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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°79 - MARO DE 2004

Certificao

Certificao florestal - identidade nacional

A historia mestra da vida uma lio que, apesar de simples, complica-se com as conotaes retricas a respeito do tema. Para a juventude, inovao atualidade, enquanto o passado representa uma idade sem qualquer conexo sincera com a realidade. Os arroubos inovadores tm de ser compreendidos, assim como aceitos os conselhos dos mais velhos.

Dessa forma a certificao chega s florestas brasileiras, um mix de sociedade moderna com os traos dos antigos preceitos mercadolgicos. Os recursos naturais so, como o foram, o objeto final das aspiraes, tanto dos contemporneos florestais como dos renascentistas industriais. A sobriedade das economias estabelecidas compete por terrenos cada vez mais estreitos.

So sobre a sustentao da matria-prima, capital (tecnologia) e mo-de-obra que podem ser construdos os sistemas produtivos. No passado, uma Europa em expanso que definitivamente no era o continente de hoje, mas sim alguns paises isolados investiu em naves capazes de capacitar a explorao das riquezas escondidas nas Amricas. A produo mundial de ouro e prata da poca retrata o resultado da iniciativa, enquanto as conseqncias para a populao local foram a destruio.

A evoluo da produo mundial de metais preciosos da poca esta diretamente relacionada com as navegaes. A historia no conta as casas de trocas que ficaram com a riqueza, mas mostra os marinheiros que desbravaram os mares e destruram as civilizaes existentes em nome da gerao de renda no Norte.

A mesma discreta mas evidente participao dos negociantes europeus que financiavam as viagens se confunde com a aparente inexistncia de registros sobre os indivduos que tornaram possvel o seu acesso aos mesmos recursos.

Nos dias atuais, o quadro do crescimento populacional vem sido escrito por uma reduo gradual da rea til de cada cidado global. Os 2ha de espao que temos no planeta so distribudos da seguinte forma:

As reas correspondentes a madeiras esto concentradas nos paises tradicionalmente produtores, com destaque para o Canad e a Europa, enquanto as florestas intocadas so principalmente as tropicais. Os motivos porque estas esto consideradas dessa ultima forma dizem respeito, antes de fatos, a propaganda, que repete o que Marco Antonio, na Roma antiga, reconhecia como estratgia poltica: repetir uma mentira continuamente, fazendo com que parea verdade.

Essas florestas intocadas, de fato no foram tocadas pelos descobridores de forma intensiva, motivo pelo qual tem sido forcado seu reconhecimento como patrimnio da humanidade, acreditando que apenas a historia desses povos tem alguma relevncia.

O mais antigo fragmento de esqueleto humano at agora encontrado nas Amricas, um crnio de cerca de 11000 anos de idade, apelidado de Luzia, saiu das entranhas da Lagoa Santa, em Minas Gerais (FAPESP, 2003). O achado refora as teorias de que o povoamento do continente fortaleceu-se por volta de 14000 anos atrs.

Diferentes civilizaes j fizeram uso e proliferaram dentro do horizonte da Amaznia enquanto floresta, as sociedades modernas esto apenas voltando seus olhos para um palco que tem tido uma intensa atividade humana atravs dos sculos, no por acaso esses registros esto nos limites da ultima glaciao no nosso planeta.

Modernamente os mecanismos de gerenciamento dos recursos florestais tem adquirido nuances de diversos organismos, que pleiteiam a direo dos acontecimentos no enredo nativo tropical, com destaque para os no-governamentais e suas presses que geraram termos como eco-ditadura e eco-imperialismo.

nesse sentido, o de reconhecimento das influencias sobre a realidade dos recursos naturais, que a identidade dos brasileiros com as florestas tem de ser melhor expressada, sob pena de assumir um papel secundrio no desenvolvimento dos captulos ensejados pela atividade do setor.



