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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°72 - MAIO DE 2003

Carbono

Amaznia no tem influncia no efeito estufa

O peso da Amaznia na luta contra o aumento do efeito estufa, o aquecimento excessivo do clima da Terra, pode ser menor do que se pensava. Novos clculos do fluxo do principal composto atmosfrico responsvel pelo aumento da temperatura mdia do planeta, o dixido de carbono (CO2), revelam que a quantidade desse gs absorvido naturalmente por esse ecossistema tropical igual ou apenas ligeiramente maior do que a emitida e no absurdamente maior, como estudos prvios indicaram.

Feita no mbito do Experimento de Grande Escala da Biosfera Atmosfera na Amaznia (LBA) mega-projeto internacional de US$ 80 milhes que, desde 1999, rene mais de 300 pesquisadores da Amrica Latina, Estados Unidos e Europa, sob a liderana do Brasil -, a reviso dos nmeros aponta para um saldo anual positivo, em favor da absoro, de cerca de 2 toneladas de carbono por hectare de floresta preservada. Balanos anteriores, alguns conduzidos dentro do prprio LBA, chegaram a indicar absoro lquida, descontado o que foi emitido, de 5 a 8 toneladas de carbono por hectare. " possvel que esse valor esteja at mesmo prximo de zero", diz Paulo Artaxo, do Instituto de Fsica (IF) da Universidade de So Paulo (USP), responsvel por um projeto temtico financiado pela Fapesp sobre o assunto e um dos coordenadores do LBA.

Em cada 3,67 toneladas de C02, tambm conhecido como gs carbnico, h uma tonelada de elemento qumico carbono. Em linhas gerais, pode-se dizer que quanto mais CO2 uma floresta absorve, maior deve ser a sua biomassa, medida na forma de carbono, visto que a fotossntese da vegetao se intensifica. Em outras palavras, grande absoro de CO2 equivale, teoricamente, a grande crescimento de um ecossistema.

De acordo com a nova contabilidade, somadas todas as fontes conhecidas de entrada (absoro) e sada (emisso) de CO2 da floresta, a Amaznia parece retirar do ar uma quantidade relativamente modesta desse gs por hectare de floresta preservada. Ainda assim, como a regio amaznica imensa abrangendo apenas em territrio nacional 5 milhes de Km (500 milhes de hectares), dos quais cerca de 80% so florestas nativas seu impacto no balano mundial de dixido de carbono pode no ser nada desprezvel.

Um clculo rpido e simplista, levando em conta uma taxa de fixao anual de carbono entre uma e duas toneladas anuais por hectare de floresta, mostra que a Amaznia brasileira, que engloba cerca de 70% desse ecossistema sul-americano, seria capaz de retirar da atmosfera algo entre 400 a 800 milhes de toneladas de carbono a cada 12 meses. Isso equivale a algo entre 5% a 10% das emisses globais de carbono no mesmo perodo em razo da ao do homem, basicamente devido queima de combustveis fsseis e ao desmatamento de florestas. "O Brasil no o vilo do mundo por causa do desmatamento e das queimadas na Amaznia (que emitem quantidades significativas de CO2 para a atmosfera), mas sua principal floresta tambm no representa a salvao do planeta", comenta Artaxo.

Segundo o meteorologista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de So Jos dos Campos (SP), coordenador cientfico do LBA, estima-se que todo ano a Amaznia seja responsvel por despejar no ar cerca de 200 milhes de toneladas de CO2, em razo do desmatamento de reas antes preservadas e da prtica das queimadas, sobretudo nos meses de seca, de julho a novembro. At agora, cerca de 14% da cobertura original da Amaznia j foi desmatada, a uma taxa de aproximadamente 0,5% ao ano, pouco menos de 20 mil Km.

O saldo em favor da absoro de CO2 na Amaznia diminuiu por que os pesquisadores do LBA descobriram imprecises metodolgicas na forma como vinham calculando o balano de dixido de carbono na floresta tropical. Basicamente, trs pontos foram cuidadosamente revisados. Primeiro tpico reavaliado: os especialistas constataram que as 12 torres de medio do fluxo do gs na floresta tropical, instaladas em diversos pontos da Amaznia, no registravam adequadamente a entrada e sada de CO2 durante a noite, justamente o perodo do dia em que as emisses do gs so mais altas, pois a respirao das plantas predomina. "Estimamos que, anualmente, cerca de uma tonelada de carbono por hectare, antes ignorada, emitida noite", avalia Artaxo. A boa notcia que os pesquisadores acreditam j ter conseguido identificar a origem da impreciso e, melhor de tudo, corrigido a metodologia empregada.

