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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°75 - AGOSTO DE 2003

Desdobro

Desdobro da madeira de eucalipto na serraria

A converso de toras em madeira serrada compreende o processamento de peas de seo circular ou elptica em peas de seo retangular. uma operao que permite um melhor aproveitamento da madeira, alm de lhe conferir maior versatilidade para inmeros usos.

A indstria de processamento primrio de madeira deve produzir madeira serrada de qualidade, aproveitando, ao mximo, a matria-prima, a fim de obter uma maior rentabilidade. Para alcanar esta meta, deve-se controlar a eficincia do aproveitamento do produto principal, determinada como rendimento, bem como a capacidade produtiva e os custos de produo de madeira serrada. O rendimento ou porcentagem de aproveitamento a relao entre o volume de madeira serrada produzido e o volume de toras produzido. Em geral, o rendimento obtido para conferas est entre 55 a 65%, devido forma mais retilnea do tronco, enquanto que o rendimento para folhosas est entre 45 a 55% .

O rendimento em serraria afetado pela interao de diversos fatores: dimetro, comprimento, conicidade e a qualidade das toras (iseno de defeitos); espessura de corte, decises pessoais do operador, tipos, condies de funcionamento e manuteno dos equipamentos; mtodos de processamento e nmero alternativo de produtos, alm da possibilidade de aproveitamento dos sub-produtos (costaneiras, cavacos, refilos, destopos e at a serragem). Todos esses fatores interagem de tal forma que impossvel uma anlise isolada.

A qualidade das toras a serem desdobradas influencia sobremaneira no rendimento da madeira e tem reflexos sobre todo o sistema de produo da serraria. A serraria pode operar 3 tipos de tora (boa, regular ou ruim), classificadas visualmente no ptio de estocagem. Quanto melhor a qualidade da madeira, melhor a qualidade dos produtos que dela podem ser tirados; evidentemente, a serraria paga mais caro pelas toras de melhor qualidade. O custo da matria-prima colocada na serraria o principal componente dos custos totais, mas o aumento nos custos da matria-prima compensado pelo aumento da receita nos produtos vendidos.

O rendimento obtido na transformao das toras em tbuas varia de uma espcie para outra, dadas s inerentes distines entre as caractersticas das mesmas, apresentando comportamento diferenciado no desdobro. Dentre as principais caractersticas, destacam-se: densidade, disposio dos elementos estruturais, teor de umidade, presena de componentes qumicos etc.

A qualidade da madeira comea pela semente, justificando a importncia do material gentico para se obter uma matria-prima homognea e de qualidade. Segundo o mesmo autor, a qualidade da matria-prima ideal para serraria envolve os seguintes parmetros: homogeneidade, dimetros adequados ao processo, baixa presena de tenses e rachaduras, gr direita, ausncia de ns, retilnea, forma cilndrica, ausncia de podrido e ataque de pragas, baixa incidncia de alburno, pouca diferena entre cerne e alburno, ausncia de bolsas de resina, medula centralizada e ausncia de impurezas( pedra, areia etc.). A madeira serrada com caractersticas dimensionais adequadas melhora o rendimento, atravs da diminuio das variveis e sobremedidas. O desdobro da madeira de eucalipto exige tcnicas especiais, devido s condies intrnsecas da madeira; a grande ocorrncia de tenses internas de crescimento prejudica sobremaneira o rendimento, atravs da tendncia de rachamento das toras antes e durante a operao de desdobro. O mesmo autor comenta que a excessiva espiralizao da gr pode ocasionar empenamentos, torcimento e perda da resistncia mecnica da madeira, bem como dificuldade no processo de secagem, podendo acarretar perdas do material serrado e consequente diminuio no rendimento final.

A qualidade da tora est presa a fatores que antecedem a sua presena na serraria, como prticas silviculturais (espaamento, fertilizao, desbastes e desramas), tcnicas de abate, derrubada e transporte das toras, bem como cuidados na estocagem das toras (limpeza, descascamento). A retido e a uniformidade da superfcie da tora influenciam muito no rendimento. rvores com crescimento irregular e de formato cnico originam baixo aproveitamento, quando comparadas com aquelas retas e cilndricas. A presena de encurvamento na tora reflete-se na produo de peas de menor largura, afetando o volume do material serrado e, consequentemente, o rendimento. As toras mais cnicas tambm redundam na produo de peas mais curtas. A maioria dos defeitos inerentes madeira de eucaliptos encontrados atualmente podem ser minimizados atravs do manejo florestal e do melhoramento gentico. A idade de corte das rvores um dos fatores preponderantes para se obter um material de qualidade. No basta obter rvores de grande dimetro, mas sim rvores com madeira adulta para garantir a estabilidade da madeira, uma vez que a qualidade da madeira diretamente proporcional quantidade de madeira adulta presente na pea. E os valores de resistncia crescem significativamente com o aumento da idade da rvore .

O processo de colheita da madeira e seu transporte devem obedecer a alguns preceitos e existem algumas tcnicas que podem ser utilizadas para que a madeira tenha maximizado o seu potencial de uso. As rvores de eucalipto jamais devem ser cortadas com o tronco flexionado, evitando-se rachaduras internas, devem ser cortadas com a maior dimenso possvel para posterior seccionamento, devem conter anelamento e aplicao de impermeabilizante (parafina) nos topos, e o transporte para processamento deve ser realizado, num prazo mximo, de 3 dias.

