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REVISTA DA MADEIRA - EDIÇÃO N°59 - SETEMBRO DE 2001

Meio Ambiente

Impactos Ambientais

A questo dos efeitos ambientais das plantaes de eucalipto parece, hoje, to indefinida quanto prpria origem dessas especulaes. As polmicas sobre a cultura sempre foram acirradas e h os que atribuem a ela a destruio das matas nativas, o empobrecimento do solo, o esgotamento da gua a reduo da biodiversidade animal e vegetal; alm disso, reduz as oportunidades de trabalho na regio onde plantada, aumentando o xodo rural. Do outro lado, h os que consideram o eucalipto como a nica alternativa capaz de evitar a destruio dos remanescentes de mata nativa. Polmicas parte, preciso que as questes emocionais dem lugar a evidncias cientficas. No se pode chegar a extremos, com crticas carregadas de emoo, infundadas e discriminadas que beiram ao ridculo, prpria de leigos e curiosos no assunto. preciso, antes de tudo, que se coloque em julgamento no a espcie em si, mas as tcnicas utilizadas pelo homem para tirar proveitos sem conta e colher frutos e dividendos, dentro da brevidade possvel.

Inmeros questionamentos se fazem ao comportamento do eucalipto, em vrios pases. A sua natureza extica causa arrepios naqueles nacionalistas eufricos. Chegam, mesmo, a questionar sobre a existncia de alguma espcie nativa que possa substituir a espcie aliengena ; outros, ainda, procuram relacionar o eucalipto e a Austrlia, pas de origem e muito seco, e forando uma correlao entre a rvore e o meio. O eucalipto chegou Europa em 1774 pela crena generalizada em seu poder milagroso contra a malria e outras doenas. No se conhecia, poca, a etiologia da malria e o eucalipto cumpriu o seu papel milagroso, diminuindo os casos da doena, com a eliminao do encharcamento dos pntanos. Em 1871, ao contrrio, a introduo do eucalipto no estado do Rio de Janeiro, no Brasil, coincidiu com um surto de febra amarela; no preciso dizer que, em 1882, na cidade de Vassouras, todas as rvores de eucalipto foram arrancadas pelo povo como responsveis pelo aparecimento da doena na cidade. Outro questionamento, por demais importante, relacionado ao consumo de gua, com a alegao de que a espcie considerada ressecadora de solo e precursora de desertos.

Outro questionamento quanto sua possvel influncia sobre o solo, tanto do ponto de vista de proteo quanto das propriedades fsicas, qumicas, efeitos alelopticos sobre a microflora e de seu esgotamento, em funo da alta demanda de nutrientes pela cultura do eucalipto. Outro questionamento sobre o eucalipto quanto formao de monoculturas extensas, caracterizadas por apresentar baixa diversidade ecolgica, resultando em instabilidade ou vulnerabilidade a mudanas climticas ou ataque de doenas e pragas.

No se pode perder de vista que o gnero Eucalyptus possui mais de 650 espcies, com gentipos adaptados s mais variadas condies de solo e clima. A existncia dessa variao intra-especfica em relao aos fatores ambientais j foi confirmada para uma srie imensa de espcies, sendo extremamente difcil e temerrio fazer generalizaes.

Parte das crticas contra o eucalipto conseqncia de expectativas frustradas, como resultado de programas malsucedidos de reflorestamento. Especificamente, no Brasil, as falhas ocorridas na implantao e manejo dos primeiros povoamentos contriburam para a formao de florestas desuniformes e com baixa produtividade. Alm do estresse fisiolgico e abandono a que estavam submetidos, permitiu-se o desenvolvimento de pragas e doenas, alm do surto de incndios, resultando em desastres ecolgicos, com grande repercusses. O insucesso dos reflorestamentos iniciais se deveu aos seguintes fatores:

a) inexistncia de trabalhos especficos que norteassem o estabelecimento de novas florestas;

b) planejamento inadequado do uso da terra, com a utilizao inadequada de reas, da quantidade e qualidade de fertilizantes, manejo incorreto do solo, com a falta de uso de tcnicas conservacionistas etc.

c) escolha inadequada de espcies/procedncias, em razo do desconhecimento das espcies, inexistncia de sementes melhoradas e de programas de melhoramento etc.

d).falhas na poltica, legislao e, principalmente, na fiscalizao, permitindo-se a evaso de recursos, a substituio total da floresta natural pela plantada e o abandono de muitas propriedades aps o segundo ano de plantio.