Segundo tpico revisto: os participantes do LBA verificaram que, ao respirar, a vegetao amaznica emite, alm do CO2, nveis expressivos dos chamados Compostos Orgnicos Volteis (VOCs). Parte desses VOCs, um conjunto de gases que contm carbono, transforma-se em dixido de carbono na atmosfera, fazendo desse tipo de emisso uma fonte indireta do principal agente responsvel pelo efeito estufa. Normalmente, a sada de VOCs considerada desprezvel na maior parte dos ecossistemas de clima temperado, mas, na Amaznia, importante Estima-se que cada hectare preservado da regio despeje por ano no ar uma quantidade de VOCs capaz de gerar cerca de meia tonelada de carbono na atmosfera.

Por fim, os cientistas conseguiram quantificar uma terceira fonte de escape de CO2, at ento pouco estudada: os rios e reas de vrzea da Amaznia, que se encontram saturados de carbono e, por difuso, perdem concentrao desses gases para a atmosfera. "Ningum olhava para o papel das guas no balano de dixido de carbono", comenta Reynaldo Victoria, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, em Piracicaba, coordenador da parte de biogeoqumica das guas do LBA e de um projeto temtico da Fapesp. "Os rios da regio so grandes reatores que processam matrias orgnicas", acrescenta. Em parceria com colegas da Universidade de Washington, tambm participantes do LBA, a pesquisadora Maria Victoria Ballester, da equipe do Cena, mostrou que sai anualmente cerca de uma tonelada de carbono por hectare dos rios em direo atmosfera.

A rigor, o dado projetado no se refere Amaznia em sua totalidade, mas sim a um grande pedao da regio, um quadriltero de 1,7 milho de Km, na parte central da bacia do Amazonas equivalente a 1/3 da maior floresta tropical do mundo ou a trs Franas. Ainda assim, um nmero bastante representativo das trocas de dixido de carbono que se processam na Amaznia. No artigo cientfico em que expe seus clculos sobre a evaso de CO2 dos rios de regio em direo atmosfera, submetido publicao numa grande revista cientfica internacional, Maria Victoria, em conjunto com os pesquisadores norte-americanos, afirma que o saldo geral do ciclo de carbono em florestas tropicais maduras e intactas, levando-se em conta a soma dos ambientes terrestres e aqutico, deve estar perto de seu pronto de balanceamento. Em outras palavras, prximo a zero.

As correes nos nmeros do balano de carbono se devem, em grande medida, ao carter nico e pioneiro do LBA. No h em nenhuma outra grande floresta tropical do mundo um esforo sistemtico de medio do fluxo de CO2 nos moldes do executado na Amaznia. "Esse tipo de trabalho existe apenas em ecossistemas temperados da Amrica do Norte e Europa, que so bastante diferentes da floresta tropical" diz o fsico Artaxo. "No temos nenhum modelo de pesquisa pronto para copiar e colocar em prtica aqui. Tudo precisa ser desenvolvido e ajustado realidade da Amaznia." Em muitos casos, esse ajuste pode fazer toda a diferena na conta final. As dificuldades em interpretar corretamente os dados fornecidos pelas torres instaladas na Amaznia para medir o fluxo de CO2 entre a mata e a atmosfera ilustram bem essa questo.

Compradas a um custo unitrio de cerca de US$ 200 mil, as torres, que medem 55 metros, foram instaladas em doze pontos da Amaznia, tentando cobrir realidades diferentes da imensa regio. As torres no so to altas toa. Seu topo foi projetado para ficar entre 20 e 30 metros acima da copa das rvores, posio privilegiada onde ficam seus sensores de alta preciso, a instrumentos capazes de medir vezes por segundo a velocidade do vento vertical e as concentraes de CO2. Para o instrumento, o CO2 que faz o movimento ascendente, da floresta para a atmosfera, contabilizado como emitido pela primeira em direo segunda. O que realiza o percurso inverso entra no clculo como absorvido pela vegetao ou solo (ou seja, retirado do ar). Ao longo do tempo, o balano (a soma do dixido de carbono que entrou e do que saiu) fornece o fluxo lquido do CO2 num local.