FSC



Pelo mundo afora o Forest Stewardship Council tem buscado estabelecer-se como principal responsvel pelas atividades voltadas para o uso de florestas, tendo focado seus olhares para os trpicos, lembrando da necessidade de garantir os mercados para os senhores do Norte.

Segundo a filosofia do esquema, os consumidores esto interessados em sistemas de manejo que integrem a preocupao social com o crescimento econmico, enquanto garantam a preservao do ambiente. Defendem vigorosamente sua auto-sustentacao como verdadeiros estandartes dos anseios desses consumidores.

verdade que a certificao florestal produz, seno benefcios, uma ateno maior para as questes sociais e fora a adoo de sistemas de manejo que concorram para a continuidade da atividade florestal, contudo, no verdade que o manejo sustentado das florestas nativas seja uma realidade sob os auspcios dos seus princpios e critrios. Ao contrrio, sua proliferao atenta contra o fortalecimento da atividade nos trpicos.

No passado o Brasil foi dividido em capitanias e cedido a comandantes responsveis pela sua explorao. No presente, a capitulao da eleio dos mesmos representantes dos interesses econmicos dos paises centrais baseia-se na emisso do certificado FSC.

A instituio tem objetivos definidos, 10 milhes de ha no Brasil, 1 milho de ha nas Guyanas e assim por diante. Aes notadamente voltadas para definir uma rea para domnio mercadolgico.

A formao de grupos de compradores entre os simpatizantes do esquema tem traos das atividades escusas realizadas no passado para garantir o acesso aos metais preciosos, modernamente revestidas da roupagem propagandistas financiada por uma rede de organizaes que atuam indiretamente na construo dessa nova onda colonialista; a imposio cultural contudo a mesma dos tempos primordiais.

Assim, os interesses na produo das florestas nativas brasileiras tem sido emoldurados pela interpretao que as economias desenvolvidas fazem da capacidade de utilizao dos recursos florestais segundo suas idias sobre o tema, concorrendo para a marginalizao dos atores nativos e resgatando as armas para calar a sua voz.

por isso que os madeireiros brasileiros tem sido vitimas de aes policiais e outras inter-institucionais destinadas a coibir o seu mau uso das florestas nacionais, terminando por determinar a priso dos que insistem em imaginar que podem gerar riquezas a partir da sua utilizao sem submeter-se as normas e regulamentos difundidos pela adoo das melhores praticas de manejo.

A verdade que no h a menor possibilidade de alimentar a indstria moderna com sistemas de colheita florestal que busquem a manuteno de um status de estoque florestal igual ao que apresentado na antiguidade.

Seria o equivalente, na cultura agrcola, a buscar sistemas de colheita de milho que no destrussem as plantas, deixando que sua reproduo natural garantisse a regenerao natural das espigas retiradas. Isso sem contar com o fato de que as espigas nativas no tinham mais do que 6 ou 7 gros.

No possvel alimentar a humanidade com esses preceitos, tambm no possvel que as florestas tropicais possam adequadamente suprir a sociedade moderna em se buscando sua manuteno como unidades produtivas de 10mil anos de idade.

Esses fatos no interessam aos sistemas de certificao, que antes tem de garantir os mercados para os melhor adaptados produtores do Norte. O subsidio investido na agricultura daqueles paises direto e j tornou-se uma ameaa para a continuidade da globalizao, enquanto no setor florestal esses subsdios tomam outra forma, aproveitando da juventude dos movimentos ambientalistas para fazer do setor nativo tropical uma atividade pouco lucrativa, possibilitando a manuteno das populaes florestais centrais, ou ser que no so nativas as florestas exploradas no Canad e Europa?



Cerflor



Pouco interessados nesses temas, os ambientalistas tem uma forte tendncia a acreditar que as florestas nativas devem ser conservadas sob qualquer custo, colocando-se como representantes, por sua vez, de uma sociedade alarmada pelo perigo de se explorar florestas nativas brasileiras, aparentemente diferentes das demais.

