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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°75 - AGOSTO DE 2003

leos Essenciais

leos essenciais de eucalipto

Os leos essenciais constituem as principais matrias-primas das indstrias ligadas aos setores farmacutico, de perfumaria e de condimentos. Os leos essenciais existem naturalmente em diversos rgos das plantas, principalmente as folhas e consistem numa mistura de mais de cem substncias slidas, lquidas e outras volteis, quimicamente complexas e variveis na sua composio. No dia-a-dia, inmeros produtos que utilizamos, como balas, cremes dentais, perfumes, produtos farmacuticos, detergentes e desinfetantes, levam em sua composio o leo de eucalipto ou os seus derivados. Entre as aplicaes genricas mais importantes, destacam-se:

as baseadas no odor, constituindo-se nos fundamentos da indstria e da arte da perfumaria e da aromatizao de produtos industriais;

as que se fundamentam no sabor, proporcionando s indstrias de alimentos e bebidas recursos importantes para a valorizao desses produtos;

as que possibilitam a obteno de produtos teraputicos, de solventes e emulsivos industriais ou produtos intermedirios para produtos sintticos;

as que se baseiam na associao odor-sabor, permitindo a maior valorizao dos produtos comestveis, principalmente os produtos de confeitaria.

A busca pelo naturalismo tambm tem feito crescer a demanda pelos produtos originais obtidos diretamente das plantas. Alm do mais, h dificuldades para que os aromas sintticos aproximem-se da perfeio dos aromas naturais, alm das dvidas ainda existentes sobre os efeitos deletrios ao ser humano, questo esta que cresce fortemente em nvel mundial

Os consumidores finais do leo essencial de eucalipto so as indstrias qumica, farmacutica, alimentcia e saunas. Os trs pontos mais importantes a considerar nos plantios com a finalidade de explorao das folhas para a produo de leo essencial so: a). quantidade de massa foliar por rvore; b). rendimento de leo por quilograma de folha; c)composio qumica de leo.

Os mtodos mais utilizados de obteno do leo so a destilao pela gua ou pela vaporizao e oferecem resultados satisfatrios, envolvendo um considervel nmero de plantas. A destilao, tal como aplicada na produo de leos essenciais, tem por finalidade separar a parte voltil do leo essencial da massa restante no voltil, que permanece nas partes da planta. A operao considerada muito simples e consiste em utilizar um destilador, lanando-se nele uma mistura do material e uma poro de gua, elevando-se a temperatura at atingir a ebulio. O vapor resultante conduzido para um condensador onde arrefecido e convertido na sua forma lquida, contendo gua e pequena quantidade de leo essencial. Em funo de densidades diferentes, formam-se duas camadas bem distintas -leo e gua perfeitamente separveis.

A primeira destilao de leo essencial de eucalipto foi realizada na Austrlia pelo cirurgio ingls John White, no fim do sculo XXIII para substituio do leo de menta indicado como sedativo. White designou como pappermint-tree a planta produtora de leo, naquela data, ainda, botanicamente desconhecida. O qumico Besiste, de Melbourne, aperfeioou depois os mtodos de destilao desenvolvendo a sua aplicao na indstria e divulgando diversos usos qumicos e farmacuticos dos leos essenciais do gnero Eucaliptus.

Segundo o pesquisador Jos Otvio Brito, da ESALQ/ USP, a produo de leo essencial no Brasil teve incio ao final da segunda dcada de 1920, tendo como base o puro extrativismo de essncias nativas, principalmente do pau-rosa. Durante a Segunda-Guerra Mundial, o Brasil passou a ter a atividade mais organizada, com a introduo de outras culturas para obteno de leos, como: menta, laranja, canela sassafrs, eucalipto, capim-limo, patchouli etc. Isto ocorreu em funo da grande demanda imposta pelas indstrias do ocidente, que se viram privadas de suas tradicionais fontes de suprimento, em virtude da desorganizao do transporte e do comrcio, ocasionada pela guerra. Dessa forma, a produo de leos essenciais no Brasil se consolidou atravs do atendimento do mercado externo. Tambm no mercado interno a indstria nacional tambm tinha dificuldades para importar tais produtos, o que ocasionou um estmulo adicional expanso da produo. Na dcada de 1950, instalaram-se no pas algumas empresas internacionais especializadas no aproveitamento de leos essenciais para produo de fragrncias e aromas, destinadas as indstrias de perfumes, cosmticos, produtos alimentares, farmacuticos e de higiene. Este fato provocou um aumento do consumo interno dos leos essenciais, dando maior estabilidade nossa produo.

Sob o ponto de vista da sua composio qumica, qualitativa e quantitativamente, os leos essenciais de eucalipto so misturas, mais ou menos complexas, e variam com as espcies, gentica, tipo e idade da folha, condies ambientais (clima, solo, luz, calor, umidade) e processo de extrao.