Como se v, o sistema de medio das torres funciona muito bem desde que haja constante circulao e turbulncia verticais de ar no ponto da medio. Isso acontece diuturnamente nas florestas temperadas da Amrica do Norte e Europa, matas bem mais abertas do que a Amaznia. Na floresta tropical, mais fechada, a densa copa das rvores, que constantemente dificulta a passagem da luz, pode funcionar como uma tampa capaz de represar o ar abaixo de seus domnios. Durante o dia, esse efeito de aprisionamento atmosfrico proporcionado pela exuberante vegetao equatorial no chega a atrapalhar o funcionamento dos sistemas de medio das torres, pois os perodos de calmaria do clima (com pouca turbulncia atmosfrica, sem vento ou chuvas) no so dominantes. Tanto o CO2 absorvido pelas plantas durante a fotossntese (processo no qual os vegetais retiram dixido de carbono da atmosfera e o convertem em energia e biomassa) quanto o emitido em decorrncia de sua respirao so registrados a contento.

noite, tudo muda e os perodos de calmaria, sem turbulncia, passam a ser dominantes com o agravante de que o ar nesse perodo do dia se torna mais rico em CO2. Sem a presena da luz solar, as plantas no fazem fotossntese. Apenas respiram, devolvendo ao ar uma parte do CO2 absorvido durante o dia.

Essa limitao na medio do fluxo noturno de CO2 mais acentuada em torres cujo raio de medio englobe reas alagadas e que estejam instaladas em locais com topografia no totalmente plana. Isso porque a inclinao do terreno faz o CO2, que tem dificuldade de escapar por cima devido ao efeito tampo da copa das rvores, "escorregar" para os lados durante a noite. Quando isso acontece, o dixido de carbono emitido logo abaixo de uma torre sai de sua rea de medio, no sendo, portanto, contabilizado adequadamente pelo equipamento.

As derrubadas em reas de floresta manejada no causam desequilbrio ecolgico

S em rea extremamente planas, o gs liberado durante a noite pela respirao das plantas no "escorrega" e fica represado pelas copas at o dia seguinte. Dessa forma, esse CO2 noturno que no foi registrado pela torres acaba passando, com alguma sorte, pelo sensor do equipamento no incio do dia seguinte, sendo, assim, contabilizado de forma adequada no fluxo total diurno.

Distantes apenas 20 quilmetros, as duas torres registravam balanos de carbono diferentes. Uma dizia que a floresta absorvia de 20% a 30% a mais de dixido de carbono do que a outra. Examinando em detalhes os locais onde ambos equipamentos foram assentados, os pesquisadores verificaram que as pores alagadas dentro do raio de ao de uma das torres eram bem diferentes das reas inundadas dentro do campo de cobertura da outra. Constataram ainda que a inclinao do terreno onde estavam assentadas as torres apresentava variaes significativas. Segundo Artaxo, essas peculiaridades eram suficientes para intensificar o espao horizontal do CO2 emitido noite em uma das torres, explicando, dessa forma, os dados aparentemente conflitantes fornecidos pela torres da capital amazonense.

Para medir corretamente a quantidade de CO2 emitida noite, os pesquisadores do LBA instalaram sensores desse gs em diversos pontos de cada uma das 12 torres, e tambm abaixo da copa das rvores. Assim, o registro noturno da presena de CO2 sob as rvores ficou mais fcil de ser obtido. Em 2002, com o auxlio de tcnicas mais precisas de topografia, os pesquisadores comearam a determinar a inclinao do relevo nas reas em que esto instaladas as torres, outra medida que visa a minorar eventuais imprecises dos dados fornecidos por esse tipo de equipamento e dar mais credibilidade ao clculo do balano geral de carbono. Em 2002 foram instaladas tambm duas torres na Ilha do Bananal, em Tocantins, as primeiras em reas inundadas da Amaznia. Com esse aprimoramento, mais um pequeno buraco na medio do fluxo de CO2 na Amaznia comea a ser preenchido. Afinal, 14% da regio coberta por rios ou reas alagadas, um tipo de habitar onde o LBA ainda no conta com nenhuma forma de monitorao permanente dos fluxos de CO2.

