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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°131 - MAIO DE 2012

Silvipastoris

Sistemas silvipastorais no Mato Grosso do Sul

Mato Grosso do Sul, no setor florestal, tem em sua trajetória basicamente quatro fases de evolução. A primeira, ligada basicamente à implantação de florestas de eucalipto a partir de incentivos fiscais na década de 1970; a segunda, com a chegada da Três Lagoas Agroflorestal que nos anos 1980 já preparava o caminho para dar suporte à instalação de fábricas de papel e celulose, naquela época planejadas pela Champion, cujos projetos foram postergados até recentemente; a terceira, que a partir dos anos 1990 desenhou o plantio de árvores em pequena escala nas propriedades, com vistas ao suporte energético para atividades agropecuárias e suportada principalmente no sistema de reposição florestal; a última e contemporânea fase que se deu a partir de meados dos anos 2000, com a efetiva implantação de maciços florestais de eucalipto, diretamente ligados às fábricas.

De estimados 500 mil ha da época dos incentivos fiscais, consumidos em grande parte pelo fogo, formigas e cupins por falta de manutenção e de perspectivas de consumo, Mato Grosso do Sul se recuperou e encontra-se hoje com uma área florestal composta principalmente de eucalipto, seguida de pinus, com cerca de 450 a 480 mil ha, segundo a Reflore. Hoje estas florestas são manejadas com as mais modernas técnicas silviculturais, em ciclos de 5 a 7 anos, estando implantadas em sua maioria na região leste, de solos mais arenosos e em muitos casos neossolos quartzarênicos, com pequeno montante nas regiões sul e centro-norte, em solos mais argilosos. Embora parte dessa produção esteja sendo utilizada no processamento de madeira serrada e seus derivados, a imensa maioria do material está destinada ao papel e celulose da região de Três Lagoas, que produz 1,3 milhão de toneladas e com mais duas plantas que entrarão em funcionamento entre 2012 e 2013, mais que dobrarão a produção. Estima-se que nos próximos 15 anos, a área de florestas plantadas do MS deva atingir um milhão de ha para atender a esta demanda.

Embora metade das terras utilizadas para a silvicultura seja de propriedade das indústrias, o restante tem sido contratado junto aos proprietários sob a forma de arrendamento ou parceria rural, no valor de R$ 200 a R$ 400 por ha. Recente matéria no MS Rural demonstrou a satisfação dos produtores, antes pecuaristas no manejo extensivo, indicando que a rentabilidade é maior na silvicultura.

As fábricas de papel e celulose, responsáveis pelo crescimento da silvicultura no MS instaladas em Três Lagoas, estão e estarão com suas áreas de abastecimento de matéria prima em expansão nos próximos anos. A preferência, no entanto, é por áreas próximas às plantas industriais, em função da redução de custos com transporte da madeira e manutenção dos plantios. Um forte indicativo disso é que um dos fatores que compõem o valor ofertado ao proprietário rural na parceria ou arrendamento é a distância, reduzindo drasticamente o valor pago com o aumento desta.

No momento, como a necessidade de matéria prima é premente, ainda não há muita dificuldade em fechar acordos entre produtor e consumidor de madeira de reflorestamentos na região leste do estado. No entanto, nos próximos anos questões econômicas farão com que os investidores deem preferência a áreas mais próximas das plantas industriais.

Esta perspectiva deve gerar atenção por parte dos produtores rurais que, certamente não devem perder a aceleração do crescimento da silvicultura no estado e suas consequências positivas, mas também devem ficar de olho em alternativas que não sejam apenas o fornecimento de madeira para papel e celulose.

Uma dessas alternativas é a produção de madeira serrada e seus derivados, que possui uma variedade maior de indústrias consumidoras além de apresentar maior valor agregado, o que permite a inclusão de maiores custos de transporte e manutenção. Assim, não só industrias regionais, mas também de outros estados poderão se tornar compradores desse material.

MANEJO

A produção de madeira serrada de eucalipto em sistema de manejo com dois ou três desbastes, em ciclos de 15 anos para os solos da região leste e talvez 12 para solos melhores no restante do estado é uma das alternativas para reduzir os riscos de forte redução dos preços da matéria prima que poderá vir nos próximos anos. A produção florestal nesse regime silvicultural produz nos desbastes e no corte final, madeira para usos diversos como na construção civil, em obras na propriedade rural, energia (carvão e lenha) e também para fábricas de celulose e papel. No entanto, a parte mais valorizada da produção é a madeira de maiores dimensões e melhores características tecnológicas para uso no desdobramento em serrarias, laminados e outros usos.

Esse regime de produção, no entanto, embora permita o fornecimento de matérias primas florestais variadas, garantindo maior confiança ao produtor, é excludente para a pecuária, já que ocupa toda a superfície do solo com árvores, impedindo a criação de animais pelo menos até o primeiro ou segundo desbaste, pela dificuldade do desenvolvimento de forrageiras a graus muito elevados de sombreamento.