Sem saber exatamente aonde esta a diferena, a evidencia da existncia de uma biodiversidade enorme concentrada no seu seio parece indicar decisivamente os motivos para a luta contra o avano da atividade florestal nacional.

Em se examinando os fatos cientficos, existia, h alguns milhes de anos, 99% mais diversidade biolgica do que ocorre atualmente, uma clara demonstrao de que a competio e adaptao faz com que a sociedade termine por existir da forma como a conhecemos.

As florestas tropicais indicam, pela sua alta biodiversidade, uma situao atpica para a sociedade moderna, aonde evidentemente o processo evolutivo tem sido atrasado.

Tambm as pesquisas sobre o seqestro de carbono atmosfrico, em conseqncia do chamado efeito-estufa, trazem novas inferncias sobre a propriedade que o tempo tem em destituir a onipresena de sofismas com um aroma desprezvel de fraude.

No incio do segundo quarto do sculo XIX, um dono de penso alemo, investigador por natureza, plantou uma espcie arbrea em um tonel de vinho antigo, tomando o cuidado de medir o peso da terra que ali existia. Essa simples abordagem deu origem as modernas acepes da fotossntese, e da capacidade dos vegetais em produzir massa partindo da absoro do CO em presena da luz.

Hoje em dia, com o aumento da concentrao do gs no ar atmosfrico, a realidade da competio no reino vegetal denota a capacidade superior dos indivduos lenhosos arvores contra os demais membros do ecossistema. O resultado disso que a perda de biodiversidade uma conseqncia natural do quadro atual da natureza global, significando que as arvores ganham na corrida por espao e luz, retirando do cenrio as espcies menos capacitadas.

Mais do que obviamente existe uma tendncia natural de aumento da produo de madeira dentro das florestas, o que determina um novo padro para o manejo, requisitando sejam retirados volumes maiores desse excesso de carbono absorvido. preciso que o pblico seja alertado para o fato de que a madeira um material renovvel e que a sua ampla utilizao contribui para o balano entre a produo e emisso de gases na sociedade.

Uma tentativa de garantir a propriedade nacional sobre a emisso de selos garantidores de procedimentos semelhantes aos adotados pelo FSC, o CERFLOR tem a relevncia de fazer-se notar como representante legtimo dos anseios de soberania sobre o uso dos recursos nacionais.

Em que pese a importncia de se reclamar a incluso de atores nacionais no contexto mercadolgico mundial, a falta de mecanismos que promovam o amplo uso de tecnologia em busca da adequao das florestas nativas as sociedades modernas evidente.

A industria florestal nativa parecer ser a nica no mundo capaz de ignorar a necessidade de investir em tecnologia para melhorar a produo primaria, enquanto aceita como inovao a construo de maquinrio ou de softwares de controle.

O CERFLOR representante legitimo dos anseios nacionais, contudo parece ser mais algum correndo atrs de uma iniciativa que aconteceu enquanto permanecia deitado em seu leito esplendido do que uma efetiva considerao sobre a identidade nacional com as florestas nativas.

Um selo brasileiro precisa tambm certificar ao mundo que o Brasil entende seu papel como ator no palco do setor florestal, absorvendo todas as nuances tecnolgicas que essa atuao exige e colocando-se a frente de qualquer ao voltada para a interpelao de suas reas nativas.

Para garantir a atividade florestal como reflexo da identidade nacional com seu patrimnio nativo, a tecnologia precisa garantir a melhoria da rentabilidade dos stios enquanto possibilita uma nova configurao e arquitetura florestal, adequada a um pais que quer participar ativamente da comunidade global.

O melhoramento e a engenharia gentica esto de fato na fronteira cientifica do manejo adequado das florestas nativas; sua ampla aceitao e difuso como instrumento de vinculao entre a sociedade brasileira contempornea e suas florestas vai propiciar o terreno adequado para a sustentao de um desenvolvimento econmico com respeito a atividade florestal como smbolo da nossa nao.