Antes mesmo da reviso dos nmeros do balano de carbono na Amaznia, alguns tcnicos do prprio LBA viam com ressalvas os primeiros dados levantados pelo projeto, que apontavam a regio como um grande sorvedouro de carbono. A histria da floresta tropical e sua constituio fsica pareciam, de certa forma, desmentir as cifras que sinalizavam um saldo anual em favor da absoro de at 8 toneladas de carbono por hectare. Afinal de contas, a floresta amaznica no uma formao vegetal jovem. relativamente antiga e j atingiu sua maturidade. Portanto, teoricamente, seu fluxo de carbono deveria ser prximo de zero. Ou seja, a quantidade de carbono absorvida e emitida deveria se equivaler.

Como um hectare de floresta tropical intacta contm de 140 a 200 toneladas de carbono na forma de biomassa, a Amaznia brasileira teria, teoricamente, de dobrar de tamanho a cada 28 anos se sua capacidade de absoro de dixido de carbono fosse equivalente a, por exemplo, 5 toneladas anuais (de carbono) por hectare. Isto no est acontecendo. A Amaznia no cresce nesse ritmo.

Alguns cientistas, no entanto, argumentam que a floresta amaznica hoje no se comporta mais como uma clssica formao vegetal madura. Florestas antigas, diz a ecologia tradicional, absorvem e emitem a mesma quantidade de CO2, tendo um crescimento em termos de biomassa prxima a zero. A causa dessa mudana de atitude seriam as altas concentraes do CO2 encontradas hoje na atmosfera do planeta, as mais elevadas da histria recente a concentrao do gs pulou de 280 ppm (partes por milho) em 1850 para os atuais 370 ppm. Com mais CO2 disponvel no ar para absoro, o nvel de fixao do dixido de carbono por florestas maduras teria se elevado devido a esse aumento na oferta desse composto atmosfrico. "No balano geral, a maioria das torres na Amaznia mostra mais absoro do que emisso de CO2 pela floresta preservada", diz o meteorologista Carlos Nobre. "O debate se essa absoro grande ou moderada."

Diretamente envolvida no processo de reviso dos nmeros de balano de carbono na Amaznia, o fsico Artaxo, da USP, figura entre os pesquisadores do LBA que acreditam num saldo modesto em favor da absoro de CO2 pela floresta. J o biogeoqumico Antonio Nobre, do Inpa, responsvel pela operao das duas torres do LBA em Manaus, ainda no est convencido de que o saldo entre a quantidade de CO2 absorvida e emitida na regio seja to moderado. "Pode at ser que esse balano seja da ordem de duas toneladas anuais de carbono (por hectare de floresta preservada), mas h torres que mostram anualmente uma absoro lquida anual de mais de 5 toneladas de carbono (por hectare de floresta)", diz Nobre. " lgico que ainda h incertezas sobre a metodologia aplicada nessas medies e sobre o ciclo do carbono, mas no d para simplesmente ignorar esse dado. Ainda no conhecemos bem o ecossistema amaznico, que muito complexo. As plantas se adaptam aos nveis de CO2 atmosfrico e buscam um novo equilbrio".

Como quase tudo em cincia, os novos nmeros sobre o ciclo de carbono na Amaznia no so definitivos nem inquestionveis. Ainda mais quando se sabe que esses valores alimentam um tema palpitante da poltica e diplomacia internacional, o do Protocolo de Kyoto, acordo assinado e em processo de ratificao pela maior parte das naes do planeta (com exceo digna de nota dos Estados Unidos), que prev metas de reduo nos nveis de emisso de CO2 para os pases industrializados como forma de reduzir o efeito estufa. "Para no ficarmos na dependncia apenas de informaes vindas do estrangeiro, extrapolada a partir de medies feitas em florestas temperadas, ns, brasileiros, temos de entender e produzir nossos prprios dados sobre o ciclo de carbono na Amaznia", diz Artaxo.

O efeito estufa, causado por uma cortina de gases atmosfricos, com destaque para o CO2, que impede o retorno ao espao de todo o calor irradiado pelo Sol em direo Terra, um fenmeno natural, desejvel, sem o qual no haveria clima propcio no planeta ao florescimento da vida. ele que faz o globo terrestre ser quente o suficiente para ser habitvel. O aumento do efeito estufa, em razo da elevao exagerada dos nveis de dixido de carbono atmosfrico e outros gases, que faz a temperatura esquentar mais do que o desejvel, provocando o derretimento de geleiras e, eventualmente, colocando em risco o equilbrio do planeta.



Fonte:Fapesp Maio/2003