Devido grande demanda de madeira e presses econmicas para resultados imediatos, rvores jovens, de rpido crescimento e de pequenas dimenses tendero compor o mercado madeireiro num futuro bastante prximo. Segundo especialistas da rea, as rvores destinadas produo de madeira para serraria devem apresentar dimetros avantajados, com fustes longos e retos, bem como produzirem madeira com critrios de qualidade bem definidos em questo de uniformidade, resistncia, estabilidade e trabalhabilidade.

A madeira proveniente de reflorestamento de rpido crescimento deve ser sempre considerada como matria-prima diferente de uma madeira resultante de ciclo longo. Os defeitos de rachaduras so ocasionados por tenses internas que se manifestam aps o abate das rvores, apresentando-se, com maior intensidade, nas idades mais jovens. As tenses internas diminuem consideravelmente com o amadurecimento da rvore. Os nveis de tenses so sempre mais elevados para as rvores de menores dimetros. Os profissionais da rea de processamento de madeira devero aperfeioar os processos de converso, no sentido de adequao dessas madeiras que, naturalmente, possuiro algumas caractersticas tecnolgicas diferentes daquelas formadas em ciclos longos de crescimento



Equipamento ideal

Cada equipamento de desdobro apresenta um conjunto de caractersticas que o indicam para um certo tipo de madeira e certas caractersticas da tora. Cada equipamento possui caractersticas prprias de concepo que devem ser conhecidas e que interferem na produo, produtividade e rendimento volumtrico.

Experincias realizadas em So Paulo encontraram um rendimento mdio de 55,6% em Eucalyptus saligna, E. grandis e E. urophylla. Os rendimentos conseguidos tm variado entre 42,0 e 50%, dependendo da classe de dimetro das toras. A produtividade, expressa em metros cbicos de madeira serrada, produzidos numa unidade de tempo, tambm depende do dimetro das toras. Quando se passa de uma classe de dimetro de 15,0 20,0 para outra de 20,0-25,0 cm, o aumento de produtividade da ordem de 106%. Uma vantagem adicional de se utilizar toras de maiores dimetros a obteno de uma porcentagem mais elevada de madeira sem medula ou de lenho juvenil que, via de regra, apresenta altas contraes e baixa resistncia mecnica..

O correto posicionamento e orientao da tora para o desdobro so importantes, pois uma abertura de corte inadequada pode significar grandes perdas em volume ou qualidade da madeira. A tora dever ser fixada firmemente e com um correto alinhamento durante o transporte e passagem pela serra. O sistema integrado de desdobro dever estar suficientemente equilibrado para produzir pequenas espessuras de fio de serra, cortes alinhados, com ferramentas bem preparadas e afiadas, visando produo de superfcies planas e com velocidade de alimentao em nveis aceitveis. Os fatores inerentes s condies operacionais da serra tambm podem influenciar no rendimento obtido, como tipo de dentes, relao largura da trava/ espessura da lmina, tenso da lmina e espaamento entre os dentes da serra. A espessura do corte outro fator relacionado com o equipamento que muito influencia no rendimento. A espessura de corte varia normalmente entre 2,0 a 6,0mm e depende, por sua vez, de diferentes fatores: velocidade de alimentao (maior velocidade de alimentao significa maior canal de corte); espcie de madeira (maior dureza significa menor canal de corte), acondicionamento da lmina (uma adequada manuteno significa menor canal de corte). A condio e a manuteno dos equipamentos podem interferir na produtividade de uma serraria. Equipamentos que no funcionam ou que no operam adequadamente podem ser a causa dessa interferncia negativa.

Para o desdobro da madeira de eucalipto podero ser adotados vrios equipamentos, como:

.- serra dupla de desdobro de toras de fita ou circular utilizada para a retirada das duas costaneiras simultaneamente, evitando a liberao desproporcional e assimtrica das tenses de crescimento. Atravs de cortes simultneos e paralelos das costaneiras, evita-se, principalmente, que haja o arqueamento da tora, em funo da liberao das tenses.

.- serra circular mltipla ou multisserra utilizada em cortes sucessivos da pea, garantindo maior produo, quando comparada serra simples, e um menor desvio padro quanto s diferenas dimensionais na largura das peas.

.- serra de fita simples ou reversa utilizada no aproveitamento das costaneiras, gerando peas de qualidade, com menos resduos, alm de aumentar o rendimento em madeira serrada.

.- serra circular alinhadeira ou canteadeira utilizada para padronizao da largura das peas

.- serra destopadeira dupla constituda de serras circulares posicionadas em duas linhas paralelas e distanciadas das peas serradas no comprimento padro.

O melhor esquema bsico de corte para eucalipto deve constar de duas serras paralelas de fita ou circulares, complementadas com uma srie de serras circulares para desdobrar o bloco obtido de duas faces planas. Experincias com Eucalyptus saligna concluram que o melhor mtodo foi o de duas serras paralelas circulares ou de fita para produzir um bloco de duas faces planas e serras mltiplas para cortar esse bloco em peas com a espessura desejada. No se recomenda o uso de uma nica serra com um carro porta-toras, em funo da pea remanescente do primeiro corte apresentar uma curvatura convexa. Agosto/2003