A substituição integral das áreas de pecuária por florestas plantadas é um preocupação antiga que temos no MS e que nos levou a nos especializarmos naquela área do conhecimento que é uma das mais sólidas alternativas ao panorama que acabamos de desenhar: os sistemas agroflorestais (SAF). Os SAFs são alternativos de uso da terra que permitem a associação entre árvores, culturas agrícolas e animais em bases sustentáveis, buscando, portanto o equilíbrio entre as questões econômicas, ambientais e sociais.

São sistemas de produção que apresentam ampla gama de composições de espécies, que podem atender desde a agricultura familiar até os grandes produtores, passando pela produção de madeira de espécies exóticas ou nativas, criação de animais de pequeno e grande porte, de corte ou de leite e os cultivos agrícolas em geral.

Os SAFs podem ser basicamente subdivididos em três subsistemas: sistemas silviagricolas (agricultura e silvicultura), sistemas agrissilvipastoris (agricultura, silvicultura e animais), sistemas silvipastoris (silvicultura e animais). Embora o próprio Prof. Nair admita a existência de outros subsistemas menos destacados, não há dúvida que estes três abrangem a maior parte dos casos existentes ao redor do mundo. Assim, podemos afirmar que quaisquer combinações dos três componentes citados (animais, culturas agrícolas e silvicultura), desde que sempre haja o elemento lenhoso (em geral árvores embora possam ser arbustos), se enquadrarão como sistemas agroflorestais, que tem se consolidado há muitos anos em diversos países.

Os SAFs existem há séculos de forma intuitiva entre os diversos povos, embora venham sendo aplicados de modo sistemático em diversas regiões do mundo apenas desde os anos 1970, quando também a potencialidade destes sistemas no Brasil começou a ser estudada, tendo recebido importante avanço a partir dos anos 1980. Neste período, os SAFs ganharam a importante contribuição do Prof. Laércio Couto, que orientou trabalhos de Mestrado e Doutorado quando então era docente na Universidade Federal de Viçosa,

Dentre os trabalhos que estamos desenvolvendo podemos destacar o teste de forrageiras sob eucalipto em areia quartzosa e em latossolo (Ribas do Rio Pardo e Ivinhema), avaliação de espaçamento entre faixas de árvores para braquiária (Ivinhema), desenvolvimento de braquiárias sob diversos clones e espaçamentos (Ribas), teste de forrageiras em diversos espaçamentos de canafístula (Dourados e Ponta Porã), teste de procedências (MS e MG) e progênies de canafístula, além de outros com mudas. As produções de pesquisa do GESAF podem ser acompanhadas pelos sítios de internet citados acima. Nossos importantes parceiros tem sido a Embrapa Gado de Corte e a Agropecuária Oeste e a UFGD.

São muitos os obstáculos para a adotabilidade plena dos sistemas agroflorestais no estado e em particular dos sistemas silvipastoris e agrissilvipastoris, embora estas sejam as modalidades de SAFs de maior aplicabilidade no estado do MS, dentre eles podemos destacar: o modo tradicional de produção extensiva de pecuária de corte e as dificuldades no convencimento para a mudança de sistema de uso da terra; pequeno número de profissionais capacitados para os SAFs; falta de recursos humanos, materiais e financeiros para a divulgação; ausência de politica específica de financiamento de pesquisa para o setor, por parte dos órgãos de fomento como é o caso da FUNDECT-MS.
Entretanto, deve-se dar mérito ao Governo do Estado do MS que, com apoio da Câmara Estadual de Florestas, tirou o estado da lista de dificuldades que a silvicultura em geral sofria na região e ainda sofre em outras unidades da federação, que era a falta de legislação que facilitasse a chegada dos empreendimentos, mantendo a sustentabilidade ambiental.

A primeira iniciativa neste sentido foi a Resolução SEMAC n. 17 de 20 de setembro de 2007, que dispensa do licenciamento ambiental as atividades de plantio e condução das espécies florestais. Este documento legal permitiu que as atividades florestais fossem igualadas às atividades agrícolas, nas quais os produtores podem plantar livremente, dentro de parâmetros técnicos e respeitando a legislação de proteção ambiental, bastando apenas um comunicado de plantio florestal. Em seguida foram geradas normas que facilitaram os trâmites para a obtenção de créditos para a reposição florestal e alteração na legislação que determina o pagamento da TMF (Taxa de Movimentação de Produtos e Subprodutos Florestais). Da TMF ficaram isentos as toras, toretes, tora corrigida, mourões, varola, palanques, esticadores, ripões, barrotes, estroncas, escora, dormentes, postes, achas, lascas ou assemelhados, quando destinados à extração de celulose. Esse conjunto de normas avançadas permitiu redução de custos de produção, transporte e comercialização de produtos florestais, contribuindo para o aumento dos investimentos no estado.

Com este arcabouço legislativo favorável ao setor florestal, nos cabe continuar a contribuir para a redução das dificuldades de adotabilidade dos SAFs no estado do MS, acrescentando ainda mais na produção de resultados de pesquisa de utilidade à produção agroflorestal.

Autor : Omar Daniel, Engenheiro florestal, Dr Ciência Florestal pela UFV, prof titulal em Silvicultura e Sistemas Agroflorestais da FCA/UFGD