A despeito de muitos problemas com os reflorestamentos iniciais, a elevada demanda de matria-prima florestal exige a implantao de monoculturas.

Por Que Uma Cultura Extica

O conceito de espcie extica no deve ter limites polticos, mas apenas e estritamente ecolgicos e histricos. Toda espcie requer uma srie de exigncias quanto aos fatores do meio. Dentro do amplo espao ecolgico, existem espaos menores que apresentam algum fator de restrio ao completo desenvolvimento da espcie, assim como existem espaos menores que apresentam um conjunto de fatores ambientais que permitem o mximo aproveitamento pela espcie. As comunidades naturais no so estticas e a introduo de espcies exticas bem aceita dentro do conceito moderno da ecologia evolucionria. Os cientistas afirmam que nem o estgio de clmax das florestas naturais condio nica para a existncia de estabilidade e nem a atividade de reflorestamento com eucalipto representa uma atuao antrpica despropositada. Quando se comparam espcies agrcolas e florestais, h uma duplicidade de valores. As grandes culturas agrcolas do mundo so exticas, sem quaisquer contestaes, como o caso de milho, trigo, arroz, batata, mandioca, caf, cana-de-acar etc. Alm do exotismo dessas culturas, no se contesta o seu impacto quanto elevada demanda de nutrientes minerais e de irrigao, ao uso intensivo do solo, perda de solo por eroso, ao uso de pesticidas, adoo de monoculturas extensivas etc.

O Eucalipto Resseca O Solo

Qual seria o efeito da cultura de eucalipto sobre o funcionamento hidrolgico? Qual seria o impacto da cultura sobre a disponibilidade de gua no solo? preciso se analisar que o fenmeno de ressecamento do solo poderia ser o resultado de uma diminuio cclica das chuvas; poderia ser conseqncia da intensidade de uso do solo, do aumento da populao e de reas urbanizadas e industrializadas, do aumento do uso do fogo, do aumento das reas de pastagem, fatores estes que, somados, conduzem a uma compactao e revestimento, com uma conseqente gradual diminuio de infiltrao de gua no solo. Em condies tropicais, com a estao chuvosa bem concentrada em alguns meses do ano, o funcionamento hidrolgico , normalmente, mais vulnervel aos impactos resultantes das atividades do uso da terra. Com a diminuio da infiltrao, a gua de chuva tende a escoar superficialmente pelo terreno, diminuindo a recarga subterrnea.

O aumento da utilizao dos reservatrios de gua subterrnea para irrigao e abastecimento pblico pode contribuir para o abaixamento do lenol fretico, diminuindo o fluxo das nascentes e dos cursos dgua, durante a estao seca. medida que o efeito hidrolgico foi ficando mais evidente, as plantaes florestais foram se tornando alvo de crticas. Quando se analisa o balano de gua numa floresta, deve-se levar em considerao a interceptao, evaporao, transpirao e escoamento superficial da gua. A maioria das crticas ao eucalipto relativa transpirao. Mesmo dentre as diferentes espcies do gnero Eucalyptus, existem diferenas marcantes. O Eucalyptus camaldulensis, espcie muito plantada no cerrado mineiro, onde a deficincia hdrica elevada, apresenta uma transpirao muito baixa, quando comparada com E. urophylla e E. pellita. Alguns pseudocientistas chegaram a afirmar que o eucalipto poderia consumir at 360 litros de gua por dia. Num espaamento de 2 x 2 metros, isso eqivaleria a uma evapotranspirao diria de 90 milmetros, o correspondente cifra astronmica de 16.425 milmetros anuais. Por certo, tais valores so irreais e contrariam todas as bases cientficas, levando-se em conta a quantidade normal de energia solar disponvel para a evaporao da gua, onde limite mximo de evapotranspirao anual de 1.500 milmetros anuais e a ao dos estmatos que realiza efetivo controle biolgico do processo de transpirao da planta.

