MENU
Carbono
Classificao do Pinus
Colheita
Desdobro
Espcies
Geoprocessamento
Habitao
Manejo
Meio ambiente
Melhoramento
Mercado
Mercado-Europa
Mercado-Oferta
Nutrio
Painis
Pinus Tropical
Plantio
PMVA
Pragas
Preservao
Preservao
Qualidade
Resduos
Resinagem
Secagem
Silvicultura
Sispinus
Usinagem
Anunciantes
 
 
 

REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°68 - DEZEMBRO DE 2002

Preservao

Preservao

A madeira, por ser material de origem orgnica, dependendo das condies ambientais a que seja submetida, ir sofrer deteriorao por agentes biolgicos como microrganismos (bactrias e fungos), insetos (colepteros e trmitas) e brocas marinhas (moluscos e crustceos). Quando a situao de uso da madeira envolve a possibilidade de ocorrer a degradao biolgica, torna-se necessrio o uso de espcies de alta durabilidade natural ou de baixa durabilidade submetidas a tratamento preservante.

Considerando que as espcies de alta durabilidade natural so provenientes da floresta tropical, a utilizao das espcies vindas de florestas plantadas e que possam ser submetidas ao tratamento preservante torna-se uma alternativa promissora. A madeira do gnero Pinus possui caractersticas que permitem variada gama de aplicaes, mas a carncia de conhecimento e tradio no uso da madeira preservada, bem como a falta de especificaes tcnicas e informaes sobre o comportamento em servio, restringem sua utilizao.

Dentre os produtos de madeira slida, a ABIMCI (Associao Brasileira de Madeira Processada Mecanicamente) estimou, para o ano de 2001, uma produo de 2.250.000 m3 de compensados, 20.000.000 m3 de madeira serrada, 1.100.000 m3 de PMVA (produtos de maior valor agregado), 254.000 m de portas e 12.000.000 m de pisos. A produo de madeira tratada em autoclave est estimada na ordem de 560.000 m3 para o ano de 2001.

A madeira de Pinus a principal matria-prima na produo dos PMVA, e representa cerca de 40% na produo de compensados e de 35% na produo de madeira serrada. J na produo de madeira preservada, o gnero Pinus corresponda a apenas 3% do total produzido.

Na dcada passada se intensificou as pesquisas tecnolgicas visando utilizar com maior intensidade as madeiras de reflorestamento em substituio s nativas. Como ponto favorvel na utilizao de espcies do gnero Pinus, se consagrou no mercado interno, principalmente no setor de manufaturados (mveis) e a exportao para pases industrializados. Por outro lado, esta madeira apresenta baixa resistncia natural ao ataque de organismos xilfagos.

Uma forma de agregar valor madeira serrada do gnero Pinus atravs do tratamento qumico preservante adequado, que ir conferir a madeira maior durabilidade em uso. Comparando-se os volumes de madeira serrada e painis compensados de Pinus com o volume que submetido a tratamento em autoclave, e considerando que a indstria da construo civil um dos principais segmentos consumidores de madeira serrada e compensados no mercado interno; pode-se inferir que grande o potencial de crescimento no uso da madeira de Pinus submetida a tratamento preservante.

Adicionalmente, a crescimento constante do segmento agrcola no Brasil favorece o uso da madeira preservada para aplicaes rurais, tais como tutores, moires e construes rurais, dentre outras. Para que a indstria de preservao de madeiras se desenvolva, so necessrias mudanas no enfoque de utilizao da madeira tratada no Brasil. importante conscientizar os consumidores e propiciar base tcnica para incrementar o uso da madeira tratada, tanto na construo habitacional como em aplicaes rurais.

Preservantes para Madeira

Dentre as diferentes alternativas de preservao da madeira, a preservao qumica tem por base a impregnao da madeira com produtos qumicos visando torn-la txica aos organismos que a utilizam como fonte de alimento.

Apesar dos possveis riscos no manuseio e uso de biocidas, a preservao qumica ainda a forma mais usual na preveno do ataque biolgico. Os mtodos mais eficientes para aplicao do preservante na madeira incluem o uso de presso superior a do ambiente (autoclave) como auxiliar da impregnao, resultando em melhor distribuio e penetrao do preservante na pea tratada.

Os principais preservantes para evitar a degradao biolgica da madeira so o creosoto (preservante oleoso), o CCA e o CCB, ambos preservantes hidrossolveis.