Mercado



Vistos dessa forma, os mecanismos de certificao no so mais do que meros instrumentos de disputa mercadolgica, sem significncia efetiva para a cincia florestal, devendo ser adotados com o cuidado de representarem esforos de propaganda antes de instrumentos de identificao entre cidados e atividade florestal.

A priso de madeireiros por utilizao inadequada dos recursos florestais diz respeito a restrio de liberdade que no condizem com a realidade do setor. Se no existem mecanismos reais que garantam a manuteno das florestas nativas ao longo do tempo, ao contrrio, os esquemas atuais parecem indicar sua efetiva destruio com o aumento populacional, agredir os empreendedores com ferramentas institucionais de coibio de atividade termina por atrasar ainda mais o desenvolvimento tecnolgico, com prejuzos econmicos evidentes.

Embora exista alguma razo para se acreditar que a corrupo no setor florestal uma realidade, ela no absolutamente algo isolado no contexto nacional, que tem destaque internacional em seus altos ndices de mau uso institucional. O que aparece como diferencial no caso florestal que os presos so os donos das empresas, enquanto nos demais casos de corrupo a verdade sempre parece denunciar membros da mquina governamental como culpados: foi assim nas secretarias cariocas, na policia rodovia federal, com os juizes e em tantos e inmeros outros casos.

Se quer realmente modificar a aparente perda de rea florestal na Amaznia, o pas tem de aceitar com tranqilidade os esforos ambientalistas e ouvir os testemunhos histricos da luta por nossos recursos naturais, lembrando de que a tecnologia que tem feito avanar a humanidade.

O fato de que os madeireiros podem efetivamente fazer uso das florestas como instrumento de crescimento econmico precisa despertar no nosso governo o interesse pelo desenvolvimento tecnolgico do setor, de forma a torn-lo mais competitivo e lucrativo, antes de buscar lanar mo de policia para coibir a atividade.

Os povos e empresrios florestais esto lutando por justia no cenrio das imposies que cerceiam sua competitividade, ao invs de receberem o apoio necessrio a sua evoluo e com eles da economia nacional, esto sendo retirados do palco. A ditadura verde esta fazendo prisioneiros os que lutam contra uma natureza hostil, enquanto conforta interesses da propaganda.

Antes de serem punidos, os madeireiros deveriam ser recompensados por indicar uma capacidade produtiva maior do que a estimada pelos organismos governamentais. Algum consegue imaginar, por exemplo, um agricultor norte-americano ser preso porque tinha previsto uma colheita de 50 sacas de soja por ha, mas na verdade acabou com 55 sacas?

uma vergonha nacional o fato de que o Brasil luta contra a realidade produtiva das empresas nacionais, baseando sua atuao antes do que nos fatos cientficos em apelos da propaganda internacional. Se um madeireiro tinha previsto retirar 600m de ip de uma determinada rea e conseguiu ao invs disso 800m de ip, o governo deveria aplaudir a capacidade produtiva e investigar suas razes para adequar o quadro produtivo.

As instituies esto antes voltadas para reduzir a capacidade produtiva buscando adequar prescries gerais que no condizem com a prpria evidente diversidade na Floresta Amaznica. A falta, novamente, de uma identidade do produtor florestal com o Pas a maior responsvel pela sua pouca representatividade na hora de tomar esse tipo de deciso.

O Brasil precisa de um rgo que promova o uso das florestas nacionais e sua entrada em mercados globais adequadamente, uma instituio que entenda, por exemplo, que 75% do que comercializado, em termos de valor, no mercado mundial de produtos florestais fica com a Europa.

Os produtores florestais precisam de apoio tecnolgico, de extenso, de infra-estrutura, de maquinrio e de comercializao; o que tem sido oferecido so sistemas onerosos ou a cadeia.



Eder Zanetti. Eng Florestal, Msc.