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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°131 - MAIO DE 2012

Mveis & Tecnologia

O design dos encaixes nos mveis de madeiras

A partir da descoberta, pelo homem primitivo, que o material fornecido pelas árvores poderia ser transformado em instrumentos de caça, a madeira passou a constituir-se em um elemento essencial à humanidade.

O uso de uma pedra lascada cortante trançada a um pedaço de madeira através de uma fibra foi uma das primeiras experiências de união feita em madeira. A partir daí o homem primitivo começou a desenvolver, com estas ferramentas, cortes que facilitaram o processo de união entre as madeiras. A junção de uma peça roliça com outra, através de fibras naturais, não dava uma boa estabilidade estrutural, porém com o uso de ferramentas cortantes podia-se fazer pequenas lascas nas toras de madeira e a estrutura ficaria mais estável. Nasce aí as primeiras ensambladuras, elementos importantes para a construção de encaixes.

Com estas ensambladuras a construção de cabanas já era uma realidade, não se morava mais em cavernas sombrias e úmidas, construíam-se palafitas, permitindo a seus ocupantes morarem sobre as águas, protegidos das tribos inimigas e das feras.

Os conhecimentos adquiridos acerca dos tipos de madeiras e entalhes, fizeram com que o homem desenvolvesse objetos mais leves e confortáveis. Com estes conhecimentos foram construídos, também, objetos que facilitaram o deslocamento para outras terras.

Foi no Egito, junto às águas do rio Nilo, que a história do móvel começou a tomar novo rumo. Nesta região havia escassez de matéria prima de qualidade para a construção de móveis, o que fez com que os egípcios desenvolvessem os primeiros encaixes nos móveis para o aproveitamento de pequenos pedaços destes materiais, e também os revestimentos com lâminas de madeiras nobres para cobrir as peças de madeiras menos nobres.

Os primeiros móveis egípcios tinham um desenho simples sua estrutura era verticalizada, completamente cúbica e lisa.

Na Grécia, como no Egito, o desenho do móvel era também muito simples. Sem o conhecimento das ensambladuras os gregos fixavam as peças com o uso de cavilhas de madeira.

Em Roma as madeiras utilizadas eram as mais variadas, pois eram importadas das várias colônias e províncias do grande império romano. Pregos, pinos, colas e diversos tipos de encaixes foram utilizados e, como nas peças egípcias, o uso de folhas de madeiras mais nobres em cima de outras menos valiosas também foi explorado pelos romanos.

No período Bizantino os móveis também eram produzidos utilizando cavilhas. O marfim era muito utilizado para fazer os detalhes destes móveis e as cavilhas também eram feitas deste material.

O ferro é introduzido nos móveis, no período Românico, não apenas com uma função decorativa, mas também como um reforço estrutural para as ensambladuras, que aos poucos vão sendo desenvolvidas. Este desenvolvimento se dá de forma muito lenta, inclusive por toda a Europa.

No período Gótico as estruturas dos móveis continuam como no período Românico, porém conforme avança a idade média novos tipos de ensambladuras vão sendo utilizadas juntamente com as colas de milano, golondrina, ingletes, etc .

Os ajustes entre as peças ficam cada vez mais perfeitos, além disso, desde o ano de 1320 começam a ser utilizadas as serras hidráulicas.

No final do Renascimento, com o uso constante do ébano, surge o termo ebanista, quando se utiliza incrustações de outras madeiras, aplicações de chapas de marfim e metais diversos.

No Barroco, principalmente na época de Luiz XVI a madeira mais utilizada era a nogueira e o carvalho. Na regência de Luiz XV o uso de madeiras provenientes de árvores frutíferas era muito utilizado.

Em 1770, a imposição de rígidas condições para se exercer a arte da ebanisteria fez com que esta arte industrial alcançasse sua mais alta perfeição técnica.

A revolução industrial trouxe este avanço tecnológico. O desenvolvimento das máquinas operatrizes fez com que o processo produtivo passasse por uma grande mudança. Novos modelos produtivos foram criados. A produção em série deu um novo rumo à produção de móveis.

Com o uso de máquinas modernas, com precisão na casa dos milésimos de milímetro, onde não se precisa mais enumerar as peças com seus respectivos encaixes, pois as mesmas, com precisão milimétrica e todas idênticas se encaixam indistintamente, a arte da construção artesanal dos móveis vai desaparecendo.

Com a revolução industrial, a história dos móveis também mudou: novas técnicas, novas ferramentas permitiram novas sambladuras (encaixes) e novas formas de tratamento do material até então utilizado em sua fabricação: a madeira. Até então, as técnicas conhecidas só permitiam as sambladuras feitas nas extremidades da madeira e resistentes a esforços verticais que os móveis de então souberam tão bem receber.