Os ingredientes ativos do preservante CCA (arsenato de cobre cromatado) so o CrO3 (cromo), o CuO (cobre) e o As2O5 (arsnio). Ao longo dos anos, as porcentagens desses ingredientes foram alteradas, resultando na existncia de trs formulaes bsicas atualmente disponveis no mercado: o tipo A, o tipo B e o tipo C (Lepage, 1986). Cerca de 80% de toda a madeira tratada no mundo impregnada com este produto.

O CCB (borato de cobre cromatado) ou sais de Wolman, tem como ingredientes ativos o CrO3 (cromo) , o CuO (cobre) e o B (boro).

A quantidade de preservante a ser impregnada na madeira definida como reteno, expressa em kg de ingredientes ativos do preservante por metro cbico de madeira tratada (kg/m). Tanto para o CCA como para o CCB, o nvel adequado de reteno depender do risco de degradao biolgica da madeira. Para madeira sem contato direto com o solo (madeiramento areo, estruturas de telhados, beirais) recomendada uma reteno de 4,0 kg/m; enquanto que para postes a reteno normatizada da ordem de 9,6 kg/m.

Durabilidade

A forma mais usual para se determinar a durabilidade da madeira tratada atravs dos ensaios de campo, conhecidos como campos de apodrecimento. Neste tipo de ensaio. a madeira exposta ao solo, s intempries do ambiente e a uma vasta gama de microorganismos e insetos xilfagos. Avaliando as condies da madeira durante o perodo de teste, pode-se verificar os organismos que esto deteriorando o material e estimar a vida mdia em servio. Apesar dos altos custos envolvidos nos ensaios de campo, este o nico mtodo onde possvel prever o desempenho que a madeira apresentar em servio e o potencial de utilizao da madeira natural ou preservada.

Os campos de apodrecimento podem ser instalados com moires ou com estacas. O campo com estacas um mtodo padronizado pela IUFRO (Unio Internacional das Instituies de Pesquisa Florestal) e muito utilizado para avaliar a durabilidade da madeira tratada.

Neste tipo de ensaio, estacas com 2,5 cm de espessura; 5,0 cm de largura e 50,0 cm de comprimento so parcialmente enterradas no solo e permanecem expostas aos agentes causadores da degradao biolgica ao longo do tempo. Periodicamente as estacas so examinadas e avaliadas quanto ao estado de sanidade (intensidade do ataque biolgico), atribuindo-se notas de 0 (degradada, sem condies de uso) a 100 (em perfeitas condies, sem evidncias de ataque biolgico) ou de 0 a 10 (com a mesma interpretao).

O resultado final das notas denominado ndice de Comportamento (IC), Valores do IC prximos a 100 significam que a madeira est sadia, enquanto que valores iguais ou menores que 40 indicam degradao acentuada.

Durabilidade da Madeira de Pinus

A madeira de Pinus, sem tratamento preservante, quando exposta em contato direto com o solo tem durabilidade inferior a um ano. Por outro lado, quando submetida a um tratamento adequado, pode permanecer em contato direto com o solo por 20 anos ou mais, sem indcios de apodrecimento ou ataque de insetos.

Moires de Pinus elliottii, Pinus kesiya e Pinus caribaea var. hondurensis, tratados em autoclave com CCA tipo A e CCB, apresentaram durabilidade mdia em uso superior a 10 anos ; e moires de Pinus caribaea var. hondurensis, tratados por processos sem presso, apresentavam perfeitas condies de uso aps 4,5 anos em servio.

Um experimento bastante abrangente foi relatado por Barillari (2002), que analisou o estado de sanidade em um campo de estacas envolvendo 4 espcies (Pinus elliottii, Pinus caribaea var. hondurensis, Pinus oocarpa e Pinus kesiya) tratadas em autoclave com CCB e CCA tipos A, B e C em 5 diferentes nveis de reteno; aps 21 anos de exposio em campo. Um resumo dos resultados apresentado na Figura 3 e na Tabela 5.

Na avaliao geral dos resultados ficou demonstrado que o ndice de Comportamento mdio da madeira tratada com CCB foi inferior ao da madeira tratada com os trs tipos de CCA. A expectativa de vida mdia para os tratamentos menos eficientes, tanto para o CCA como para o CCB, de 32 anos; comprovando a importncia do tratamento preservativo para aumentar a durabilidade da madeira de Pinus.

Restries ao uso do CCA

Embora o CCA seja o preservante hidrossolvel mais utilizado no tratamento da madeira e existam inmeros registros comprovando a sua eficincia e a sua segurana, tem aumentado as restries quanto ao uso da madeira tratada com o CCA. Essas restries tem sido impostas principalmente na Comunidade Europia, e tem como base a perda dos componentes do CCA ao longo do tempo, por lixiviao ou volatilizao, e que poderiam trazer riscos de contaminao do ser humano e do meio ambiente.

