, fato que s ocorre em poucas famlias de cupins (a maioria das famlias tem operrios, que no se tornam reprodutores). As colnias geralmente tm um casal real, e a rainha, pouco maior que o rei, apresenta o abdmen levemente dilatado. Os jovens e os ovos, de cor rosada, ficam perto das galerias habitadas pelo casal real.

Muitas colnias podem viver juntas na mesma pea de madeira (ou mobilirio) e supe-se que compartilhem o sistema de galerias. H relatos da observao de 20 colnias vivendo juntas na mesma porta de uma edificao. O dano causado por esses insetos cresce com as seguidas reinfestaes, que resultam em numerosas colnias dentro da pea ou estrutura atacada.

Quando o casal real morre, surgem os chamados reprodutores de substituio, ou neotnicos (antes, a rainha produzia substncias feromnios que inibiam esse processo).

Em geral, uma colnia produz cerca de 10 neotnicos, mas os excedentes so eliminados por lutas entre eles, restando apenas os dois necessrios (um macho e uma fmea). Em experimentos de laboratrio, a produo de neotnicos e a regulao do seu nmero so influenciadas pelo tamanho dos grupos envolvidos, pela rea do local onde so criados e pelo tipo de madeira com que os cupins so alimentados.



Besouros da madeira

Outro grupo de insetos capaz de provocar estragos em mveis e estruturas de madeira formado pelas chamadas brocas-de-madeira. As brocas so besouros que perfuram a madeira em busca de alimento ou abrigo. Diferentemente dos cupins de madeira seca, esses besouros passam por metamorfose completa, apresentando quatro estgios distintos de desenvolvimento: ovo, larva, pupa e adulto. So as larvas as responsveis pelos ataques moblia e outras peas de madeira.

As larvas da maioria das espcies de brocas escavam ativamente a madeira para se alimentar, preferindo peas como as de artesanato, feitas de vime ou cip (a preferncia deve-se ao tipo de madeira que tais insetos costumam infestar em ambientes naturais). O ciclo de vida completo desses insetos pode ultrapassar um ano, e a fase larval a mais longa. Em geral, o nico dano causado pelos besouros adultos o buraco que fazem para emergir na superfcie da madeira infestada.

Esses adultos vivem apenas poucas semanas. Aps a emergncia, os besouros se acasalam e a fmea procura um local (que pode ser a mesma madeira da qual emergiu) para pr seus ovos.

Algumas brocas colocam os ovos na superfcie da madeira, outras os depositam em fendas ou orifcios. Dos ovos emergem as larvas, que se alimentam da madeira, cavando galerias individuais, at chegarem fase adulta. Em geral, os orifcios de abertura das galerias esto obstrudos pelas fezes compactadas das larvas. Quando se tornam adultos, os besouros perfuram a superfcie para sair em busca de parceiros, completando o ciclo.

De modo geral, as pessoas s percebem a contaminao de sua moblia ou de outras estruturas de madeira pelas brocas depois que os adultos emergem, por causa dos orifcios que deixam. Raramente os besouros adultos so vistos. No entanto, sob as peas infestadas s vezes aparecem resduos finos acumulados, semelhantes a serragem, que caem dos orifcios de sada dos adultos. Esse resduo, ou p-de-broca, resulta da escavao da larva do besouro na pea de madeira e comumente confundido com o pozinho do cupim.

As brocas que atacam a madeira seca, sendo por isso confundidas com cupins, pertencem quase sempre s famlias Anobiidae e Lyctidae. O ataque por anobdeos produz geralmente um p mais grosso, enquanto o ataque por lictdeos facilmente reconhecido pelo resduo bastante fino, semelhante a talco. Embora seja s vezes confundido com os grnulos fecais dos cupins, o p-de-broca constitudo apenas de aparas de madeira irregulares. As fezes das larvas das brocas-de-madeira permanecem no interior das galerias.

Fonte:

Ana Maria Costa-Leonardo

Departamento de Biologia e Centro de Estudo de Insetos Sociais,

Universidade Estadual Paulista (campus de Rio Claro)