J foram identificadas mais de 730 espcies do gnero Eucalyptus, mas um nmero inferior a vinte espcies so exploradas comercialmente em todo o mundo para a produo de leos essenciais.

Os leos essenciais de eucalipto apresentam coloraes diversas segundo a espcie, grau de umidade das folhas e idade da planta. Os melhores leos so obtidos nas pocas do ano com pouca umidade e de folhas j adultas.

A aplicao dos leos essncias de eucalipto depende da sua composio.Os mais importantes so os lcoois, os aldedos, os steres e os teres. Dentre eles, destacam-se os lcoois porque constituem uma das fraes mais aromticas, destacando-se o citronelol. Outro componente muito importante o citronelal, do grupo dos aldedos, que juntamente com os lcoois, forma a frao mais perfumada das essncias. O acetato de citronelila um ster muito utilizado em perfumes e conhecido pelo agradvel odor. Os teres raramente so encontrados nos leos essenciais, destacando-se o cineol ou eucaliptol, principal componente do Eucalyptus globulus e muito utilizado na medicina e produtos de limpeza.

Embora quimicamente no apresentem a mesma constituio, os leos essenciais de eucalipto encerram um grande nmero de propriedades fsicas e qumicas comuns:

.- So solveis no lcool, no ter de petrleo, benzeno e nos solventes orgnicos;

.- So praticamente insolveis em gua;

.- So volteis e destilam pelo vapor dgua;

.- So menos densos que a gua;

.- Fervem a temperaturas superiores a 1000C;

.- So oticamente ativos;

.- Ardem com chama fuliginosa;

.- Apresentam coloraes diversas segundo a espcie, grau de umidade das folhas e idade da planta.

A aplicao dos leos essncias de eucalipto depende da sua composio.Assim, por exemplo, o cineol usado na indstria farmacutica ou como produto de limpeza. O felandreno empregado na indstria como solvente e na flutuao de minerais; O terpinol a base da essncia artificial de lils e usada em perfumarias. O eudasmol utilizado como fixador em perfumes. O acetato de eudasmol empregado como sucedneo da essncia de bergamota e a piperitona utilizada na fabricao sinttica de timol e do mentol.

Para o nosso pas, devido grande rea j ocupada pelos reflorestamentos com eucalipto e as tendncias para o alargamento progressivo dessa cultura, os leos essenciais de eucalipto se constituem num produto de crescente interesse econmico contribuindo para a valorizao da explorao florestal. Entre as espcies mencionadas, destacam-se, em ordem de importncia, o Eucalyptus citriodora e o E. globulus.

O Eucalyptus citrodora tem apresentado maior importncia na economia brasileira, por ser uma espcie menos susceptvel s variaes edafo-climticas; o leo obtido das folhas contm o citronelal, a partir do qual se pode obter o hidroxicityronelal e o mentol; alm de ser timo produtor de leo essencial, tambm produz madeira de excelente qualidade, muito utilizada para produo de carvo, moires, dormentes, postes, lenha para energia e outros. uma planta de rpido desenvolvimento que suporta cortes seguidos, com excelente brotao. O rendimento em leo essencial de E. citriodora varia com melhoramento gentico da espcie, condies do solo, clima poca da colheita das folhas, idade da planta, teor de umidade da folha, tempo entre a colheita e a destilao das folhas, mtodo de destilao, tempo de destilao, presso de vapor injetado nas folhas e vrios outros fatores. Os rendimentos comerciais giram em torno de 1 a 1,5%, sobre o peso do material destilado. Isto significa que, de cada tonelada de folha, obtm-se, em mdia, 12 kg de leo.

O E. globulus tem seu valor comercial ligado ao cineol ou eucaliptol, seu principal componente que lhe confere ao medicinal. O mercado de leos essenciais de eucalipto no Brasil tem como base dois produtos: o citronelal, obtido do Eucalyptus citriodora, e o cineol, obtido do Eucalyptus globulus, que no cultivado no Brasil. A espcie tem apresentado restries de adaptao no Brasil, embora inmeras tentativas de adaptao j tivessem sido realizadas, com resultados nem sempre satisfatrios. A espcie apresenta bom desenvolvimento no Chile, Argentina, Portugal e Espanha, com bom crescimento inicial, no formando rvore de grande porte e sua melhor adaptao est ligada a regies de climas frios.

Os maiores produtores mundiais de leo essencial de eucalipto so a China, Austrlia, Espanha, Portugal e Brasil; os maiores importadores so a Frana, os Estados Unidos, Sua e Espanha. Historicamente, as exportaes brasileiras de leos essenciais de eucalipto so superiores s exportaes. Os maiores compradores do leo brasileiro so os Estados Unidos (31%), Espanha 929%), Colmbia (22%), Mxico (6%), Sua (3%), Turquia (3%) e outros (3%). Fica evidente que o Brasil ainda no explorou o grande potencial do mercado europeu, podendo aumentar, em muito, as exportaes para o Velho Continente.