Outras culturas, at mesmo anuais, como as agrcolas, demandam maior quantidade de gua que o eucalipto, no perodo de mxima atividade vegetativa. Um dos maiores pesquisadores da rea, Walter de Paula Lima, da ESALQ-USP, afirma que diferentes espcies florestais podem apresentar uma similaridade nas taxas de evapotranspirao total e relaciona inmeros trabalhos internacionais que comprovam que o controle estomtico da transpirao das espcies de eucalipto muito semelhante ao de outras espcies florestais. Os valores absolutos de perdas por interceptao nas plantaes de eucalipto so semelhantes e at menores que os observados em condies de floresta natural. Em funo da alta taxa de crescimento, h uma conseqente alta taxa de consumo de gua, mas altos valores de eficincia de gua do solo. Comparando-se a eficincia do uso da gua, em termos de biomassa por quilo de gua consumida, tm-se: Pongamia pinnata, 0,8; Prosopis juliflora,1,7; Albizzia lebbek, 1,7; Eucalyptus tereticornis, 1,9.

Comparando-se a eficincia do uso da gua para algumas culturas agrcolas, tem-se, que para cada quilo de gua, uma produo de 0,98 gramas de trigo, 0,5 grama de feijo, 1,8 gramas de acar, 1,08 grama de milho e 0,6 gramas de batata.

A alegada capacidade de crescimento em reas encharcadas muito restrita de algumas espcies, como o Eucalyptus robusta, E. camaldulensis e E. tereticornis. A quase totalidade das espcies no suportaria crescer em tais ambientes e, por certo, ali no sobreviveriam.

O Eucalipto Empobrece O Solo

Em funo da alta taxa de crescimento, h uma conseqente demanda de nutrientes do solo. Cabem aqui algumas perguntas: Quanto de nutrientes a eucalipto retira do solo? Em termos comparveis de produo de madeira, ser que as plantaes de eucalipto esgotariam as reservas de nutrientes do solo mais rpida ou exaustivamente que outra espcie vegetal?

Algumas espcies so afetadas mais severamente do que outras pela deficincia nutricional e bem possvel que essa adaptao a solos de baixa fertilidade pode significar uma capacidade de sobrevivncia. Embora os solos da Austrlia, onde os eucaliptos ocorrem naturalmente, sejam de baixa fertilidade no se deve entender que as espcies sejam menos exigentes em todas as circunstncias; ao contrrio, tais espcies sobrevivem em solos de baixa fertilidade, mas so bastante sensveis fertilizao.

A influncia dos mtodos de manejo nos povoamentos florestais sobre a fertilidade do solo deve ser analisado separadamente para cada nutriente, em razo das diferenas nos processos relativos ciclagem no ecossistema. surpreendente a quantidade de nutrientes contidos nas folhas, ramos e casca das rvores de eucalipto. O eucalipto mais eficiente do que as conferas no processo relativo ciclagem interna de nutrientes. Nos ltimos anos, tem aumentado a preocupao com o manejo adequado dos resduos de explorao. A queima, antes utilizada para limpeza do terreno, promovia grandes perdas de nutrientes por volatilizao e lixiviao, devido liberao de nutrientes em quantidade superior capacidade do solo, durante a ausncia de vegetao responsvel pela fixao da biomassa. A queima, ainda, promove uma reduo drstica da matria orgnica no solo, muito importante nas propriedades fsicas, como mantenedora da fauna do solo.

A idade em que as rvores de eucalipto so cortadas guarda bastante relao com a quantidade de nutrientes que podem ser removidos do solo. Por ocasio da formao do cerne, que ocorre normalmente a partir dos oito anos de idade, os nutrientes so, normalmente, translocados da madeira, onde o cerne dever conter menos nutrientes que o alburno. Dessa forma, o corte de rvores mais jovens dever remover mais nutrientes que as rvores mais velhas. Rotaes muito curtas exigem mais do solo e no possibilitam o retorno de folhas, galhos, casca e restos florais que ajudam a manter a floresta. Estudos realizados mostram que os efeitos provocados pelos plantios de eucalipto no eram diferentes daqueles provocados pelas espcies nativas. Ademais, quando se procedeu substituio de culturas, os solos , anteriormente ocupados com plantios de eucalipto, revelaram maior fertilidade do que outros solos ocupados com outras culturas.

As tcnicas utilizadas no preparo do solo, bem como nas fases de implantao, manuteno e explorao so extremamente importantes na manuteno da fertilidade do solo, contendo processos erosivos, evitando cortes rasos e garantindo a sustentabilidade, atravs de seguidas rotaes.

