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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°79 - MARÇO DE 2004

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Manejo florestal no Brasil

É provável que a certificação FSC tenha sido a iniciativa com mais impacto no mundo florestal nos últimos 10 anos. O sistema FSC é um fenômeno global, com padrões e regras aplicáveis para qualquer floresta do mundo. Isto à parte, em muitos casos, operações em busca da certificação em países em desenvolvimento estão interessadas em mercados estrangeiros, para os quais o FSC pode oferecer uma vantagem.

O sistema FSC está colaborando para mudar a cara da atividade florestal no Brasil, aumentando a importância de aspectos ambientais e sociais na tomada de decisão. Isto é feito através da identificação do FSC com o manejo florestal sustentável (MFS), que proporciona benefícios de mercado e de imagem para operações certificadas.

O panorama do MFS tem mudado no Brasil nas últimas décadas. Em 1993, por exemplo, as tentativas relacionadas ao tema eram restritas a poucas iniciativas isoladas. Em 1995, o grupo Precious Woods iniciou o projeto da Mil Madeireira Itacoatiara com proposta de MFS, investindo em áreas florestais, equipamentos, treinamento e pessoal. Certificação foi definida como crucial para o projeto, que visava o mercado europeu e o objetivo foi alcançado em 1997. Para tal, foi necessário reconhecer os direitos de comunidades tradicionais que viviam dentro da área, adotar práticas de exploração de baixo impacto e proporcionar boas condições de trabalho. Haviam diversos desafios para o projeto, como a falta de um projeto similar no país que demonstrasse sua viabilidade econômica; o grande número de espécies a ser manejado e o mercado ainda incerto.

Após uma fase de dificuldades, o projeto provou que MFS seria um bom negócio e outros projetos passaram a tentar praticar MFS e buscar a certificação. O próprio grupo Precious Wood decidiu ampliar o projeto e abrir seu capital para o mercado, sendo a primeira empresa florestal nos trópicos neste contexto.

Atualmente há cinco grandes operações certificadas na Amazônia e muitas outras em processo. Juntas, elas representam o que há de mais avançado no setor florestal comercial no Brasil. As mudanças estão relacionadas a segurança e saúde no trabalho, alimentação e moradia de trabalhadores, aumento no planejamento e diminuição dos impactos na floresta, maior eficiência das operações florestais e, mais recentemente, o uso de critérios ecológicos para o manejo de espécies ou grupos de espécies.

A certificação também tem impactado a atividade florestal comunitária no Brasil, que tem ganhado força nos últimos cinco anos, com muitas iniciativas na Amazônia. Uma estimativa recente aponta mais de 15 projetos de manejo florestal comunitário na região. A maioria destes projetos é apoiada por ONGs ou movimentos sociais e, em alguns casos, por instituições de pesquisa, como a Embrapa. Em geral, o termo manejo florestal comunitário abrange qualquer atividade florestal que envolva populações tradicionais, como seringueiros, ribeirinhos e povos indígenas. A certificação FSC tem interessado estes projetos, pois pode fornecer meios para melhorar o manejo florestal, garantindo para financiadores e grupos sociais que a iniciativa funciona rumo a sustentabilidade, assim como possibilitando diferenciações de mercado para seus produtos, incluindo, eventualmente, um sobre-preço.

No momento há três operações comunitárias certificadas na Amazônia brasileira e por volta de outras 10 em processo ou interessadas no assunto. Há também uma crescente tendência de certificar manejo florestal comunitário de produtos não madeireiros, liderado principalmente pela demanda da indústria de cosméticos. Esta tem se tornado cada vez mais consciente da importância de matérias-primas de origem responsáveis em seus produtos.



Março 2004