O cromo, quando empregado sozinho, no tem xito como preservante da madeira. Porm, funciona como agente fixador do arsnio e do cobre, o que torna estes componentes resistentes lixiviao. J o cobre age como fungicida, atravs da precipitao de protenas e causando interferncias no metabolismo dos fungos, por meio de reaes enzimticas. Porm determinados fungos, particularmente os de podrido parda e mole, so relativamente tolerantes na presena de cobre e elevadas quantidades so requeridas para efeito de fungicida. O arsnio apresenta elevada toxidade a muitos fungos e insetos. Assim como ocorre com o cobre alguns fungos apresentam tolerncia a dosagens maiores desse elemento. Um inconveniente apresentado pelo arsnio o fato de sua alta toxidade ao homem .

Alguns trabalhos de investigao tem demonstrado que o cobre e o arsnio so os componentes mais lixiviados da madeira tratada com CCA, e que a lixiviao mais acentuada em solos midos do que em solos secos. A liberao do arsnio para o ambiente tem sido o principal motivo para fundamentar as restries ao uso da madeira impregnada com o CCA.

Os fatores que influenciam a quantidade de componentes lixiviados da madeira tratada depende do grau de absoro e da distribuio do preservante, concentrao na madeira, permeabilidade da madeira e parmetros tecnolgicos do processo de impregnao. Adicionalmente, o meio a que a madeira estar exposta quando em servio (temperatura, pluviosidade, tipo de solo, entre outros fatores) tambm ir afetar a taxa e a intensidade da lixiviao dos componentes do CCA. At o presente momento so poucas as informaes que permitam estabelecer, com preciso, a intensidade da lixiviao e o consequente risco de contaminao ambiental.

Freitas (2002) estudou a perda de CCA e seus componentes em diferentes espcies de Pinus, aps 21 anos em servio. Os resultados, ilustrados nas Figuras 4 a 7, mostram que a quantidade de CCA lixiviada da madeira ao longo do tempo est diretamente relacionada com a reteno inicial do produto.

Dentre os componentes do CCA tipo A, as maiores perdas foram verificadas para o cobre e as menores para o cromo. O arsnio apresentou comportamento intermedirio, com perdas mais acentuadas no Pinus caribaea var. hondurensis em relao ao Pinus elliottii. Embora tenha sido comprovada a perda (por lixiviao ou volatilizao) do CCA ao longo do tempo em uso, no foi observada reduo significativa na durabilidade da madeira tratada.



Figura 4. Perdas de CCA em estacas de Pinus elliottii e de Pinus caribaea var. hondurensis aps 21 anos de exposio em campo (Freitas, 2002).

Com base nos resultados e nas anlises constantes dos artigos tcnicos citados possvel listar as seguintes concluses:

a durabilidade da madeira de Pinus sem tratamento e em contato direto com o solo inferior a 1 ano;

o tratamento com preservantes do tipo CCA ou CCB aumenta significativamente a durabilidade da madeira de Pinus;

na faixa de reteno relatada, a expectativa de vida mdia da madeira tratada est diretamente relacionada com o nvel de reteno obtido na impregnao; ou seja, quanto maior a reteno maior a expectativa de vida mdia;

para retenes entre 2,0 e 4,0 kg/m tem-se uma expectativa de vida mdia superior a 8 anos para madeira impregnada por processos sem presso e superior a 12 anos para madeira impregnada em autoclave;

para retenes entre 5,0 e 7,5 kg/m tem-se uma expectativa de vida mdia superior a 30 anos para madeira impregnada em autoclave;

at o presente momento, e para as espcies avaliadas experimentalmente, a durabilidade da madeira de Pinus est relacionada com o nvel de reteno e o produto usado no tratamento, independentemente da espcie;

para nveis de reteno entre 6,0 e 10,0 kg/m, o ndice de Comportamento da madeira tratada com CCA tipo A foi de 4,0 a 23,0% superior ao da madeira tratada com CCB com reteno similar;

verificou-se uma perda dos componentes do CCA tipo A ao longo do tempo, principalmente do cobre (CuO), mas essa perda no foi suficiente para alterar a durabilidade da madeira tratada.

Ivaldo P. JANKOWSKY

(ipjankow@esalq.usp.br)

Cristiane T. BARILLARI

(cristb@ipt.br)

Viviane de Paula e FREITAS

(vpfreitas@faef.br)

Maio/2003