O Eucalipto Possui Efeito Aleloptico

Uma das crticas ao eucalipto se relaciona ao seu possvel efeito aleloptico, criando no solo condies desfavorveis ao crescimento de outras plantas ou restringindo o crescimento de certas culturas agrcolas pela proximidade da cultura de eucalipto. Algumas perguntas vm-nos mente: ser que existe algum efeito inibitrio real do extrato das folhas, da serapilheira ou das razes do eucalipto? Ser que o efeito inibitrio do campo no seria conseqncia da forte competio por gua, nutrientes, luz e outros fatores do meio? Quais estudos sobre a ocorrncia e a diversidade do sub-bosque em plantios de eucalipto? Quais efeitos dos processos controladores de matocompetio no preparo do solo sobre as espcies existentes? Estudos mostram que a introduo de uma espcie pode causar alguma alterao na flora local, como resultado de modificaes nas condies microbiolgicas do solo. Os especialistas da rea so unnimes em afirmar que os alegados efeitos de alelopatia em eucalipto so, em sua maioria, devido competio por gua e nutrientes, que se estabelece durante a fase de crescimento rpido.

O Eucalipto Reduz A Diversidade Animal

A quantidade e a diversidade de espcies animais que podem ser encontradas num dado ecossistema florestal dependem do nmero de nichos disponveis do habitat. Nesse caso, seja de eucalipto ou de outra cultura, qualquer monocultura reconhecidamente menos capaz de suportar uma alta diversidade de fauna. Em geral, as monoculturas podem reduzir seriamente a quantidade de energia e de nutrientes, assim como a disponibilidade temporria de abrigo. A reduo da diversidade bitica altera a estrutura das cadeias trficas em razo da modificao da alimentao, eliminando os predadores de grande importncia e promovendo o desequilbrio entre os diferentes componentes abiticos. Segundo os especialistas da rea, uma plantao florestal, em si mesma, no uma condio de completa ausncia de fauna.

As condies de habitat da fauna podem ser melhoradas com prticas de manejo florestal adequadas, atravs de um mosaico de talhes de diferentes idades, desde reas recentemente cortadas at povoamentos de diferentes idades e estrutura. Um dos problemas principais da interao produo de madeira conservao de fauna a exigncia de certas espcies animais que requerem rvores adultas ou florestas maduras, como habitat adequado. A conservao da fauna envolve cinco estratgias de ao: a) existncia de rvores adultas ao longo das plantaes; b) aumento do perodo de rotao; c) reteno de reservas de florestas naturais sem perturbao; d) presena de algumas reas abertas, sem plantio, uma vez que certas espcies dependem desse habitat para a sua procriao e e) construo de audes e represas, bem como o plantio de rvores frutferas ao longo da rea.

No Brasil, a fauna foi bastante reduzida em funo da elevada fragmentao das florestas e da intensidade da caa predatria. Algumas empresas, como a KLABIN, a CAF, a ARACRUZ e Vallourec Mannesmann tm adotado certas aes conservacionistas, com resultados bastante positivos para o diversidade da fauna. Alm da proteo contra a caa, tais empresas preservam os ecossistemas naturais, interligando reas de reserva permanente com reas de efetivo plantio de eucalipto e diminuindo o tamanho dos talhes, intercalando-os com mosaicos de vegetao nativa. J possvel encontrar nos plantios de eucalipto centenas de espcies de aves e mamferos e milhares de espcies de insetos.

O Eucalipto Influencia O Balano De Carbono Na Atmosfera

A produo de biomassa vegetal no Brasil goza de condies especiais, devido situao tropical predominante, onde a radiao e a temperatura influenciam na taxa de fotossntese e, consequentemente, na absoro do dixido de carbono na atmosfera. O plantio de eucalipto permite a fixao de carbono no solo, possibilita ao usurio a obteno de madeira, para fins energticos, que substitui os combustveis fsseis e mantm um ciclo fechado quando transforma a madeira em carvo vegetal para operaes siderrgicas, ou seja, libera dixido de carbono para a atmosfera durante o processo de carbonizao, mas fixa o elemento na fase florestal.

O eucalipto, como um gnero de inmeras espcies, no deve ser julgado indiscriminadamente como um vilo da natureza. Cabero ao empresrio florestal o discernimento e o bom senso na escolha correta das espcies, na adoo de tcnicas corretas de implantao, manejo e explorao, bem como um respeito aos componentes naturais que garantem a sustentabilidade da produtividade florestal. Respeitando as regras mnimas de convivncia com a natureza, o homem ser capaz de obter lucros e garantir a sobrevivncia, sem temores, das futuras geraes.

Setembro/2002