No Brasil, so poucas as indstrias envolvidas na produo de leos essenciais de folhas de eucalipto. Poucas empresas localizadas nos estados de So Paulo e Minas Gerais ainda processam folhas de Eucalyptus citriodora, mas o mercado tem sido pouco atraente, em funo da concorrncia de produtos sintticos e da grande oferta de leos no mercado internacional, reduzindo significativamente os preos. A produo nacional de leo de eucalipto estimada em pouco mais de mil toneladas anuais e est baseada em pequenas e mdias empresas, utilizando cerca de 10 mil hectares de florestas, gerando aproximadamente 10 mil empregos diretos, envolvendo cifras que variam em torno de 4 milhes de dlares, com quase a metade devido s exportaes Nessa estimativa, considera-se que apenas quatro empresas respondem por 60% da produo nacional e os pequenos produtores de leos essenciais respondem pelos 40% restantes.

Considerando-se a importncia da produo de leo essencial de eucalipto para a economia do Pas, urgente e estratgico o desenvolvimento de pesquisas que aumentem a capacidade produtiva, aumentando a produtividade de biomassa e o rendimento e a qualidade do leo, para garantir a competitividade e estimular o setor.

Algumas informaes adicionais sobre a obteno do leo a partir das folhas de Eucalyptus citriodora:

a) A colheita das folhas deve ser feita nos meses secos do ano (abril a setembro), em funo do maior rendimento em leo e da menor umidade das folhas. A qualidade do leo obtido nessa poca mais rica em citronelal. Observaes feitas nas empresas comprovam os seguintes dados:

.- perodo seco ( abril a setembro) 79,5% de citronelal ;

.- perodo chuvoso(outubro a maro) 77,4% de citronelal.

b) A explorao das folhas pode ser iniciada a partir do primeiro ano de vida da planta, envolvendo um desrama artificial dos galhos laterais, deixando-se apenas uma pequena copa de ponteiro para dar continuidade ao desenvolvimento da planta. Os desbastes podero ser mais intensos com o desenvolvimento da planta. O perodo de desrama pode variar de 6 meses um ano e meio, dependendo das condies do solo. A massa foliar mdia de cada colheita de 3 quilos por rvore.

c) Aps a colheita das folhas, faz-se a amontoa do material em local sombreado, para que as folhas percam um pouco da umidade natural e murchem. A exposio demorada das folhas ao sol acarreta sensveis perdas de leo e afeta a sua composio, depreciando a sua qualidade.

d) A composio bsica do leo essencial de E. citriodora :

. citronelal 65 a 85%

. citronelol 15 a 20%

. geraniol 1 a 5%

e) O preo pago pelas indstrias est diretamente relacionado com a quantidade de citronelal. Atualmente, o mercado interno paga por volta de US $ 7.00 o quilograma de leo, que dever apresentar, pelo menos, 72% de citronelal.

f) e) A importncia comercial do leo de E. citriodora decorrente da sua riqueza em citronelal, sendo pouco usado como adjunto de composies odorizantes e, nesse caso, apenas para sabes baratos e para desinfetantes domsticos e inseticidas..



g) As caractersticas fsico-qumicas do leo essencial de E. citriodora so:

. peso especfico 0,859 a 0,870

. ndice de refrao a 20o C 1,4490 a 1,4560

. constituinte principal citronelal (65 a 85%)

. solubilidade em lcool solvel em 1,3 a 1,7 vol

h) Alguns equipamentos, principalmente as dornas, devem ser construdos de chapas de ao inoxidvel de 2 mm de espessura, devido ao efeito corrosivo do leo essencial.

i) A qualidade do leo depende das condies de armazenamento. Se as condies de armazenamento no forem ideais, o leo pode deteriorar-se rapidamente.. Para tanto, preciso que ele esteja isento de gua ou qualquer outra substncia que possa alterar a sua composio. As embalagens utilizadas para armazenamento e transporte so os tambores de lato com capacidade para 200 litros (175 kg de leo), revestidos internamente com cera epxi, ou tambores de polietileno de alta densidade. O tempo de armazenamento vai depender do material usado na embalagem:

.- lato revestido com epxi: armazenamento por 60 a 90 dias;

.- tambor de polietileno; armazenamento por seis meses a um ano.

Considerando-se a importncia da produo de leo essencial de eucalipto para a economia do Pas, urgente e estratgico o desenvolvimento de pesquisas que aumentem a capacidade produtiva, aumentando a produtividade de biomassa e o rendimento e a qualidade do leo, para garantir a competitividade e estimular o setor. necessrio selecionar material gentico (Eucalyptus citriodora) de melhor qualidade, adequadas maior produo de leos.



Jos de Castro Silva

Jos Tarcsio da Silva Oliveira

Departamento de Engenharia Florestal UFV.