Porém, como se pode perceber, hoje, apesar de toda a tecnologia disponível os encaixes utilizados, até então, estão sendo substituídos por sistemas de montagem que se adéquam ao novo modelo de desmontabilidade, pois o que importa agora é o volume produzido. Não se pode transportar móveis montados, pois o volume transportado tem que ser o máximo e muitos projetos de design de móveis tem sido desenvolvidos segundo este modelo. Com isso limita-se o desenho dos móveis e também, começa-se a decretar o fim da profissão do marceneiro, como conhecíamos. Este profissional, que no final do séc. XIX era formado, em sua maioria, pelos imigrantes europeus que importavam ou criavam máquinas, adaptando-as com sucatas e que davam emprego aos conterrâneos sem capital.

Profissionais que montavam suas marcenarias em fundo de quintal e ali disseminavam suas técnicas de construção de móveis, passando-as de pai para filho, de patrão para funcionário. Sabedores de conhecimentos vários, sobre tipos de madeiras, melhores encaixes utilizados nas partes dos móveis, melhores técnicas de colagem, acabamento, etc.

Os marceneiros são os guardiões destes conhecimentos que tinham até então, como função, apenas estruturar o móvel. Porém, alguns designers descobriram que os encaixes são mais do que simples reforços, eles podem ser elementos estéticos que fazem toda a diferença no desenho do móvel.

Por isso faz-se necessário que este conhecimento, milenar, não se perca. Alguns designers contemporâneos perceberam a importância do mesmo e vem resgatando, em seus trabalhos, o uso destes encaixes dando a eles uma nova dimensão, não somente estrutural, mas estética. Com o uso da tecnologia disponível novos encaixes são criados, dando aos móveis uma nova expressividade. Surge aí uma nova corrente de designers que não utiliza os encaixes somente como elemento estrutural; utiliza-os, também, como elemento estético.

Um grande exemplo é o designer carioca Maurício Azeredo. Sua criação prova que não é preciso romper com o passado para ser atual. Maurício estuda e recupera métodos antigos de marcenaria, combinando-os com o desenvolvimento de uma nova tecnologia para criar uma síntese entre os dois. Cultiva um respeito reverencial à madeira, nossa matéria prima por excelência, cuja utilização está a pedir um maior debate à luz das implicações ecológicas.

Maurício de Azeredo pesquisou estruturas construtivas da arquitetura vernácula brasileira chegando às construções de madeira que são fundamentadas nos encaixes e também pesquisou a carpintaria japonesa, também predominantemente de encaixes. Em seus projetos o uso de madeiras brasileiras oriundas da Amazônia é uma constante. Conforme ele mesmo disse: “Percebi também que a diversidade de madeiras era desejável sob o ponto de vista plástico, pois abria a possibilidade de fugir da cor única e de incorporar contrastes ao móvel, que assim, poderia se transformar num objeto cultural com maior expressividade.”

Em suas peças, Maurício Azeredo, explora também as juntas que para ele gera uma estrutura que é sempre deixada visível e participa plasticamente da peça.

Os designers, ao projetar móveis de madeira maciça, se deparam com alguns questionamentos: o primeiro deles é acerca do tipo de encaixe que se deve utilizar para que a estrutura fique rígida; outro é sobre a relação do tipo de encaixe com a espécie de madeira. Há também a relação das partes dos móveis, tais como longarinas, travessas, pernas, pés, etc. com os tipos de encaixes mais adequados para cada uma destas partes.

Todos estes questionamentos, antigos por sinal, às vezes são resolvidos utilizando, apenas encaixes tradicionais como a respiga e furos oblongos. Porém este tipo de encaixe, apesar de sua resistência confirmada em muitos estudos, é um elemento limitador do projeto, pois os mesmos ficam escondidos. Percebe-se que há uma tendência projetual, de alguns designers, de mostrar estes encaixes, que outrora ficavam escondidos. Este estudo nos mostra que desde tempos remotos o homem utiliza técnicas construtivas que pouco mudaram, principalmente no que tange o uso de encaixes, nas estruturas das partes dos móveis. Pouco se tem de estudos mostrando os tipos de encaixes utilizados, quando e como utilizá-los. A bibliografia é escassa.

Conclui-se, com este trabalho, que há uma necessidade urgente de trabalhos científicos na área de encaixes, esta técnica milenar que dispensa o uso de pregos, parafusos e outros elementos de fixação. O que se tem, na maioria das vezes, é a aplicação dos encaixes que foram transmitidos de geração para geração.

Mesmo que algumas experiências, de produtores e designers de móveis contemporâneos, vêm sendo desenvolvidas, utilizando diferentes e criativos tipos de encaixes para os móveis, o potencial que se tem hoje, com o uso de máquinas e ferramentas modernas, é pouco explorado.

Não se tem, por exemplo, uma biblioteca de encaixes, comprovadamente eficiente e esteticamente desejável para partes específicas de móveis e para tipos diferentes de madeira.

Acredita-se que há uma necessidade urgente de se repensar o modo produtivo dos móveis de madeira maciça.


Autores: PEREIRA, Romeu Rodrigues Pereira e Sebastiana Luiza Bragança Lana